Índice

Cansaço: quais exames de sangue pedir, e em que ordem

Hemograma, ferritina, TSH e glicemia custam R$ 30,51 no SUS. Mas a causa mais frequente de um cansaço persistente não aparece em exame de sangue nenhum.

Publicado em 9 de setembro de 202616 min de leituraEscrito pela Equipe Blood Analysis · Revisado e verificado por Julien Priour

Cansaço, fadiga, fraqueza, falta de energia, indisposição: cinco palavras para uma queixa que quase todo mundo leva ao consultório em algum momento — e uma das poucas em que a pessoa chega já com o pedido pronto na cabeça: "quero fazer exames de sangue para ver o que está acontecendo". Esta página explica o que esses exames procuram, em que ordem os documentos brasileiros os colocam, quanto custam no SUS e — a parte que raramente é dita — o que eles não vão encontrar.

Em resumo

  • Um núcleo pequeno concentra quase todo o rendimento: hemograma completo, ferritina, TSH e glicemia. No SUS, os quatro somam R$ 30,51.
  • Para a deficiência de ferro, o protocolo do Ministério da Saúde é explícito: hemograma e ferritina bastam; ferro sérico, transferrina e saturação da transferrina "não são obrigatórios".
  • Ferro baixo sem anemia já cansa. O mesmo protocolo registra que pacientes com ferritina baixa e hemograma normal "podem ter os mesmos sintomas".
  • Vitamina D e vitamina B12 são pedidas demais neste contexto. A posição brasileira reserva a dosagem de vitamina D a grupos de risco — e no SUS ela está descrita para raquitismo e osteomalácia, não para cansaço.
  • Num ensaio holandês com pacientes de fadiga inexplicada, apenas 8% tinham uma doença detectável por exame de sangue; ampliar o painel aumentou sobretudo os falsos-positivos.
  • A causa mais frequente de cansaço persistente não é laboratorial: sono, sobrecarga, medicamentos e depressão respondem pela maior parte. No Brasil, a prevalência de depressão medida pela Pesquisa Nacional de Saúde subiu de 7,9% para 10,8% entre 2013 e 2019.

O fato incômodo que precisa vir primeiro

Uma página que enfileira exames sem dizer isto seria uma página ruim. Cansaço persistente é, na maioria das vezes, um sintoma sem tradução no sangue.

O melhor dado sobre isso vem de um ensaio randomizado por conglomerados conduzido com 91 médicos de família na Holanda, o VAMPIRE. Foram analisados 325 pacientes com fadiga nova e inexplicada — 71% mulheres, idade média de 41 anos. Ao fim de um ano de acompanhamento nos prontuários, 8% tinham uma doença somática detectável por exame de sangue. O estudo testou ainda um painel restrito contra um ampliado. A conclusão dos autores é direta: convém restringir o número de exames pedidos, porque o painel ampliado aumentou principalmente os falso-positivos.1

Isso não é desprezo pela queixa — é o contrário. Se o exame quase sempre vem normal, a conversa sobre sono, jornada, luto, medicamentos, álcool e humor não é um consolo oferecido depois que "não se achou nada": é onde a resposta costuma estar. A Pesquisa Nacional de Saúde mediu sintomas depressivos com o questionário PHQ-9 em 60.202 adultos em 2013 e 88.531 em 2019. A prevalência de depressão passou de 7,9% para 10,8% no período — alta de 36,7%. Entre jovens de 18 a 24 anos desempregados, ela quase triplicou, de 3,7% para 10,3%.2 Fadiga é um dos itens desse questionário. Um décimo da população adulta brasileira convive com um quadro que tem o cansaço entre seus sinais centrais, e nenhum tubo de sangue o revela.

Esta página não indica exames nem interpreta resultados: quem decide o que pedir é o médico que ouviu a sua história.

O que os números brasileiros dizem sobre anemia

Aqui o Brasil tem dados próprios, que valem mais do que qualquer referência importada.

A Pesquisa Nacional de Saúde coletou exames laboratoriais em 8.060 pessoas com 18 anos ou mais, em todos os estados. Usando os pontos de corte da OMS — hemoglobina abaixo de 13,0 g/dL nos homens e de 12,0 g/dL nas mulheres —, a prevalência de anemia entre adultos e idosos brasileiros foi de 9,9%. Ela foi maior entre mulheres, entre idosos, entre pessoas com baixa escolaridade e entre moradores das regiões Norte e Nordeste. E um detalhe que muda a leitura de um laudo: o tipo mais comum foi a anemia normocítica normocrômica, com 56,0% dos casos.3

Esse último número merece atenção. A imagem clássica da anemia por falta de ferro é a de glóbulos pequenos e pálidos — VCM baixo. Mas mais da metade das anemias medidas no Brasil não tinha esse desenho: um hemograma completo com hemoglobina discretamente baixa e índices normais é comum, e não aponta sozinho para uma causa.

A mesma pesquisa aplicou cromatografia líquida de alta eficiência para hemoglobinopatias na população adulta: 3,7% apresentaram alguma, sendo as principais o traço falciforme (2,49%) e a talassemia menor (0,30%).4 Traço falciforme e talassemia menor são condições genéticas frequentes no país, e a talassemia menor em particular produz microcitose permanente que pode ser confundida, ano após ano, com falta de ferro. Por isso a distribuição dessas variantes se publica por variante e por região — nunca por cor da pele, que não é um marcador biológico e não orienta exame nenhum.

O núcleo de quatro exames

Não existe, que tenhamos encontrado, um protocolo brasileiro dedicado ao roteiro de investigação do cansaço — nem no Ministério da Saúde, nem no manual de boas práticas da SBPC/ML.5 O que existe são documentos oficiais sobre cada causa que se procura — e é deles que sai o núcleo repetido na prática: hemograma completo, ferritina, TSH e glicemia.

A lógica é de rendimento, não de abrangência. O hemograma cobre anemia e dá um primeiro olhar sobre células brancas e plaquetas. A ferritina cobre o estoque de ferro, que o hemograma sozinho não vê. O TSH cobre a tireoide, e a glicemia, o diabetes. É um conjunto barato, disponível e com causas realmente tratáveis por trás.

O que se agrega depois depende da história clínica, não de um protocolo fixo: função renal e hepatograma quando há motivo, proteína C reativa e VHS diante de suspeita inflamatória, hemoglobina glicada quando a glicemia levanta dúvida.

Ferritina antes de ferro sérico — e por quê

Este é o ponto em que o documento brasileiro é mais útil, e mais ignorado.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia por deficiência de ferro do Ministério da Saúde, aprovado pela Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10 de novembro de 2014, escreve: "Na suspeita de ADF, deve-se solicitar um hemograma completo (com os índices hematimétricos e avaliação de esfregaço periférico) e dosagem de ferritina. Outras medidas, como ferro sérico, transferrina e a saturação da transferrina não são obrigatórios."6

É uma frase pequena com consequência grande. O ferro sérico oscila ao longo do dia e com a última refeição: mede o ferro que circula naquele instante, não o que está guardado. A cinética do ferro completa — ferro sérico, transferrina, saturação de transferrina — tem indicações próprias, mas não é o primeiro passo.

O protocolo também traz os números que o laboratório usa: ferritina normal entre 40 e 200 ng/mL; abaixo de 10 a 15 ng/mL a deficiência é certa, com sensibilidade de 59% e especificidade de 99% — muito específica, pouco sensível. Por isso o texto adota um corte mais alto: em 30 ng/mL a eficiência diagnóstica melhora bastante (sensibilidade 92%, especificidade 98%), e é esse o valor dos critérios de inclusão do protocolo.6

E há a armadilha da inflamação. A ferritina é um reagente de fase aguda: infecção, doença inflamatória, câncer ou doença hepática podem elevá-la e mascarar uma falta de ferro real. O protocolo dá uma regra explícita para esse cenário — dividir o valor da ferritina por 3, e valores resultantes menores ou iguais a 20 ng/mL sugerem deficiência de ferro concomitante.6 É por isso que uma ferritina baixa é conclusiva e uma ferritina normal, em quem tem inflamação, não é.

Ferro baixo sem anemia: o hemograma normal não encerra o assunto

Talvez seja a informação mais útil desta página. O mesmo protocolo do Ministério da Saúde afirma, ao descrever o quadro clínico: "Pacientes com ferritina baixa e sem anemia podem ter os mesmos sintomas."6

A depleção de ferro é progressiva: primeiro esvaziam-se as reservas, só depois falta ferro para fabricar hemoglobina. Entre esses dois momentos existe uma faixa — ferritina já baixa, hemograma ainda normal — em que a pessoa pode se sentir cansada e ouvir que "está tudo bem". Está tudo bem no hemograma. Não necessariamente na ferritina, que é justamente o exame que o hemograma não substitui.

Há evidência experimental para isso. Um ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, conduzido na Suíça, incluiu 144 mulheres de 18 a 55 anos com fadiga inexplicada e sem anemia. Após um mês, o nível de fadiga caiu 29% no grupo que recebeu sulfato ferroso, contra 13% no grupo placebo (diferença de 0,95 ponto numa escala de 10, IC 95% 0,32 a 1,62; p = 0,004). O detalhe decisivo está na análise de subgrupos: só melhoraram as mulheres com ferritina igual ou inferior a 50 µg/L.7 Ou seja, o efeito não é do ferro em geral — é do ferro em quem tem pouco ferro.

Duas ressalvas honestas. O estudo é suíço, com 144 participantes, e mediu fadiga por escala visual analógica, um desfecho subjetivo. E ele não autoriza ninguém a tomar ferro por conta própria: excesso de ferro é tóxico, e a decisão de repor é médica, depois de entender por que ele está baixo.

A tireoide: o que um TSH levemente alterado não explica

Cansaço é sintoma clássico de hipotireoidismo, e o TSH é um exame barato e sensível. Ele merece o lugar que tem no núcleo. O problema começa depois, quando o resultado volta discretamente alterado.

O ensaio TRUST, publicado no New England Journal of Medicine, randomizou 737 adultos com 65 anos ou mais e hipotireoidismo subclínico persistente — TSH entre 4,60 e 19,99 mUI/L, com T4 livre dentro da faixa de referência — para levotiroxina ou placebo. A média de TSH inicial era 6,40 mUI/L. Ao fim de um ano, o TSH caiu no grupo tratado, como esperado. Mas os dois desfechos primários não se moveram: a diferença entre os grupos foi de 0,0 ponto no escore de sintomas de hipotireoidismo (IC 95% −2,0 a 2,1) e de 0,4 ponto no escore de cansaço (IC 95% −2,1 a 2,9), numa escala em que 9 pontos seriam a menor diferença clinicamente relevante.8

A leitura correta é estreita: em idosos com TSH moderadamente elevado, corrigir o número não melhorou o cansaço. Isso nada diz sobre o hipotireoidismo franco, que é outra doença e responde ao tratamento. Diz, sim, que um TSH alto de pouca monta explica menos do que parece — e que a busca pela causa não deve parar ali. Para entender o que cada peça do painel tireoidiano mede, veja os exames da tireoide.

Vitamina D e B12: o que o Brasil realmente recomenda

Aqui o hábito e o documento oficial divergem de forma bastante clara.

O posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) sobre a 25-hidroxivitamina D é explícito quanto a quem deve dosar: a medida é recomendada em grupos com condições de risco para deficiência — pessoas acima de 65 anos, gestantes, quem tem quedas recorrentes, fraturas por fragilidade, osteoporose, hiperparatireoidismo secundário, doença renal crônica, câncer, ou usa medicamentos que interferem no metabolismo da vitamina. Para a população geral, valores entre 20 e 60 ng/mL são considerados normais, e o alvo acima de 30 ng/mL é reservado àquelas condições específicas. O documento ainda alerta para o risco de intoxicação acima de 100 ng/mL.9 Cansaço isolado, em pessoa sem fator de risco, não está nessa lista.

O SUS diz o mesmo por outro caminho. Na tabela oficial de procedimentos, a descrição do código 0202010767 — dosagem de 25-hidroxivitamina D — registra a finalidade prevista: "para o diagnóstico e monitorização terapêutica do raquitismo e osteomalácia".10 Não é proibição, é descrição de intenção. Mas deixa evidente que o exame não foi incorporado como rastreio de fadiga.

Sobre a vitamina B12, não localizamos posicionamento brasileiro equivalente que trate especificamente da pertinência de dosá-la diante de cansaço isolado — e é mais honesto dizer isso do que inventar uma recomendação. O que se pode afirmar com base em documento oficial é o papel do exame: a descrição do código 0202010708 no SUS liga a B12 à hematopoiese, à função neural e ao metabolismo do ácido fólico.10 Sua investigação faz sentido diante de anemia com VCM alto, sintomas neurológicos, cirurgia bariátrica ou dieta sem alimentos de origem animal — situações em que a pergunta clínica existe. Vale o mesmo para o ácido fólico, que no SUS aparece como "dosagem de folato". Fora daí, a chance de o resultado explicar o cansaço é pequena, e a de gerar um valor limítrofe sem significado é grande — o mecanismo que o VAMPIRE mediu.1

As causas que não se quer perder

Duas merecem menção porque são tratáveis e escapam com facilidade.

O diabetes é a primeira. Cansaço aparece entre suas manifestações, e a glicemia é o exame mais barato do painel. A descrição oficial do procedimento no SUS confirma a finalidade: diagnóstico e monitoramento do diabetes mellitus e dos distúrbios da homeostase glicêmica.10

A doença celíaca é a segunda, e o Brasil acaba de atualizar sua norma. A Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025, aprovou o novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca e, no seu art. 4º, revogou expressamente a Portaria SAS/MS nº 1.149, de 11 de novembro de 2015 — o texto que boa parte da internet brasileira ainda reproduz.11

O protocolo vigente traz três informações relevantes para quem investiga cansaço. Primeira: os testes iniciais são a dosagem sérica simultânea de anti-transglutaminase IgA (tTG IgA) e de IgA total — a IgA total entra porque a deficiência de IgA é causa conhecida de falso-negativo. O tTG IgA tem sensibilidade de 92% a 100% e especificidade de 91% a 100%. O anti-endomísio, apesar de bom desempenho, não é recomendado por ser mais trabalhoso e oneroso, e a genotipagem HLA-DQ2/DQ8 não foi incorporada ao SUS.11

Segunda: entre as manifestações extraintestinais listadas estão a anemia por deficiência de ferro e a fadiga — e o documento observa que a fadiga crônica relatada pelos pacientes "ainda não foi adequadamente estudada e pode ocorrer como consequência da anemia".11 Terceira, e a mais concreta: "anemia por deficiência de ferro na ausência de outras causas" figura entre as indicações de endoscopia digestiva alta com biópsia de duodeno mesmo com sorologia negativa.11 Uma ferritina baixa sem explicação não é o fim de uma investigação; costuma ser o começo de outra.

O protocolo publica ainda a prevalência brasileira por cidade: cerca de 1 caso em 214 a 286 pessoas em São Paulo, 1 em 273 em Ribeirão Preto, 1 em 417 no sul do país, 1 em 681 em Brasília. E estima que, para cada diagnóstico feito a partir de sintomas, existam de três a sete pessoas oligo ou assintomáticas sem diagnóstico.11

Quanto custa tudo isso no SUS

A tabela SIGTAP publica o valor de repasse de cada procedimento, e somá-los mostra bem por que "pedir tudo" não é neutro.

O núcleo custa pouco: hemograma completo (0202020380) R$ 4,11, ferritina (0202010384) R$ 15,59, TSH (0202060250) R$ 8,96 e glicose (0202010473) R$ 1,85 — total de R$ 30,51.12

Agora o contraste. Acrescentar apenas vitamina B12 (0202010708, R$ 15,24) e 25-hidroxivitamina D (0202010767, R$ 15,24) custa R$ 30,48 — praticamente o mesmo que o núcleo inteiro, para dois exames cuja indicação, no caso de fadiga isolada, é a mais frágil de toda a lista.

Um painel ampliado de quinze procedimentos — o núcleo mais B12, vitamina D, folato (R$ 15,65), anti-transglutaminase IgA (R$ 18,55), hemoglobina glicosilada (R$ 7,86), ferro sérico (R$ 3,51), transferrina (R$ 4,12), proteína C reativa (R$ 2,83), VHS (R$ 2,73), creatinina (R$ 1,85) e TGP (R$ 2,01) — chega a R$ 120,10, quase quatro vezes o núcleo.12 Nenhum desses exames é caro isoladamente. É a soma que pesa, multiplicada pelo número de pedidos — e acompanhada, segundo o VAMPIRE, sobretudo por mais falsos-positivos.1

👉 O AI DiagMe interpreta os seus exames — de sangue, urina ou fezes — considerando todo o seu contexto, em linguagem clara. Serviço informativo que não faz diagnóstico e complementa, sem substituir, a avaliação do seu médico.

Perguntas frequentes

Meu hemograma veio normal. Posso descartar falta de ferro? Não. O protocolo do Ministério da Saúde registra que pacientes com ferritina baixa e sem anemia podem ter os mesmos sintomas.6 O hemograma e a ferritina medem coisas diferentes.

Ferro sérico serve para avaliar meus estoques de ferro? Não é o exame indicado para isso. O protocolo brasileiro afirma que ferro sérico, transferrina e saturação da transferrina "não são obrigatórios" na suspeita de anemia ferropriva; o par recomendado é hemograma e ferritina.6

Vale a pena dosar vitamina D por causa do cansaço? A posição da SBEM e da SBPC/ML reserva a dosagem a grupos com condições de risco.9 No SUS, o procedimento está descrito para raquitismo e osteomalácia.10 Quem decide é o seu médico, com a sua história.

Minha ferritina veio normal, mas estou com uma infecção. O resultado vale? Merece cautela. A ferritina sobe na inflamação — o protocolo estima um aumento de até três vezes e sugere dividir o valor por 3 nessas situações.6

Meu TSH está pouco acima do limite. É isso que me deixa cansado? Talvez não. Em idosos com hipotireoidismo subclínico, tratar com levotiroxina não melhorou o escore de cansaço em ensaio randomizado com 737 participantes.8 Hipotireoidismo franco é outra situação.

Existe um "check-up do cansaço"? Não como pacote fechado. Os documentos brasileiros tratam de cada causa separadamente, e o VAMPIRE mostrou que ampliar o painel aumenta os falsos-positivos.1

Anemia é comum no Brasil? Atinge 9,9% dos adultos e idosos, segundo os exames laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde, com prevalência maior em mulheres, idosos e nas regiões Norte e Nordeste.3

Fiz todos os exames e deu tudo normal. E agora? É o desfecho mais provável, não um fracasso. Sono, medicamentos, sobrecarga e humor explicam a maior parte dos casos, e a depressão atinge 10,8% dos adultos brasileiros.2 Para entender o vocabulário do seu laudo, veja como ler um resultado de exame de sangue.

Para lembrar

Diante de um cansaço que não passa, o exame de sangue tem um papel real e limitado: descartar um punhado de causas tratáveis que seriam graves se passassem batido — anemia, falta de ferro, tireoide, diabetes, doença celíaca. Ele faz isso bem com quatro exames baratos, e faz cada vez pior à medida que a lista cresce, porque cada exame a mais é uma chance a mais de um valor limítrofe que não significa nada. O ensaio VAMPIRE mediu esse limite: 8% de doenças encontradas, e falsos-positivos crescendo com o tamanho do painel.1 Do outro lado da conta está a explicação que nenhum tubo devolve: quantas horas você dormiu, que remédios toma, como tem se sentido. Levar essas duas metades juntas à consulta é o que torna o exame útil. Organizar seus resultados lado a lado, para enxergar a evolução em vez de um número solto, é o que o AI DiagMe faz — como complemento à consulta, nunca no lugar dela.

Fontes

Fontes institucionais brasileiras e publicações científicas (PubMed) usadas neste guia:

Footnotes

  1. Koch H, van Bokhoven MA, ter Riet G, van Alphen-Jager JT, van der Weijden T, Dinant GJ, Bindels PJE. Ordering blood tests for patients with unexplained fatigue in general practice: what does it yield? Results of the VAMPIRE trial. Br J Gen Pract. 2009;59(561):e93-100 (ensaio randomizado por conglomerados, 91 médicos de família na Holanda, 325 pacientes analisados, 71% mulheres, idade média 41 anos; 8% tinham doença somática detectável por exame de sangue; o painel ampliado aumentou sobretudo os falsos-positivos; adiar o pedido em 4 semanas não alterou a distribuição dos resultados). Estudo holandês, citado aqui como referência internacional. PubMed · DOI 2 3 4 5

  2. Lopes CS, Gomes NL, Junger WL, Menezes PR. Trend in the prevalence of depressive symptoms in Brazil: results from the Brazilian National Health Survey 2013 and 2019. Cad Saude Publica. 2022;38Suppl 1:e00123421 (60.202 participantes com 18 anos ou mais em 2013 e 88.531 em 2019, questionário PHQ-9; prevalência de depressão de 7,9% em 2013 para 10,8% em 2019, aumento de 36,7%; entre jovens desempregados de 18 a 24 anos, de 3,7% para 10,3%). PubMed · DOI 2

  3. Machado ÍE, Malta DC, Bacal NS, Rosenfeld LGM. Prevalence of anemia in Brazilian adults and elderly. Rev Bras Epidemiol. 2019;22Suppl 02:E190008.SUPL.2 (8.060 pessoas com mais de 18 anos em todos os estados brasileiros, exames laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde; pontos de corte da OMS de 13,0 g/dL para homens e 12,0 g/dL para mulheres; prevalência de anemia de 9,9%, maior entre mulheres, idosos, baixa escolaridade e moradores das regiões Norte e Nordeste; anemia normocítica normocrômica em 56,0% dos casos). ⚠️ O artigo também estratifica por cor da pele; essa estratificação não foi reproduzida nesta página. PubMed · DOI 2

  4. Rosenfeld LG, Bacal NS, Cuder MAM, Silva AGD, Machado ÍE, Pereira CA, Souza MFM, Malta DC. Prevalence of hemoglobinopathies in the Brazilian adult population: National Health Survey 2014-2015. Rev Bras Epidemiol. 2019;22Suppl 02:E190007.SUPL.2 (cromatografia líquida de alta eficiência; hemoglobinopatias em 3,7% da população adulta; traço falciforme 2,49%; talassemia menor 0,30%; suspeita de talassemia maior 0,80%). ⚠️ O artigo publica também um recorte por cor da pele; esta página cita apenas as prevalências por variante, por ser a leitura biologicamente pertinente. PubMed · DOI

  5. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — Recomendações da SBPC/ML: boas práticas em laboratório clínico. Manual consultado e não utilizado como fonte nesta página: as ocorrências de "ferritina" no texto extraído (200.975 palavras) situam-se, nas duas vezes em que aparecem, dentro de encartes publicitários de fabricantes listando menus de ensaios ("Uréia Gasometria Androstenediona Ferritina Dabigatran BNP..."), e não em texto assinado de capítulo. Registrado aqui por transparência de método: um documento autêntico pode hospedar uma passagem que não é dele.

  6. Ministério da Saúde (Brasil) — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Anemia por deficiência de ferro. Aprovado pela Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10 de novembro de 2014. PDF baixado do portal oficial de PCDT do Ministério da Saúde em 09/09/2026 (594,9 kB, 10.716 palavras de texto extraído). Fonte da frase "Na suspeita de ADF, deve-se solicitar um hemograma completo (com os índices hematimétricos e avaliação de esfregaço periférico) e dosagem de ferritina. Outras medidas, como ferro sérico, transferrina e a saturação da transferrina não são obrigatórios"; da frase "Pacientes com ferritina baixa e sem anemia podem ter os mesmos sintomas"; dos valores de ferritina (normal 40 a 200 ng/mL; abaixo de 10 a 15 ng/mL com sensibilidade 59% e especificidade 99%; corte de 30 ng/mL com sensibilidade 92% e especificidade 98%); e da regra de dividir a ferritina por 3 na vigência de inflamação, com valores ≤ 20 ng/mL sugerindo deficiência concomitante. ⚠️ Os critérios de inclusão deste protocolo estratificam alguns limiares de hemoglobina por cor da pele; essa estratificação não foi reproduzida nesta página, por não ser um marcador biológico. ⚠️ Verificado em 09/09/2026: é esta a versão que o Ministério da Saúde publica na página de PCDT; há processo de atualização em curso na CONITEC, ainda sem portaria substitutiva localizada. gov.br/saude — PCDT 2 3 4 5 6 7

  7. Verdon F, Burnand B, Stubi CLF, Bonard C, Graff M, Michaud A, Bischoff T, de Vevey M, Studer JP, Herzig L, Chapuis C, Tissot J, Pécoud A, Favrat B. Iron supplementation for unexplained fatigue in non-anaemic women: double blind randomised placebo controlled trial. BMJ. 2003;326(7399):1124 (144 mulheres de 18 a 55 anos, sem anemia, com fadiga inexplicada; queda da fadiga de 29% com sulfato ferroso contra 13% com placebo, diferença de 0,95 ponto numa escala de 10, IC 95% 0,32 a 1,62, p = 0,004; na análise de subgrupos, só melhoraram as mulheres com ferritina ≤ 50 µg/L). Ensaio suíço, desfecho subjetivo por escala visual analógica. PubMed · DOI

  8. Stott DJ, Rodondi N, Kearney PM, et al. Thyroid Hormone Therapy for Older Adults with Subclinical Hypothyroidism. N Engl J Med. 2017;376(26):2534-2544 (ensaio TRUST, 737 adultos com 65 anos ou mais, TSH de 4,60 a 19,99 mUI/L com T4 livre normal, média inicial de 6,40 mUI/L; após um ano, diferença entre grupos de 0,0 ponto no escore de sintomas de hipotireoidismo, IC 95% −2,0 a 2,1, e de 0,4 ponto no escore de cansaço, IC 95% −2,1 a 2,9, sendo 9 pontos a menor diferença clinicamente relevante). Ensaio europeu; o resultado se aplica ao hipotireoidismo subclínico em idosos, não ao hipotireoidismo franco. PubMed · DOI 2

  9. Moreira CA, Ferreira CEDS, Madeira M, Silva BCC, Maeda SS, Batista MC, Bandeira F, Borba VZC, Lazaretti-Castro M. Reference values of 25-hydroxyvitamin D revisited: a position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM) and the Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine (SBPC). Arch Endocrinol Metab. 2020;64(4):462-478. Posicionamento conjunto brasileiro: a dosagem de 25(OH)D é recomendada em grupos com condições de risco de deficiência; 20 a 60 ng/mL considerados normais para a população geral; abaixo de 20 ng/mL, deficiência; alvo acima de 30 ng/mL em condições específicas (mais de 65 anos, gestação, quedas recorrentes, fraturas por fragilidade, osteoporose, hiperparatireoidismo secundário, doença renal crônica, câncer, uso de fármacos que afetam o metabolismo da vitamina D); risco de intoxicação acima de 100 ng/mL. PubMed · DOI 2

  10. Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP, tabela tb_descricao (4.324 descrições), mesma competência. Texto de intenção da 25-hidroxivitamina D: "consiste na dosagem sérica do colecalciferol ou 25-hidroxivitamina D, o metabólito mais ativo da vitamina D e de maior nível sérico, para o diagnóstico e monitorização terapêutica do raquitismo e osteomalácia"; da vitamina B12: "a vitamina B12 tem papel importante na hematopoiese, na função neural, no metabolismo do ácido fólico e na síntese adequada de DNA"; da glicose: "utilizada no diagnóstico e no monitoramento do diabetes mellitus e nos distúrbios da homeostase glicêmica"; da ferritina: "reflete o nível de estoque celular de ferro", usada no diagnóstico e seguimento de anemias ferroprivas e hemocromatose. 2 3 4

  11. Ministério da Saúde (Brasil) / CONITEC — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025. Documento de 22 páginas lido integralmente. Fonte do art. 4º — "Fica revogada a Portaria SAS/MS nº 1.149, de 11 de novembro de 2015, publicada no Diário Oficial da União (DOU) nº 216, de 12 de novembro de 2015, seção 1, página 65" —, da indicação dos testes iniciais (dosagem sérica simultânea de tTG IgA e IgA total), da sensibilidade (92% a 100%) e especificidade (91% a 100%) do tTG IgA, da não recomendação do anti-endomísio e da não incorporação da genotipagem HLA-DQ2/DQ8, da lista de manifestações extraintestinais (anemia por deficiência de ferro, fadiga), da frase sobre a fadiga crônica que "ainda não foi adequadamente estudada e pode ocorrer como consequência da anemia", do Quadro 2 ("Anemia por deficiência de ferro na ausência de outras causas" como indicação de biópsia mesmo com sorologia negativa), das prevalências brasileiras por cidade (São Paulo 1/214 a 1/286; Ribeirão Preto 1/273; sul do país 1/417; Brasília 1/681) e da estimativa de três a sete casos oligo ou assintomáticos por diagnóstico feito a partir de sintomas. ⚠️ Trata-se do texto assinado do protocolo, não de resumo ou notícia sobre ele. PDF — gov.br/conitec 2 3 4 5

  12. Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP, Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS, tabela tb_procedimento, competência 08/2026 (1.697.774 bytes, 5.023 linhas). Leitura direta em colunas fixas, decodificação latin-1 com newline='', campo VL_SA nas posições 294 a 306; parser validado contra os dois controles hemograma completo 0202020380 (R$ 4,11) e dosagem de ferritina 0202010384 (R$ 15,59), ambos conferidos. Códigos citados nesta página: TSH 0202060250 (R$ 8,96), glicose 0202010473 (R$ 1,85), vitamina B12 0202010708 (R$ 15,24), 25-hidroxivitamina D 0202010767 (R$ 15,24), folato 0202010406 (R$ 15,65), anticorpos antitransglutaminase recombinante humano IgA 0202031187 (R$ 18,55), hemoglobina glicosilada 0202010503 (R$ 7,86), ferro sérico 0202010392 (R$ 3,51), transferrina 0202010660 (R$ 4,12), proteína C reativa 0202030202 (R$ 2,83), VHS 0202020150 (R$ 2,73), creatinina 0202010317 (R$ 1,85), TGP 0202010651 (R$ 2,01). Somas conferidas por script: núcleo de 4 procedimentos = R$ 30,51; B12 + vitamina D = R$ 30,48; painel de 15 procedimentos = R$ 120,10. Nota de método: a busca por "ácido fólico" e por "transglutaminase" rende zero na tabela — o SUS grafa "DOSAGEM DE FOLATO" e, no código 0202031187, "ANTITRANSGLUTAMINAISE" (grafia da própria tabela oficial). sigtap.datasus.gov.br 2

Aviso médico. Este guia tem finalidade informativa e educativa; não constitui aconselhamento médico e não substitui uma consulta. Os valores de referência variam conforme o laboratório e a técnica: só o seu médico pode interpretar os seus resultados no seu contexto.