Glicemia: valores normais, jejum e interpretação
Glicemia de jejum normal abaixo de 100 mg/dL, pré-diabetes de 100 a 125 e diabetes a partir de 126 — com os critérios brasileiros e onde eles divergem.
A glicemia é a medida da glicose — o açúcar — circulando no seu sangue, e um dos exames mais pedidos do Brasil: serve para rastrear e acompanhar o diabetes, investigar sintomas como sede e cansaço, e entra em praticamente todo check-up. Este guia explica como ler o número do seu laudo: os valores de referência usados no Brasil (e onde as fontes brasileiras não concordam entre si), o preparo que realmente muda o resultado, e o algoritmo brasileiro do diabetes gestacional.
Em resumo
- No Brasil, a glicemia de jejum normal é abaixo de 100 mg/dL; de 100 a 125 mg/dL é pré-diabetes; ≥ 126 mg/dL levanta o diagnóstico de diabetes, que precisa de confirmação.12
- ⚠️ As fontes brasileiras divergem. O Caderno de Atenção Básica nº 36 do Ministério da Saúde, ainda em circulação, usa 110 mg/dL como limite do normal — dez unidades acima da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e do TelessaúdeRS.312
- A SBD adotou um critério que a maioria dos laudos ainda não traz: glicemia de 1 hora no TTGO ≥ 209 mg/dL também diagnostica diabetes.1
- Uma glicemia baixa isolada em quem passa bem quase sempre é problema de tubo, não de pâncreas: a glicose continua sendo consumida dentro do tubo depois da coleta.45
- No diabetes gestacional, o Brasil tem consenso próprio (SBD, FEBRASGO, OPAS e Ministério da Saúde) com dois algoritmos, conforme o serviço consiga ou não fazer o TTGO.67
O que é a glicemia
A glicemia é a concentração de glicose no plasma, expressa no laudo brasileiro em mg/dL. A glicose é o principal combustível do organismo: vem sobretudo dos carboidratos da alimentação e abastece cérebro, músculos e todas as células.
Dois hormônios do pâncreas mantêm esse nível estável: a insulina, que faz a glicose entrar nas células e baixa a glicemia, e o glucagon, que a eleva mobilizando o estoque do fígado. Quando essa regulação falha — por falta de insulina ou por resistência das células à sua ação —, a glicose sobra no sangue: é o mecanismo do diabetes tipo 2.1
Uma confusão frequente: "glicose" é a molécula; "glicemia" é o exame que mede a sua concentração. A SBPC/ML pede que a solicitação médica seja explícita — glicose "em jejum" ou "casual" —, porque a interpretação muda completamente.8
Por que o exame é pedido
- Rastrear diabetes tipo 2 e pré-diabetes: a SBD recomenda rastreamento para todos a partir dos 35 anos, e antes disso para adultos com sobrepeso ou obesidade e ao menos um fator de risco adicional.1
- Investigar sintomas: sede intensa, urinar muito e à noite, cansaço, emagrecimento inexplicado, visão embaçada, infecções de repetição.1
- Acompanhar um diabetes conhecido, junto da hemoglobina glicada (HbA1c), ou rastrear na gestação — o que no Brasil segue caminho próprio (ver adiante).
- Compor um check-up, ao lado do hemograma completo e do perfil lipídico.
Um detalhe brasileiro que os textos internacionais não trazem: a SBD orienta escolher entre glicemia de jejum e HbA1c "com base na disponibilidade local" do exame de HbA1c.1 Em boa parte do país, a glicemia de jejum continua sendo o exame que existe de fato.
Como o exame é feito — e o que realmente muda o resultado
O jejum
A glicemia de jejum é medida em sangue venoso. As duas referências brasileiras convergem: jejum de no mínimo 8 e no máximo 12 horas, só com água.12 O teto de 12 horas não é detalhe: a SBPC/ML recomenda evitar coletas após jejuns acima de 12 horas e lembra que, em crianças e idosos, o horário deve respeitar os intervalos habituais de alimentação.8
Na véspera, mantenha a alimentação habitual: cortar carboidratos falseia justamente o que o exame quer medir. E o álcool, mesmo esporádico, altera a glicose plasmática de forma significativa e quase imediata.8
O TTGO (teste oral de tolerância à glicose)
O TTGO — também escrito TOTG — mede a glicemia em jejum e novamente 1 hora e/ou 2 horas depois de beber 75 g de glicose anidra diluída em água.1 Duas condições de preparo costumam ser ignoradas: jejum de 8 horas e, nos três dias anteriores, alimentação com pelo menos 150 g de carboidrato por dia.17 Uma dieta restritiva na semana do teste pode falsear o resultado.
O tubo cinza — o ponto que decide o número
A glicose é dosada em plasma obtido em tubo com fluoreto de sódio e EDTA, o de tampa cinza, que é o último da sequência de coleta e deve ser invertido gentilmente logo após a punção.89
O fluoreto é um antiglicolítico: ele existe porque as hemácias do tubo continuam consumindo glicose depois da coleta. O PNCQ afirma que, com esse aditivo, a glicose se mantém estável por 24 horas a 25 °C e 48 horas entre 4 e 8 °C — e, ao mesmo tempo, recomenda separar o plasma em até duas horas.9
⚠️ A literatura mostra que o fluoreto sozinho não protege tanto assim. Comparado a um plasma de referência resfriado de imediato, o tubo de fluoreto/EDTA não atingiu o erro aceitável para a glicose em nenhum momento até 4 horas em temperatura ambiente; só o tubo com fluoreto + tampão de citrato reproduziu o valor real.4 Em outro estudo, a diferença entre os dois tubos foi de 6,1 mg/dL já no tempo zero — a glicose caía mesmo com separação imediata.5
E há uma lacuna brasileira que vale dizer: nem o manual de coleta da SBPC/ML nem o do PNCQ preveem tubo com tampão de citrato para glicose — neles o citrato aparece só para coagulação e VHS.89 Na prática: quanto mais tempo o tubo espera, mais baixa sai a sua glicemia, e 5 a 7 mg/dL bastam para mover alguém de 99 para 106 mg/dL.
Valores de referência da glicemia no Brasil
| Exame | Normal | Pré-diabetes | Diabetes |
|---|---|---|---|
| Glicemia de jejum | < 100 mg/dL | 100 – 125 mg/dL | ≥ 126 mg/dL* |
| Glicemia 1 h no TTGO (75 g) | < 155 mg/dL | 155 – 208 mg/dL | ≥ 209 mg/dL* |
| Glicemia 2 h no TTGO (75 g) | < 140 mg/dL | 140 – 199 mg/dL | ≥ 200 mg/dL* |
| Glicemia casual + sintomas | — | — | ≥ 200 mg/dL |
| HbA1c | < 5,7 % | 5,7 – 6,4 % | ≥ 6,5 %* |
* Se apenas um exame estiver alterado, ele deve ser repetido. Se a glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL e a HbA1c ≥ 6,5 % aparecerem na mesma amostra, o diagnóstico já está feito, sem repetição.1
Fonte: Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes.1 Os mesmos cortes de jejum, 2 horas e HbA1c constam do protocolo de atenção primária do TelessaúdeRS-UFRGS e do capítulo de diabetes da SBPC/ML.28
As duas divergências brasileiras que você precisa conhecer
1. O limite do "normal": 100 ou 110 mg/dL? O Caderno de Atenção Básica nº 36 do Ministério da Saúde, de 2013 e ainda amplamente distribuído, coloca a glicemia normal abaixo de 110 mg/dL e chama de "glicemia alterada" a faixa acima de 110 e abaixo de 126.3 A SBD, o TelessaúdeRS (2024) e a SBPC/ML usam 100 mg/dL.128 Quem tem 105 mg/dL é "normal" por um documento ministerial e "pré-diabético" pelos outros três. Não cabe arbitrar aqui: cabe dizer que a divergência existe, que a fonte mais recente usa 100, e que essa faixa merece conversa com o médico.
2. A glicemia de 1 hora. A SBD adotou o TTGO de 1 hora como critério diagnóstico (≥ 209 mg/dL para diabetes, ≥ 155 mg/dL para pré-diabetes), por ser mais prático e detectar o problema mais cedo.1 O protocolo do TelessaúdeRS, de 2024, ainda traz apenas os cortes de jejum e de 2 horas.2 Se o seu laudo não tem a medida de 1 hora, não há erro — só uma diretriz mais nova que a rotina.
Importante: os intervalos de referência podem variar entre laboratórios conforme o método. A referência que vale para você é a impressa no seu laudo. Para converter em mmol/L, use o nosso conversor de unidades — 126 mg/dL correspondem a 7,0 mmol/L.
Como interpretar o seu resultado
Glicemia alta (hiperglicemia)
Um valor acima da faixa pode indicar pré-diabetes ou diabetes, mas não só. Estresse agudo, infecção em curso, medicamentos hiperglicemiantes ou um jejum mal cumprido elevam a glicemia temporariamente — tanto que a SBD recomenda rastrear diabetes antes e depois de iniciar corticoides ou antipsicóticos.1 Um resultado isolado nunca fecha diagnóstico.
Glicemia baixa (hipoglicemia)
A SBD classifica a hipoglicemia em três níveis: nível 1, entre 54 e 69 mg/dL, clinicamente relevante mesmo sem sintomas; nível 2, abaixo de 54 mg/dL, com sintomas neuroglicopênicos e necessidade de intervenção imediata; nível 3, evento grave que exige a ajuda de outra pessoa.10
⚠️ Duas ressalvas. Primeira: essa classificação foi construída para pessoas com diabetes em tratamento, em que a queda costuma vir da medicação. Segunda: em quem não tem diabetes e passa bem, uma glicemia baixa isolada é, na maioria das vezes, pré-analítica — o tubo que esperou.45 Hipoglicemia verdadeira em pessoa saudável é rara e se confirma quando o número baixo coincide com sintomas que melhoram ao comer. Quando é real e inexplicada, a investigação passa pelo par insulina + peptídeo C, colhidos durante o episódio.
Glicemia perigosa: quando procurar atendimento
Não existe um único número "perigoso", e sim duas situações que pedem pressa: a hipoglicemia grave — confusão, mal-estar, desmaio, necessidade de ajuda de terceiros —, que é emergência;10 e a hiperglicemia muito alta com sintomas — sede intensa, urina abundante, náuseas, dor abdominal, sonolência ou hálito adocicado —, que pode anunciar cetoacidose ou estado hiperosmolar e exige atendimento imediato.
Fora desses extremos, um número fora da faixa não é urgência: interpreta-se com calma, com o médico e com o conjunto dos exames.
Por que a glicemia sobe de manhã sem eu ter comido
É frequentemente normal: de madrugada o organismo libera cortisol e hormônio do crescimento, que empurram o fígado a produzir glicose para preparar o despertar — o fenômeno do alvorecer. Sono ruim, estresse, uma infecção começando ou um rebote após hipoglicemia noturna também elevam a glicemia sem culpa da alimentação. Se o padrão se repete, é assunto de consulta, não de uma medida isolada.
Pré-diabetes: um alerta reversível
Estar entre 100 e 125 mg/dL não é uma sentença — é uma janela de oportunidade. Uma metanálise de 44 ensaios com quase 15 mil participantes mostrou que a perda de peso, mesmo modesta (de 1 % a 9 %), aumenta a chance de voltar à normoglicemia e reduz o risco de progredir para diabetes tipo 2, proporcionalmente aos quilos perdidos.11 Na prática: caminhar depois das refeições, priorizar fibras, reduzir bebidas açucaradas, dormir melhor. E, se você já toma algum medicamento, nunca ajuste ou interrompa por conta própria.
Diabetes: números, confirmação e os dados brasileiros
O diagnóstico se apoia nos cortes da tabela acima, com confirmação quando só um exame está alterado.1 Um dado nacional mostra por que o critério importa tanto quanto o número: nos dados laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde, coletados entre 2014 e 2015, a prevalência de diabetes na população adulta brasileira variou de 6,6 % a 9,4 % conforme o critério diagnóstico adotado, ficando em 8,4 % ao se considerar critérios laboratoriais ou uso de medicação; o pré-diabetes variou de 6,8 % a 16,9 %. Era mais frequente em mulheres, crescia com a idade e era maior em pessoas com sobrepeso e obesidade.12
A lição metodológica vale a leitura: a mesma população pode ter "6,6 %" ou "9,4 %" de diabetes conforme o exame e o corte usados.
Diabetes gestacional: o algoritmo é brasileiro
Aqui o Brasil se afasta dos manuais importados — por uma razão explícita. Em 1º de agosto de 2016, um fórum em São Paulo reuniu obstetras da FEBRASGO, endocrinologistas da SBD, consultores da OPAS/OMS Brasil e assessores técnicos do Ministério da Saúde para padronizar o diagnóstico do diabetes mellitus gestacional (DMG). Os critérios foram adaptados dos da OMS "considerando-se as particularidades do Brasil, onde a disponibilidade de recursos de saúde se distribui de forma irregular".67
O resultado são dois fluxogramas, escolhidos conforme o serviço:
- Viabilidade financeira e disponibilidade técnica total. Glicemia de jejum no início do pré-natal; se estiver abaixo de 92 mg/dL, TTGO de 75 g entre a 24ª e a 28ª semana. Detecção estimada: cerca de 100 % dos casos.6
- Viabilidade financeira e/ou disponibilidade técnica parcial. Glicemia de jejum no início do pré-natal e, se abaixo de 92 mg/dL antes das 24 semanas, repetir a glicemia de jejum entre a 24ª e a 28ª semana — sem TTGO. Detecção estimada: 86 % dos casos.6
Esse 86 % não é um chute: vem do Estudo Brasileiro de Diabetes Gestacional, coorte de gestantes do serviço público recrutadas entre 1991 e 1995, em que 86 % das mulheres que teriam DMG pelo TTGO completo já apresentavam glicemia de jejum ≥ 92 mg/dL.613 Nessa mesma coorte, a prevalência de DMG pelos critérios internacionais chegou a 18,0 % das gestantes.14
Os cortes na gestação também são outros. Jejum de 92 a 125 mg/dL em qualquer momento já caracteriza DMG, e no TTGO entre 24 e 28 semanas um único valor alterado basta: jejum ≥ 92, 1 hora ≥ 180 ou 2 horas ≥ 153 mg/dL. Jejum ≥ 126 mg/dL, ou 2 horas ≥ 200 mg/dL, definem diabetes diagnosticado na gestação (overt diabetes), não DMG.7
A reclassificação é feita seis semanas após o parto, com os critérios de não gestantes — e a HbA1c não deve ser usada nela, por não estar validada no puerpério.6 O TelessaúdeRS confirma que é o Ministério da Saúde quem recomenda esse caminho no SUS, incluindo a repetição da glicemia de jejum onde não há TTGO.15
Além da HbA1c: o tempo no alvo
A hemoglobina glicada (HbA1c) reflete a média glicêmica dos últimos 2 a 3 meses, mas é só uma média. Com os sensores contínuos surgiu o tempo no alvo (Time in Range): a SBD recomenda mais de 70 % do tempo entre 70 e 180 mg/dL para pessoas com diabetes tipo 1 fora da gestação, alinhada ao consenso internacional.1016
⚠️ E a HbA1c tem limites particularmente relevantes no Brasil: anemias, hemólise, doença renal, gestação e hemoglobinopatias podem descolar o valor da HbA1c da glicemia média real.10 Como as hemoglobinopatias são frequentes no país, uma HbA1c que não bate com as glicemias merece ser lida ao lado do seu hemograma completo, da hemoglobina e dos reticulócitos. Nesses casos existe uma alternativa que não depende das hemácias: a frutosamina.
O que faz a glicemia variar
- a alimentação e o cumprimento correto do jejum;
- o tempo até o processamento — a glicose só cai, nunca sobe, dentro do tubo;4
- atividade física recente, estresse ou infecção aguda;
- medicamentos, sobretudo corticoides e antipsicóticos;1
- álcool, com efeito quase imediato;8
- a gestação, que muda os cortes de interpretação;7
- uma anemia ou alteração da hemoglobina, que interferem na HbA1c mais do que na glicemia.10
Entenda sua glicemia com a AI DiagMe
Uma glicemia nunca se lê sozinha: o significado do número depende dos seus outros marcadores e do seu perfil — idade, sexo, antecedentes, medicamentos, gestação.
👉 A AI DiagMe interpreta seus exames — de sangue, urina ou fezes — levando em conta todo o seu contexto. É um serviço informativo que não faz diagnóstico e complementa, sem substituir, a avaliação do seu médico.
Avanços recentes
Segundo publicações recentes indexadas no PubMed:
- O diagnóstico ficou mais precoce: o TTGO de 1 hora identifica os casos em média um ano antes que o de 2 horas.1
- O pré-diabetes é reversível de forma proporcional: quanto maior a perda de peso, maior a chance de voltar à normoglicemia.11
- O acompanhamento deixou de ser só a HbA1c: o tempo no alvo, medido por sensor, virou métrica de rotina.16
- A fase pré-analítica entrou na pauta, com estudos mostrando que o fluoreto isolado não impede a queda da glicose no tubo.45
Perguntas frequentes
A partir de qual valor a pessoa é diabética? Glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL, HbA1c ≥ 6,5 %, TTGO de 1 hora ≥ 209 mg/dL ou de 2 horas ≥ 200 mg/dL. Se só um exame estiver alterado, repete-se; se jejum e HbA1c vierem alterados na mesma amostra, o diagnóstico está fechado.1
Qual é a glicemia de jejum normal? Abaixo de 100 mg/dL pela SBD, pelo TelessaúdeRS e pela SBPC/ML. O Caderno de Atenção Básica nº 36 do Ministério da Saúde, de 2013, ainda usa 110 mg/dL — a divergência existe.123
Quantas horas de jejum são necessárias? No mínimo 8 e no máximo 12 horas, só com água. Jejum acima de 12 horas deve ser evitado.128
Posso tomar café antes da coleta? Água, sim. Café, chá e cigarro devem ser evitados durante o jejum. Álcool na véspera altera a glicose de forma quase imediata.8
Minha glicemia veio baixa e eu passo bem. É hipoglicemia? Provavelmente não. Um valor baixo isolado, sem sintomas, é quase sempre pré-analítico: a glicose segue sendo consumida no tubo até o plasma ser separado.45 Converse com o médico e, se for o caso, repita a coleta.
Qual a diferença entre glicemia e HbA1c? A glicemia é uma fotografia do momento; a HbA1c, a média dos últimos 2 a 3 meses. São complementares — e a HbA1c pode enganar em caso de anemia, hemólise, doença renal, gestação ou hemoglobinopatia.10
O que é o TTGO e como me preparo? São 75 g de glicose anidra bebidos após o jejum, com coletas em jejum, 1 hora e/ou 2 horas depois. Nos três dias anteriores, coma normalmente, com pelo menos 150 g de carboidrato por dia.1
Toda gestante precisa fazer o TTGO? O ideal é que sim, entre 24 e 28 semanas. Mas o consenso brasileiro prevê explicitamente uma alternativa onde não há TTGO disponível: repetir a glicemia de jejum nesse mesmo período, o que detecta cerca de 86 % dos casos em vez de 100 %.6
Qual o valor de corte da glicemia na gestação? Jejum de 92 a 125 mg/dL em qualquer momento já define diabetes gestacional. No TTGO, basta um valor alterado: jejum ≥ 92, 1 hora ≥ 180 ou 2 horas ≥ 153 mg/dL.7
Para lembrar
A glicemia mede a glicose circulante, e no Brasil o corte que fecha o diagnóstico de diabetes é 126 mg/dL em jejum, confirmado. Três coisas para levar: o limite do "normal" não é consensual entre as fontes brasileiras — 100 mg/dL para a SBD, o TelessaúdeRS e a SBPC/ML, 110 mg/dL no caderno ministerial de 2013;13 o preparo decide o número, do jejum de 8 a 12 horas ao tempo que o tubo cinza espera até ser centrifugado;84 e o Brasil tem um algoritmo próprio para o diabetes gestacional, com um caminho alternativo para serviços sem TTGO.6 Nenhum valor isolado fecha diagnóstico: conta o conjunto dos seus exames e do seu contexto — o que a AI DiagMe ajuda a organizar. Veja também o glossário de exames de sangue e a composição do sangue.
Fontes
Fontes oficiais brasileiras e publicações científicas (PubMed) usadas neste guia:
Footnotes
-
Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) — Diagnóstico de diabetes mellitus, Diretriz da SBD, Ed. 2026 (capítulo com última revisão em 09/07/2024; DOI 10.29327/5412848.2024-1): critérios diagnósticos, TTGO de 1 hora, rastreamento a partir dos 35 anos, preparo do TTGO e escolha do exame conforme a disponibilidade local de HbA1c. diretriz.diabetes.org.br ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13 ↩14 ↩15 ↩16 ↩17 ↩18 ↩19 ↩20 ↩21 ↩22 ↩23
-
TelessaúdeRS-UFRGS — TeleCondutas: Diabetes mellitus, Porto Alegre, UFRGS, 2024: Quadro 3 com os valores diagnósticos, jejum de no mínimo 8 e no máximo 12 horas, e conduta de rastreamento na atenção primária do SUS. ufrgs.br/telessauders ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8
-
Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Cadernos de Atenção Básica nº 36, Brasília, 2013: Tabela 3, com glicemia normal abaixo de 110 mg/dL e "glicemia alterada" entre 110 e 126 mg/dL. gov.br/conitec ↩ ↩2 ↩3 ↩4
-
Bonetti G, Cancelli V, Coccoli G, et al. Which sample tube should be used for routine glucose determination? Prim Care Diabetes, 2016. PubMed · DOI ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7
-
Gupta S, Gupta AK, Verma M, et al. A study to compare the plasma glucose levels obtained in sodium fluoride and citrate buffer tubes at a tertiary care hospital in Punjab. Int J Appl Basic Med Res, 2016. PubMed · DOI ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5
-
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), com SBD, OPAS/OMS Brasil e Ministério da Saúde — Rastreamento e diagnóstico de diabetes mellitus gestacional no Brasil. Femina, 2019;47(11):786-96: fórum de 1º de agosto de 2016, fluxogramas de viabilidade total e parcial, taxas de detecção de 100 % e 86 %, reclassificação pós-parto. docs.bvsalud.org ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8
-
Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) — Rastreamento e diagnóstico da hiperglicemia na gestação, Diretriz da SBD, Ed. 2026 (capítulo com última revisão em 28/01/2022; DOI 10.29327/557753.2022-11): cortes de 92, 180 e 153 mg/dL no TTGO, diabetes diagnosticado na gestação e os dois cenários de viabilidade. diretriz.diabetes.org.br ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6
-
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — Recomendações da SBPC/ML: boas práticas em laboratório clínico: jejum e o limite de 12 horas, efeito do álcool sobre a glicose plasmática, pedido médico explícito de glicose "em jejum" ou "casual", tubo de fluoreto para a dosagem e critérios diagnósticos no capítulo de HbA1c. PDF ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11
-
Programa Nacional de Controle de Qualidade (PNCQ) — Manual de Coleta, 2023: tubo de fluoreto de sódio para glicose, homogeneização por inversão logo após a coleta, estabilidade declarada de 24 horas a 25 °C e 48 horas entre 4 e 8 °C, e separação do plasma em até duas horas. pncq.org.br ↩ ↩2 ↩3
-
Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) — Metas de controle glicêmico, Diretriz da SBD, Ed. 2026: níveis 1, 2 e 3 de hipoglicemia, meta de tempo no alvo superior a 70 % entre 70 e 180 mg/dL e condições que descolam a HbA1c da glicemia média. diretriz.diabetes.org.br ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6
-
Jayedi A, Zeraattalab-Motlagh S, Shahinfar H, et al. Efficacy of lifestyle weight loss interventions on regression to normoglycemia and progression to type 2 diabetes in individuals with prediabetes: a systematic review and meta-analyses. Am J Clin Nutr, 2024. PubMed · DOI ↩ ↩2
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Malta DC, Duncan BB, Schmidt MI, et al. Prevalence of diabetes mellitus as determined by glycated hemoglobin in the Brazilian adult population, National Health Survey — dados laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde coletados entre 2014 e 2015. Rev Bras Epidemiol, 2019. PubMed · DOI ↩
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Trujillo J, Vigo A, Reichelt A, Duncan BB, Schmidt MI. Fasting plasma glucose to avoid a full OGTT in the diagnosis of gestational diabetes — coorte multicêntrica de 4.926 gestantes do serviço público brasileiro, recrutadas de 1991 a 1995. Diabetes Res Clin Pract, 2014. PubMed · DOI ↩
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Trujillo J, Vigo A, Duncan BB, et al. Impact of the International Association of Diabetes and Pregnancy Study Groups criteria for gestational diabetes — Estudo Brasileiro de Diabetes Gestacional, coorte do serviço público recrutada entre 1991 e 1995. Diabetes Res Clin Pract, 2015. PubMed · DOI ↩
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TelessaúdeRS-UFRGS — Como realizar o rastreamento de diabetes na gestação?: recomendação do Ministério da Saúde para o pré-natal no SUS, incluindo a repetição da glicemia de jejum onde o TTGO não está disponível. ufrgs.br/telessauders ↩
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