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Função renal: creatinina, TFG e clearance no laudo

Creatinina, ureia, albuminúria e taxa de filtração glomerular: como ler a avaliação renal no laudo brasileiro — e onde as fontes do país divergem.

Publicado em 4 de setembro de 202616 min de leituraEscrito pela Equipe Blood Analysis · Revisado e verificado por Julien Priour

A avaliação da função renal é um dos blocos mais pedidos de qualquer check-up brasileiro: quase sempre uma creatinina, muitas vezes uma ureia, às vezes uma albuminúria. O laudo devolve números pequenos, com duas casas decimais, e uma sigla que confunde quase todo mundo: TFG. Este guia explica o que cada exame mede, como a taxa de filtração glomerular é calculada no Brasil, e por que duas fontes brasileiras de primeira linha — as sociedades médicas e o protocolo do Ministério da Saúde — hoje não usam a mesma equação.

Em resumo

  • A creatinina sérica é o exame mais usado para avaliar os rins, mas o número sozinho vale pouco: a SBN e a SBPC/ML recomendam que todo laudo de creatinina traga a TFG estimada junto.1
  • ⚠️ A creatinina só sai do intervalo de referência depois que a filtração já caiu muito: cerca de 50% em adultos não idosos e cerca de 70% em idosos.1
  • O clearance de creatinina com urina de 24 horas — o termo que o brasileiro mais procura — é justamente o que o PCDT do Ministério da Saúde manda evitar, pelo risco de erro de coleta.2
  • ⚠️ Divergência brasileira aberta. O posicionamento conjunto SBN + SBPC/ML (2024) recomenda a CKD-EPI 2021, sem fator raça.1 O PCDT em vigor (setembro de 2024) ainda imprime a CKD-EPI 2009, com os coeficientes do fator racial.2
  • O SUS cobre creatinina e ureia por R$ 1,85 cada e a microalbuminúria por R$ 8,12; a cistatina C não existe na tabela SIGTAP.3
  • O Censo Brasileiro de Diálise de 2024 contou 172.585 brasileiros em diálise, e pela primeira vez diabetes empatou com hipertensão como causa principal — 29% cada.4

Quais exames compõem a avaliação renal

Na prática dos laboratórios brasileiros, a avaliação da função renal se monta com quatro peças, e você raramente recebe as quatro juntas:

  • A creatinina, dosada no soro, em mg/dL. É o marcador central.
  • A ureia, também em mg/dL, quase sempre pedida ao lado da creatinina.
  • A microalbuminúria em amostra isolada de urina, corrigida pela creatinúria — a relação albumina/creatinina (RAC).
  • A cistatina C, muito menos disponível, reservada a casos em que a creatinina é pouco confiável.

Some-se a isso o EAS (urina tipo 1), o ultrassom de rins e vias urinárias quando há suspeita anatômica, e os exames que acompanham as consequências da doença renal: hemograma completo, potássio, cálcio, fósforo e paratormônio.2

A creatinina: o que ela é e o que ela esconde

A creatinina é o produto final da degradação da creatina e da fosfocreatina no músculo esquelético. Ela é produzida a um ritmo relativamente constante, e eliminada quase toda por filtração glomerular — em condições normais, só 7% a 10% da creatinina urinária vêm de secreção pelos túbulos.1 Por isso a concentração no sangue guarda relação inversa com a filtração: quando a creatinina dobra, a TFG caiu cerca de 50%.1

O ponto que mais confunde quem tem o laudo na mão é este: a produção de creatinina depende da massa magra. Homens têm creatinina mais alta que mulheres para a mesma filtração. Vegetarianos e veganos, pessoas desnutridas, com sarcopenia, caquexia ou membros amputados têm creatinina baixa sem ter rins melhores.1 E uma refeição rica em carne ou peixe cozidos, poucas horas antes da coleta, eleva o valor.1

Daí a recomendação mais importante do posicionamento SBN/SBPC-ML, e a que menos gente conhece: não se recomenda usar os limites de referência da creatinina sérica como índice de avaliação da função renal. O marcador é a TFG estimada, não a creatinina isolada.1

O que as sociedades pedem que esteja escrito no seu laudo

O documento conjunto é explícito quanto ao formato do laudo:1

  • creatinina em mg/dL, com duas casas decimais;
  • a TFG estimada incorporada ao laudo da creatinina, arredondada para número inteiro, em mL/min/1,73 m²;
  • valor de TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² relatado como "diminuído";
  • cistatina C em mg/L, com duas casas decimais.

Se o seu laudo traz só a creatinina crua, sem TFG, ele está aquém do que as duas sociedades brasileiras pedem desde 2024.

Convertendo unidades

O Brasil imprime creatinina em mg/dL. A literatura internacional costuma usar µmol/L. Para converter, multiplique o valor em mg/dL por 88,4: uma creatinina de 1,00 mg/dL equivale a cerca de 88 µmol/L. Nosso conversor de unidades faz a conta, e a calculadora de TFG aplica a equação.

Clearance de creatinina e TFG: por que não são a mesma coisa

Muita gente procura por "clearance de creatinina" achando que é o nome técnico da TFG. Não é bem isso.

O clearance (ou depuração) de creatinina é uma medida real: coleta-se a urina de um período — habitualmente 24 horas — mede-se o volume, dosa-se a creatinina na urina e no sangue, e aplica-se a fórmula (U × V) ÷ P × (1,73 ÷ A).1 Os intervalos de referência citados pelo posicionamento brasileiro são de 85 a 125 mL/min para homens e 75 a 115 mL/min para mulheres, com variação circadiana individual de até 25%.1

A TFG estimada (TFGe) é outra coisa: um número calculado a partir da creatinina, da idade e do sexo, sem coleta de urina.

E aqui está a curiosidade do mercado brasileiro: o exame que o público mais procura é o que as autoridades técnicas menos recomendam. O PCDT do Ministério da Saúde determina que "para a avaliação da TFG deve-se evitar o uso da depuração de creatinina medida da coleta de urina de 24 horas pelo potencial de erro de coleta".2 O clearance também superestima a filtração à medida que a doença avança, porque a secreção tubular de creatinina aumenta.1 Ele continua existindo no SUS (código SIGTAP 0202050025), mas deixou de ser o exame de primeira linha.

A fórmula de Cockcroft-Gault, de 1976, é hoje desaconselhada pelas duas fontes: o PCDT diz que "seu uso não é recomendado", e o posicionamento SBN/SBPC-ML restringe seu emprego à pesquisa.21

O fator raça saiu das equações — mas não de todos os documentos brasileiros

Este é o ponto em que o Brasil tem mais a dizer do que qualquer outro país, e em que as fontes nacionais não estão alinhadas. Publicamos as duas posições lado a lado.

As antigas equações MDRD e CKD-EPI 2009 carregavam um coeficiente que multiplicava o resultado para pessoas classificadas como negras — 1,159 na CKD-EPI 2009. O posicionamento conjunto SBN/SBPC-ML descreve o problema sem meias palavras: raça é "um conceito social que não se correlaciona, necessariamente, com as diferenças genotípicas ou metabólicas subjacentes", o parâmetro ignora quem se identifica como multirracial, e o efeito prático de superestimar a filtração em pessoas negras é atrasar diagnóstico, encaminhamento ao nefrologista e entrada em lista de transplante.1

O que as sociedades recomendam hoje

Para adultos, a SBN e a SBPC/ML recomendam, desde o documento de 2024:1

  • CKD-EPI 2021, só com creatinina sérica;
  • CKD-EPI 2021, com creatinina e cistatina C;
  • CKD-EPI 2012, só com cistatina C.

Nenhuma delas usa raça. A SBN mantém a calculadora correspondente aberta no seu site.5

O que o documento oficial do SUS ainda imprime

Aqui aparece a divergência. O PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11, de 16 de setembro de 2024 — e ainda o texto em vigor —, apresenta no seu Quadro 1 uma única fórmula, creditada a "Levey AS et al., Ann Intern Med. 2009", ou seja, a CKD-EPI 2009.2

O quadro lista dois conjuntos de coeficientes para a constante A: "Mulher = 166; Homem = 163" e "Mulher = 144; Homem = 141". São exatamente os valores da CKD-EPI 2009 com e sem o fator racial (141 × 1,018 × 1,159 ≈ 166; 141 × 1,159 ≈ 163; 141 × 1,018 ≈ 144). E a palavra que distinguia as duas linhas não está no quadro: o texto do protocolo não usa "raça" nem "negro" em nenhum ponto da seção da fórmula.

Ou seja: o protocolo nacional que os estados e municípios devem seguir na regulação do acesso ainda veicula a equação com fator racial, seis meses depois de as duas sociedades científicas terem recomendado abandoná-la — e sem dizer ao leitor o que separa os dois conjuntos de coeficientes.

E o que dizem os estudos feitos no Brasil

Duas pesquisas brasileiras chegaram a conclusões diferentes, e vale conhecer as duas.

Em Vitória (ES), 272 adultos de um subestudo da Pesquisa Nacional de Saúde fizeram coleta urinária de 24 horas. O ajuste por raça/cor piorou a acurácia de ambas as equações, e o clearance medido não diferiu entre os grupos de cor da pele (p = 0,21), sugerindo que não há diferença no metabolismo da creatinina em função da cor. Os autores concluem que a correção por raça/cor não é recomendada.6

Em Porto Alegre (RS), 306 adultos brancos e 48 negros tiveram a filtração medida com 51Cr-EDTA. Nenhuma equação alcançou a acurácia P30 desejável de 90%. A CKD-EPI 2009 teve o melhor desempenho nos participantes negros; a CKD-EPI 2021 subestimou a ocorrência de doença renal nos brancos. A conclusão dos autores contraria o consenso: eles não recomendam substituir a CKD-EPI 2009 pela 2021 na população brasileira.7

As duas concordam num ponto e discordam no outro: o coeficiente racial não se sustenta, mas qual equação usar no Brasil ainda está em disputa. O próprio posicionamento SBN/SBPC-ML reconhece que as equações foram validadas majoritariamente na população norte-americana e que "a acurácia para outras populações, como a brasileira, ainda [é] pouco estudada".1

Ureia: o exame que quase sempre vem junto

A ureia é o produto final do metabolismo das proteínas, eliminado pelos rins. No Brasil, o laudo traz "ureia" em mg/dL — não o BUN (nitrogênio ureico) usado nos Estados Unidos, o que torna as tabelas americanas diretamente inaplicáveis ao seu laudo.

A ureia sobe com desidratação, dieta rica em proteína, sangramento digestivo e corticoides, e desce na desnutrição e na doença hepática — situações que nada têm a ver com filtração. Por isso ela não estadia doença renal: no fluxograma do PCDT, a ureia aparece entre os exames de acompanhamento dos pacientes já diagnosticados, não entre os critérios diagnósticos.2

Albuminúria: o exame mais negligenciado do Brasil

A doença renal crônica não se define só pela filtração. Ela se define por TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou por um marcador de lesão renal — tipicamente a albuminúria — presente por mais de três meses.12

O PCDT lista como marcadores de dano parenquimatoso: albuminúria ≥ 30 mg/24 h ou RAC ≥ 30 mg/g, hematúria de origem glomerular, alterações eletrolíticas ou tubulares, achados de biópsia e alterações de imagem.2 O exame recomendado é a RAC em amostra isolada, não a coleta de 24 horas.2 Uma Segunda Opinião Formativa do Ministério da Saúde acrescenta um cuidado prático: todo teste alterado deve ser confirmado em duas de três amostras, em intervalo de três a seis meses, pela variabilidade diária da excreção de albumina.8

E a lacuna é enorme. No estudo SEARCH, com 14.239 brasileiros de alto risco (84% hipertensos, 37% diabéticos), a doença renal foi identificada pela primeira vez em 19,6% — e a RAC tinha sido feita em menos de 5% deles antes da campanha, subindo para menos de 7% depois. Os autores chamam isso de "oportunidade perdida", apesar do acesso universal ao exame no Brasil.9

Os estágios da doença renal crônica no Brasil

O PCDT brasileiro publica a classificação em dois quadros separados, ambos declarados como "adaptado do KDIGO 2012" — e não como a grade de risco em cores que o KDIGO publica internacionalmente.2 Isso vale para o PCDT, não para o país inteiro: a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 publica a grade cruzada completa, adaptada do KDIGO 2024 — ela está detalhada na página da microalbuminúria.

Por TFG, em mL/min/1,73 m²:

EstágioTFGDescrição
1≥ 90Lesão renal com TFG normal
260–89Lesão renal com TFG levemente diminuída
3A45–59TFG moderadamente diminuída
3B30–44TFG moderadamente diminuída
415–29TFG gravemente diminuída
5< 15Falência renal
5D< 15 em diáliseFalência renal em terapia substitutiva

Por RAC urinária, em mg/g: A1 < 30 (normal a leve), A2 de 30 a 299 (moderada), A3 acima de 300 (grave).2

Repare que nos estágios 1 e 2 a TFG está normal ou quase: o que define a doença ali é o marcador de lesão, não o número da filtração. É por isso que uma creatinina "normal" não encerra o assunto.

Quando o encaminhamento ao nefrologista está indicado

O posicionamento SBN/SBPC-ML é direto: estágios G4 e G5 devem ser encaminhados.1 O PCDT detalha o caminho por estágio: acompanhamento na atenção primária nos estágios 1 a 3B, com encaminhamento se houver RAC acima de 1 g/g em não diabético ou perda de 30% da TFG apesar do tratamento; a partir do estágio 4, o acompanhamento passa à atenção especializada com equipe multiprofissional.2 Uma SOF do Telessaúde acrescenta como gatilho a perda superior a 5 mL/min/1,73 m² em seis meses com TFG já abaixo de 60, confirmada em dois exames.10

O que o SUS cobre — e o que não cobre

Consultamos a Tabela de Procedimentos SIGTAP do DATASUS, competência 08/2026. Os valores ambulatoriais são estes:3

ProcedimentoCódigoValor
Dosagem de creatinina0202010317R$ 1,85
Dosagem de ureia0202010694R$ 1,85
Clearance de creatinina0202050025R$ 3,51
Dosagem de microalbumina na urina0202050092R$ 8,12
Determinação de filtração glomerular (medicina nuclear)0208040080R$ 63,22

⚠️ A cistatina C não aparece na tabela. Buscamos o termo em todas as 5.023 linhas da tabela de procedimentos: zero ocorrências. O exame que as duas sociedades brasileiras recomendam como teste confirmatório não tem código de custeio no SUS — o que ajuda a explicar por que ele quase não aparece nos laudos do país. Se você o fizer, será por conta própria ou por plano de saúde; nossa página sobre quanto custa um exame de sangue traz a ordem de grandeza.

A linha de cuidado da pessoa com DRC continua regida pela Portaria nº 389, de 13 de março de 2014, que é a norma listada pelo próprio Ministério da Saúde na sua página de legislação sobre doença renal crônica, atualizada em outubro de 2025.11

Dados que só o Brasil tem sobre os próprios rins

A SBN publica o Censo Brasileiro de Diálise todo ano — uma série que poucos países mantêm. A edição de 2024, com 386 centros participantes e dados de 76.946 pacientes, registrou:4

  • 172.585 pessoas em diálise em 1º de julho de 2024, alta de 9,7% sobre 2023 — o maior aumento anual dos últimos anos;
  • prevalência de 812 por milhão de habitantes e incidência de 249 pmp;
  • 87,3% em hemodiálise, 7,1% em hemodiafiltração, 5,6% em diálise peritoneal;
  • 79% dos pacientes financiados pelo sistema público (91% no Norte, 70% no Centro-Oeste);
  • taxa bruta de mortalidade anual de 16,5%;
  • e o dado inédito: hipertensão e diabetes empatados em 29% como causa primária, a primeira vez que o diabetes alcança a hipertensão desde o início do censo.

Do lado do rastreamento, o estudo EPI-CKD Brasil, feito pela SBN em 20 regionais no Dia Mundial do Rim de 2025 com teste rápido de creatinina, encontrou TFG estimada abaixo de 60 em 40,2% de 8.374 pessoas com fator de risco — com variação regional de 27,9% (Bahia) a 55,2% (Paraná) — e apenas 35,2% dos participantes conheciam os fatores de risco da doença.12 É uma medida única, não um diagnóstico: a doença renal crônica exige confirmação após três meses.

Preparo, coleta e as armadilhas do exame

A creatinina não exige jejum prolongado, mas convém evitar uma refeição carnívora pesada nas horas anteriores.1 No sangue total ela é estável por 24 horas; no soro, até 7 dias entre 20 e 25 °C ou refrigerado de 2 a 8 °C; congelada a −20 °C, até 3 meses.1

Três interferências merecem atenção, e a tabela de interferentes das Recomendações da SBPC/ML as quantifica:13

  • hemólise a partir de 1.000 mg/dL de hemoglobina;
  • lipemia a partir de 800 mg/dL de triglicérides;
  • icterícia a partir de 5 mg/dL de bilirrubinas.

Esse último número chama a atenção: percorrendo os 34 analitos da tabela, a creatinina tem o menor limiar de interferência por bilirrubina de todos — a maioria só sofre a partir de 60 mg/dL. Uma icterícia discreta já compromete o resultado. (A tabela publicada pela SBPC/ML é creditada, no próprio documento, à Clínica Dávila, do Chile.)

Há ainda interferências medicamentosas reais: cimetidina e trimetoprima bloqueiam a secreção tubular e elevam a creatinina sem que a filtração tenha mudado; a dipirona pode falsear o resultado conforme o método usado.1

Perguntas frequentes

Minha creatinina está normal. Meus rins estão bem? Não necessariamente. A creatinina só sai do intervalo de referência depois de uma queda de cerca de 50% da filtração em adultos, e de cerca de 70% em idosos.1 E os estágios 1 e 2 da doença renal são definidos por albuminúria com TFG normal.2 Uma creatinina normal com RAC alterada é doença renal.

Por que a TFG do meu laudo mudou sem a creatinina mudar? Provavelmente o laboratório trocou de equação. A migração da CKD-EPI 2009 para a CKD-EPI 2021 muda o número calculado sem que nada tenha mudado no seu sangue — e a diferença é maior justamente para quem antes recebia o coeficiente racial.1

Preciso fazer o clearance de creatinina de 24 horas? O PCDT do Ministério da Saúde recomenda evitá-lo para avaliar a filtração, pelo risco de erro na coleta e na marcação do tempo.2 Quem decide é o seu médico: há situações — massa muscular atípica, amputações, casos de pesquisa — em que a medida direta ainda faz sentido.

Ureia alta significa doença renal? Sozinha, não. Desidratação, dieta hiperproteica, sangramento digestivo e corticoides elevam a ureia sem doença renal. Ela é um exame de acompanhamento, não de diagnóstico.2

Como saber meu estágio? Precisa de dois eixos: TFG e RAC. Você pode estimar o primeiro na nossa calculadora de TFG, mas o estadiamento exige confirmação após três meses e é atribuição médica.

Quais outros exames costumam vir junto? Como diabetes e hipertensão respondem por 58% das causas de doença renal em diálise no Brasil,4 o pedido raramente vem só: glicemia, hemoglobina glicada, lipidograma e hemoglobina costumam acompanhar. As siglas estão no nosso glossário de exames de sangue, e o papel do plasma e das células está explicado em composição do sangue.

Quer entender seu laudo com calma, exame por exame? Comece pelo Blood Analysis em português.

Fontes

Footnotes

  1. Kirsztajn GM, Silva Junior GBD, Silva AQBD, et al. Estimativa da taxa de filtração glomerular na prática clínica: posicionamento consensual da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) e Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML). J Bras Nefrol. 2024;46(3):e20230193. Publicado em 05/04/2024, corrigido em 10/02/2025. DOI: 10.1590/2175-8239-JBN-2023-0193en · PMID 38591823 · texto integral em português (SciELO). ⚠️ Documento em vigor = a versão de 2024 mais a errata de abril de 2025 (J Bras Nefrol. 2025;47(2):e20230193er, PMID 40228141), que corrige o expoente da CKD-EPI 2021 de 1,200 para −1,200. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23

  2. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11, de 16 de setembro de 2024. 68 páginas. PDF oficial (gov.br) · ficha na Conitec. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16

  3. Brasil. Ministério da Saúde / DATASUS. Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS (SIGTAP), tabela tb_procedimento, competência 08/2026 (5.023 procedimentos). Valores ambulatoriais consultados diretamente no arquivo da competência. sigtap.datasus.gov.br. 2

  4. Nerbass FB, Lima HN, Zawadzki B, Moura-Neto JA, Lugon JR, Sesso R. Censo Brasileiro de Diálise 2024. J Bras Nefrol. 2026;48(1):e20250112. DOI: 10.1590/2175-8239-JBN-2025-0112en · PMID 41712529 · texto integral em português (SciELO). 2 3

  5. Sociedade Brasileira de Nefrologia. Calculadora CKD-EPI 2021. sbn.org.br.

  6. Almeida WLDC, Mill JG. Validação de equações de estimativa da filtração glomerular ajustáveis por raça/cor em adultos de Vitória, Espírito Santo, Brasil. Ciênc Saúde Coletiva. 2024;29(1):e15752022. DOI: 10.1590/1413-81232024291.15752022 · PMID 38198327.

  7. Escott GM, Zingano CP, Ferlin E, Garroni M, Thomé FS, Veronese FJV, Silveiro SP. Is race adjustment necessary to estimate glomerular filtration rate in South Brazilians? J Nephrol. 2024;37(9):2635-2645. DOI: 10.1007/s40620-024-02001-x · PMID 38913268.

  8. Núcleo de Telessaúde Rio Grande do Sul. Qual o valor da microalbuminúria em amostra isolada para acompanhamento de lesão renal no paciente diabético, comparado com a microalbuminúria em urina de 24 horas? Segunda Opinião Formativa, BVS Atenção Primária em Saúde, ID sofs-15350. aps-repo.bvs.br.

  9. Núcleo de Telessaúde Mato Grosso do Sul. Em que situações dentro da APS devemos encaminhar o paciente com disfunção renal para o nefrologista? Segunda Opinião Formativa, BVS Atenção Primária em Saúde, ID sofs-45413, 1 de setembro de 2023. aps-repo.bvs.br.

  10. Brasil. Ministério da Saúde. Legislação sobre doença renal crônica — Portaria nº 389, de 13 de março de 2014, que define os critérios para a organização da linha de cuidado da pessoa com Doença Renal Crônica e institui incentivo financeiro para o cuidado ambulatorial pré-dialítico. Página atualizada em 10/10/2025. gov.br/saude.

  11. Calice-Silva V, Abreu P, Pinheiros ME, et al. EPI-CKD Brazil: point-of-care screening for chronic kidney disease during World Kidney Day. J Bras Nefrol. 2026;48(3):e20250298. DOI: 10.1590/2175-8239-JBN-2025-0298en · PMID 42080941.

  12. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Recomendações da SBPC/ML: boas práticas em laboratório clínico. Tabela 1 — concentrações de hemoglobina, triglicérides e bilirrubinas que interferem na medição de analitos (p. 194-195). PDF.

Aviso médico. Este guia tem finalidade informativa e educativa; não constitui aconselhamento médico e não substitui uma consulta. Os valores de referência variam conforme o laboratório e a técnica: só o seu médico pode interpretar os seus resultados no seu contexto.