Função renal: creatinina, TFG e clearance no laudo
Creatinina, ureia, albuminúria e taxa de filtração glomerular: como ler a avaliação renal no laudo brasileiro — e onde as fontes do país divergem.
A avaliação da função renal é um dos blocos mais pedidos de qualquer check-up brasileiro: quase sempre uma creatinina, muitas vezes uma ureia, às vezes uma albuminúria. O laudo devolve números pequenos, com duas casas decimais, e uma sigla que confunde quase todo mundo: TFG. Este guia explica o que cada exame mede, como a taxa de filtração glomerular é calculada no Brasil, e por que duas fontes brasileiras de primeira linha — as sociedades médicas e o protocolo do Ministério da Saúde — hoje não usam a mesma equação.
Em resumo
- A creatinina sérica é o exame mais usado para avaliar os rins, mas o número sozinho vale pouco: a SBN e a SBPC/ML recomendam que todo laudo de creatinina traga a TFG estimada junto.1
- ⚠️ A creatinina só sai do intervalo de referência depois que a filtração já caiu muito: cerca de 50% em adultos não idosos e cerca de 70% em idosos.1
- O clearance de creatinina com urina de 24 horas — o termo que o brasileiro mais procura — é justamente o que o PCDT do Ministério da Saúde manda evitar, pelo risco de erro de coleta.2
- ⚠️ Divergência brasileira aberta. O posicionamento conjunto SBN + SBPC/ML (2024) recomenda a CKD-EPI 2021, sem fator raça.1 O PCDT em vigor (setembro de 2024) ainda imprime a CKD-EPI 2009, com os coeficientes do fator racial.2
- O SUS cobre creatinina e ureia por R$ 1,85 cada e a microalbuminúria por R$ 8,12; a cistatina C não existe na tabela SIGTAP.3
- O Censo Brasileiro de Diálise de 2024 contou 172.585 brasileiros em diálise, e pela primeira vez diabetes empatou com hipertensão como causa principal — 29% cada.4
Quais exames compõem a avaliação renal
Na prática dos laboratórios brasileiros, a avaliação da função renal se monta com quatro peças, e você raramente recebe as quatro juntas:
- A creatinina, dosada no soro, em mg/dL. É o marcador central.
- A ureia, também em mg/dL, quase sempre pedida ao lado da creatinina.
- A microalbuminúria em amostra isolada de urina, corrigida pela creatinúria — a relação albumina/creatinina (RAC).
- A cistatina C, muito menos disponível, reservada a casos em que a creatinina é pouco confiável.
Some-se a isso o EAS (urina tipo 1), o ultrassom de rins e vias urinárias quando há suspeita anatômica, e os exames que acompanham as consequências da doença renal: hemograma completo, potássio, cálcio, fósforo e paratormônio.2
A creatinina: o que ela é e o que ela esconde
A creatinina é o produto final da degradação da creatina e da fosfocreatina no músculo esquelético. Ela é produzida a um ritmo relativamente constante, e eliminada quase toda por filtração glomerular — em condições normais, só 7% a 10% da creatinina urinária vêm de secreção pelos túbulos.1 Por isso a concentração no sangue guarda relação inversa com a filtração: quando a creatinina dobra, a TFG caiu cerca de 50%.1
O ponto que mais confunde quem tem o laudo na mão é este: a produção de creatinina depende da massa magra. Homens têm creatinina mais alta que mulheres para a mesma filtração. Vegetarianos e veganos, pessoas desnutridas, com sarcopenia, caquexia ou membros amputados têm creatinina baixa sem ter rins melhores.1 E uma refeição rica em carne ou peixe cozidos, poucas horas antes da coleta, eleva o valor.1
Daí a recomendação mais importante do posicionamento SBN/SBPC-ML, e a que menos gente conhece: não se recomenda usar os limites de referência da creatinina sérica como índice de avaliação da função renal. O marcador é a TFG estimada, não a creatinina isolada.1
O que as sociedades pedem que esteja escrito no seu laudo
O documento conjunto é explícito quanto ao formato do laudo:1
- creatinina em mg/dL, com duas casas decimais;
- a TFG estimada incorporada ao laudo da creatinina, arredondada para número inteiro, em mL/min/1,73 m²;
- valor de TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² relatado como "diminuído";
- cistatina C em mg/L, com duas casas decimais.
Se o seu laudo traz só a creatinina crua, sem TFG, ele está aquém do que as duas sociedades brasileiras pedem desde 2024.
Convertendo unidades
O Brasil imprime creatinina em mg/dL. A literatura internacional costuma usar µmol/L. Para converter, multiplique o valor em mg/dL por 88,4: uma creatinina de 1,00 mg/dL equivale a cerca de 88 µmol/L. Nosso conversor de unidades faz a conta, e a calculadora de TFG aplica a equação.
Clearance de creatinina e TFG: por que não são a mesma coisa
Muita gente procura por "clearance de creatinina" achando que é o nome técnico da TFG. Não é bem isso.
O clearance (ou depuração) de creatinina é uma medida real: coleta-se a urina de um período — habitualmente 24 horas — mede-se o volume, dosa-se a creatinina na urina e no sangue, e aplica-se a fórmula (U × V) ÷ P × (1,73 ÷ A).1 Os intervalos de referência citados pelo posicionamento brasileiro são de 85 a 125 mL/min para homens e 75 a 115 mL/min para mulheres, com variação circadiana individual de até 25%.1
A TFG estimada (TFGe) é outra coisa: um número calculado a partir da creatinina, da idade e do sexo, sem coleta de urina.
E aqui está a curiosidade do mercado brasileiro: o exame que o público mais procura é o que as autoridades técnicas menos recomendam. O PCDT do Ministério da Saúde determina que "para a avaliação da TFG deve-se evitar o uso da depuração de creatinina medida da coleta de urina de 24 horas pelo potencial de erro de coleta".2 O clearance também superestima a filtração à medida que a doença avança, porque a secreção tubular de creatinina aumenta.1 Ele continua existindo no SUS (código SIGTAP 0202050025), mas deixou de ser o exame de primeira linha.
A fórmula de Cockcroft-Gault, de 1976, é hoje desaconselhada pelas duas fontes: o PCDT diz que "seu uso não é recomendado", e o posicionamento SBN/SBPC-ML restringe seu emprego à pesquisa.21
O fator raça saiu das equações — mas não de todos os documentos brasileiros
Este é o ponto em que o Brasil tem mais a dizer do que qualquer outro país, e em que as fontes nacionais não estão alinhadas. Publicamos as duas posições lado a lado.
As antigas equações MDRD e CKD-EPI 2009 carregavam um coeficiente que multiplicava o resultado para pessoas classificadas como negras — 1,159 na CKD-EPI 2009. O posicionamento conjunto SBN/SBPC-ML descreve o problema sem meias palavras: raça é "um conceito social que não se correlaciona, necessariamente, com as diferenças genotípicas ou metabólicas subjacentes", o parâmetro ignora quem se identifica como multirracial, e o efeito prático de superestimar a filtração em pessoas negras é atrasar diagnóstico, encaminhamento ao nefrologista e entrada em lista de transplante.1
O que as sociedades recomendam hoje
Para adultos, a SBN e a SBPC/ML recomendam, desde o documento de 2024:1
- CKD-EPI 2021, só com creatinina sérica;
- CKD-EPI 2021, com creatinina e cistatina C;
- CKD-EPI 2012, só com cistatina C.
Nenhuma delas usa raça. A SBN mantém a calculadora correspondente aberta no seu site.5
O que o documento oficial do SUS ainda imprime
Aqui aparece a divergência. O PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11, de 16 de setembro de 2024 — e ainda o texto em vigor —, apresenta no seu Quadro 1 uma única fórmula, creditada a "Levey AS et al., Ann Intern Med. 2009", ou seja, a CKD-EPI 2009.2
O quadro lista dois conjuntos de coeficientes para a constante A: "Mulher = 166; Homem = 163" e "Mulher = 144; Homem = 141". São exatamente os valores da CKD-EPI 2009 com e sem o fator racial (141 × 1,018 × 1,159 ≈ 166; 141 × 1,159 ≈ 163; 141 × 1,018 ≈ 144). E a palavra que distinguia as duas linhas não está no quadro: o texto do protocolo não usa "raça" nem "negro" em nenhum ponto da seção da fórmula.
Ou seja: o protocolo nacional que os estados e municípios devem seguir na regulação do acesso ainda veicula a equação com fator racial, seis meses depois de as duas sociedades científicas terem recomendado abandoná-la — e sem dizer ao leitor o que separa os dois conjuntos de coeficientes.
E o que dizem os estudos feitos no Brasil
Duas pesquisas brasileiras chegaram a conclusões diferentes, e vale conhecer as duas.
Em Vitória (ES), 272 adultos de um subestudo da Pesquisa Nacional de Saúde fizeram coleta urinária de 24 horas. O ajuste por raça/cor piorou a acurácia de ambas as equações, e o clearance medido não diferiu entre os grupos de cor da pele (p = 0,21), sugerindo que não há diferença no metabolismo da creatinina em função da cor. Os autores concluem que a correção por raça/cor não é recomendada.6
Em Porto Alegre (RS), 306 adultos brancos e 48 negros tiveram a filtração medida com 51Cr-EDTA. Nenhuma equação alcançou a acurácia P30 desejável de 90%. A CKD-EPI 2009 teve o melhor desempenho nos participantes negros; a CKD-EPI 2021 subestimou a ocorrência de doença renal nos brancos. A conclusão dos autores contraria o consenso: eles não recomendam substituir a CKD-EPI 2009 pela 2021 na população brasileira.7
As duas concordam num ponto e discordam no outro: o coeficiente racial não se sustenta, mas qual equação usar no Brasil ainda está em disputa. O próprio posicionamento SBN/SBPC-ML reconhece que as equações foram validadas majoritariamente na população norte-americana e que "a acurácia para outras populações, como a brasileira, ainda [é] pouco estudada".1
Ureia: o exame que quase sempre vem junto
A ureia é o produto final do metabolismo das proteínas, eliminado pelos rins. No Brasil, o laudo traz "ureia" em mg/dL — não o BUN (nitrogênio ureico) usado nos Estados Unidos, o que torna as tabelas americanas diretamente inaplicáveis ao seu laudo.
A ureia sobe com desidratação, dieta rica em proteína, sangramento digestivo e corticoides, e desce na desnutrição e na doença hepática — situações que nada têm a ver com filtração. Por isso ela não estadia doença renal: no fluxograma do PCDT, a ureia aparece entre os exames de acompanhamento dos pacientes já diagnosticados, não entre os critérios diagnósticos.2
Albuminúria: o exame mais negligenciado do Brasil
A doença renal crônica não se define só pela filtração. Ela se define por TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou por um marcador de lesão renal — tipicamente a albuminúria — presente por mais de três meses.12
O PCDT lista como marcadores de dano parenquimatoso: albuminúria ≥ 30 mg/24 h ou RAC ≥ 30 mg/g, hematúria de origem glomerular, alterações eletrolíticas ou tubulares, achados de biópsia e alterações de imagem.2 O exame recomendado é a RAC em amostra isolada, não a coleta de 24 horas.2 Uma Segunda Opinião Formativa do Ministério da Saúde acrescenta um cuidado prático: todo teste alterado deve ser confirmado em duas de três amostras, em intervalo de três a seis meses, pela variabilidade diária da excreção de albumina.8
E a lacuna é enorme. No estudo SEARCH, com 14.239 brasileiros de alto risco (84% hipertensos, 37% diabéticos), a doença renal foi identificada pela primeira vez em 19,6% — e a RAC tinha sido feita em menos de 5% deles antes da campanha, subindo para menos de 7% depois. Os autores chamam isso de "oportunidade perdida", apesar do acesso universal ao exame no Brasil.9
Os estágios da doença renal crônica no Brasil
O PCDT brasileiro publica a classificação em dois quadros separados, ambos declarados como "adaptado do KDIGO 2012" — e não como a grade de risco em cores que o KDIGO publica internacionalmente.2 Isso vale para o PCDT, não para o país inteiro: a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 publica a grade cruzada completa, adaptada do KDIGO 2024 — ela está detalhada na página da microalbuminúria.
Por TFG, em mL/min/1,73 m²:
| Estágio | TFG | Descrição |
|---|---|---|
| 1 | ≥ 90 | Lesão renal com TFG normal |
| 2 | 60–89 | Lesão renal com TFG levemente diminuída |
| 3A | 45–59 | TFG moderadamente diminuída |
| 3B | 30–44 | TFG moderadamente diminuída |
| 4 | 15–29 | TFG gravemente diminuída |
| 5 | < 15 | Falência renal |
| 5D | < 15 em diálise | Falência renal em terapia substitutiva |
Por RAC urinária, em mg/g: A1 < 30 (normal a leve), A2 de 30 a 299 (moderada), A3 acima de 300 (grave).2
Repare que nos estágios 1 e 2 a TFG está normal ou quase: o que define a doença ali é o marcador de lesão, não o número da filtração. É por isso que uma creatinina "normal" não encerra o assunto.
Quando o encaminhamento ao nefrologista está indicado
O posicionamento SBN/SBPC-ML é direto: estágios G4 e G5 devem ser encaminhados.1 O PCDT detalha o caminho por estágio: acompanhamento na atenção primária nos estágios 1 a 3B, com encaminhamento se houver RAC acima de 1 g/g em não diabético ou perda de 30% da TFG apesar do tratamento; a partir do estágio 4, o acompanhamento passa à atenção especializada com equipe multiprofissional.2 Uma SOF do Telessaúde acrescenta como gatilho a perda superior a 5 mL/min/1,73 m² em seis meses com TFG já abaixo de 60, confirmada em dois exames.10
O que o SUS cobre — e o que não cobre
Consultamos a Tabela de Procedimentos SIGTAP do DATASUS, competência 08/2026. Os valores ambulatoriais são estes:3
| Procedimento | Código | Valor |
|---|---|---|
| Dosagem de creatinina | 0202010317 | R$ 1,85 |
| Dosagem de ureia | 0202010694 | R$ 1,85 |
| Clearance de creatinina | 0202050025 | R$ 3,51 |
| Dosagem de microalbumina na urina | 0202050092 | R$ 8,12 |
| Determinação de filtração glomerular (medicina nuclear) | 0208040080 | R$ 63,22 |
⚠️ A cistatina C não aparece na tabela. Buscamos o termo em todas as 5.023 linhas da tabela de procedimentos: zero ocorrências. O exame que as duas sociedades brasileiras recomendam como teste confirmatório não tem código de custeio no SUS — o que ajuda a explicar por que ele quase não aparece nos laudos do país. Se você o fizer, será por conta própria ou por plano de saúde; nossa página sobre quanto custa um exame de sangue traz a ordem de grandeza.
A linha de cuidado da pessoa com DRC continua regida pela Portaria nº 389, de 13 de março de 2014, que é a norma listada pelo próprio Ministério da Saúde na sua página de legislação sobre doença renal crônica, atualizada em outubro de 2025.11
Dados que só o Brasil tem sobre os próprios rins
A SBN publica o Censo Brasileiro de Diálise todo ano — uma série que poucos países mantêm. A edição de 2024, com 386 centros participantes e dados de 76.946 pacientes, registrou:4
- 172.585 pessoas em diálise em 1º de julho de 2024, alta de 9,7% sobre 2023 — o maior aumento anual dos últimos anos;
- prevalência de 812 por milhão de habitantes e incidência de 249 pmp;
- 87,3% em hemodiálise, 7,1% em hemodiafiltração, 5,6% em diálise peritoneal;
- 79% dos pacientes financiados pelo sistema público (91% no Norte, 70% no Centro-Oeste);
- taxa bruta de mortalidade anual de 16,5%;
- e o dado inédito: hipertensão e diabetes empatados em 29% como causa primária, a primeira vez que o diabetes alcança a hipertensão desde o início do censo.
Do lado do rastreamento, o estudo EPI-CKD Brasil, feito pela SBN em 20 regionais no Dia Mundial do Rim de 2025 com teste rápido de creatinina, encontrou TFG estimada abaixo de 60 em 40,2% de 8.374 pessoas com fator de risco — com variação regional de 27,9% (Bahia) a 55,2% (Paraná) — e apenas 35,2% dos participantes conheciam os fatores de risco da doença.12 É uma medida única, não um diagnóstico: a doença renal crônica exige confirmação após três meses.
Preparo, coleta e as armadilhas do exame
A creatinina não exige jejum prolongado, mas convém evitar uma refeição carnívora pesada nas horas anteriores.1 No sangue total ela é estável por 24 horas; no soro, até 7 dias entre 20 e 25 °C ou refrigerado de 2 a 8 °C; congelada a −20 °C, até 3 meses.1
Três interferências merecem atenção, e a tabela de interferentes das Recomendações da SBPC/ML as quantifica:13
- hemólise a partir de 1.000 mg/dL de hemoglobina;
- lipemia a partir de 800 mg/dL de triglicérides;
- icterícia a partir de 5 mg/dL de bilirrubinas.
Esse último número chama a atenção: percorrendo os 34 analitos da tabela, a creatinina tem o menor limiar de interferência por bilirrubina de todos — a maioria só sofre a partir de 60 mg/dL. Uma icterícia discreta já compromete o resultado. (A tabela publicada pela SBPC/ML é creditada, no próprio documento, à Clínica Dávila, do Chile.)
Há ainda interferências medicamentosas reais: cimetidina e trimetoprima bloqueiam a secreção tubular e elevam a creatinina sem que a filtração tenha mudado; a dipirona pode falsear o resultado conforme o método usado.1
Perguntas frequentes
Minha creatinina está normal. Meus rins estão bem? Não necessariamente. A creatinina só sai do intervalo de referência depois de uma queda de cerca de 50% da filtração em adultos, e de cerca de 70% em idosos.1 E os estágios 1 e 2 da doença renal são definidos por albuminúria com TFG normal.2 Uma creatinina normal com RAC alterada é doença renal.
Por que a TFG do meu laudo mudou sem a creatinina mudar? Provavelmente o laboratório trocou de equação. A migração da CKD-EPI 2009 para a CKD-EPI 2021 muda o número calculado sem que nada tenha mudado no seu sangue — e a diferença é maior justamente para quem antes recebia o coeficiente racial.1
Preciso fazer o clearance de creatinina de 24 horas? O PCDT do Ministério da Saúde recomenda evitá-lo para avaliar a filtração, pelo risco de erro na coleta e na marcação do tempo.2 Quem decide é o seu médico: há situações — massa muscular atípica, amputações, casos de pesquisa — em que a medida direta ainda faz sentido.
Ureia alta significa doença renal? Sozinha, não. Desidratação, dieta hiperproteica, sangramento digestivo e corticoides elevam a ureia sem doença renal. Ela é um exame de acompanhamento, não de diagnóstico.2
Como saber meu estágio? Precisa de dois eixos: TFG e RAC. Você pode estimar o primeiro na nossa calculadora de TFG, mas o estadiamento exige confirmação após três meses e é atribuição médica.
Quais outros exames costumam vir junto? Como diabetes e hipertensão respondem por 58% das causas de doença renal em diálise no Brasil,4 o pedido raramente vem só: glicemia, hemoglobina glicada, lipidograma e hemoglobina costumam acompanhar. As siglas estão no nosso glossário de exames de sangue, e o papel do plasma e das células está explicado em composição do sangue.
Quer entender seu laudo com calma, exame por exame? Comece pelo Blood Analysis em português.
Fontes
Footnotes
-
Kirsztajn GM, Silva Junior GBD, Silva AQBD, et al. Estimativa da taxa de filtração glomerular na prática clínica: posicionamento consensual da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) e Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML). J Bras Nefrol. 2024;46(3):e20230193. Publicado em 05/04/2024, corrigido em 10/02/2025. DOI: 10.1590/2175-8239-JBN-2023-0193en · PMID 38591823 · texto integral em português (SciELO). ⚠️ Documento em vigor = a versão de 2024 mais a errata de abril de 2025 (J Bras Nefrol. 2025;47(2):e20230193er, PMID 40228141), que corrige o expoente da CKD-EPI 2021 de
1,200para−1,200. ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13 ↩14 ↩15 ↩16 ↩17 ↩18 ↩19 ↩20 ↩21 ↩22 ↩23 -
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11, de 16 de setembro de 2024. 68 páginas. PDF oficial (gov.br) · ficha na Conitec. ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13 ↩14 ↩15 ↩16
-
Brasil. Ministério da Saúde / DATASUS. Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS (SIGTAP), tabela
tb_procedimento, competência 08/2026 (5.023 procedimentos). Valores ambulatoriais consultados diretamente no arquivo da competência. sigtap.datasus.gov.br. ↩ ↩2 -
Nerbass FB, Lima HN, Zawadzki B, Moura-Neto JA, Lugon JR, Sesso R. Censo Brasileiro de Diálise 2024. J Bras Nefrol. 2026;48(1):e20250112. DOI: 10.1590/2175-8239-JBN-2025-0112en · PMID 41712529 · texto integral em português (SciELO). ↩ ↩2 ↩3
-
Sociedade Brasileira de Nefrologia. Calculadora CKD-EPI 2021. sbn.org.br. ↩
-
Almeida WLDC, Mill JG. Validação de equações de estimativa da filtração glomerular ajustáveis por raça/cor em adultos de Vitória, Espírito Santo, Brasil. Ciênc Saúde Coletiva. 2024;29(1):e15752022. DOI: 10.1590/1413-81232024291.15752022 · PMID 38198327. ↩
-
Escott GM, Zingano CP, Ferlin E, Garroni M, Thomé FS, Veronese FJV, Silveiro SP. Is race adjustment necessary to estimate glomerular filtration rate in South Brazilians? J Nephrol. 2024;37(9):2635-2645. DOI: 10.1007/s40620-024-02001-x · PMID 38913268. ↩
-
Núcleo de Telessaúde Rio Grande do Sul. Qual o valor da microalbuminúria em amostra isolada para acompanhamento de lesão renal no paciente diabético, comparado com a microalbuminúria em urina de 24 horas? Segunda Opinião Formativa, BVS Atenção Primária em Saúde, ID sofs-15350. aps-repo.bvs.br. ↩
-
Moraes TP, Moura AF, Sposito AC, et al. Screening for CKD in undiagnosed populations with diabetes and hypertension: lessons from the SEARCH study. J Bras Nefrol. 2026;48(2):e20250231. DOI: 10.1590/2175-8239-JBN-2025-0231en · PMID 41589537. ↩
-
Núcleo de Telessaúde Mato Grosso do Sul. Em que situações dentro da APS devemos encaminhar o paciente com disfunção renal para o nefrologista? Segunda Opinião Formativa, BVS Atenção Primária em Saúde, ID sofs-45413, 1 de setembro de 2023. aps-repo.bvs.br. ↩
-
Brasil. Ministério da Saúde. Legislação sobre doença renal crônica — Portaria nº 389, de 13 de março de 2014, que define os critérios para a organização da linha de cuidado da pessoa com Doença Renal Crônica e institui incentivo financeiro para o cuidado ambulatorial pré-dialítico. Página atualizada em 10/10/2025. gov.br/saude. ↩
-
Calice-Silva V, Abreu P, Pinheiros ME, et al. EPI-CKD Brazil: point-of-care screening for chronic kidney disease during World Kidney Day. J Bras Nefrol. 2026;48(3):e20250298. DOI: 10.1590/2175-8239-JBN-2025-0298en · PMID 42080941. ↩
-
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Recomendações da SBPC/ML: boas práticas em laboratório clínico. Tabela 1 — concentrações de hemoglobina, triglicérides e bilirrubinas que interferem na medição de analitos (p. 194-195). PDF. ↩