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Exames de sangue para anemia: como se investiga a causa

A anemia se define pela hemoglobina, não pelo hematócrito. Veja os cortes usados no Brasil, o que VCM, reticulócitos e ferritina acrescentam e o custo no SUS.

Publicado em 9 de setembro de 202616 min de leituraEscrito pela Equipe Blood Analysis · Revisado e verificado por Julien Priour

"Você está anêmico." A frase é curta, o laudo é longo, e entre as duas coisas costuma sobrar uma dúvida grande: anemia não é um diagnóstico, é um achado. Ela diz que falta hemoglobina — não diz por quê. E a razão muda tudo: falta de ferro, inflamação crônica, doença renal, carência de vitamina B12, um traço genético herdado. Esta página explica quais exames respondem a qual pergunta, na ordem em que a investigação costuma andar, com os números e os documentos que valem no Brasil.

Em resumo

  • A anemia se define pela hemoglobina — não pelo hematócrito nem pela contagem de hemácias.1
  • O Brasil não tem corte próprio: o PCDT do Ministério da Saúde e o consenso da ABHH adotam os limites da OMS — 12 g/dL para mulheres não gestantes e 13 g/dL para homens.231
  • Na Pesquisa Nacional de Saúde, 9,9% dos adultos e idosos brasileiros tinham anemia, e o tipo mais comum era o normocítico normocrômico (56,0%) — ou seja, um VCM normal não afasta anemia.4
  • O VCM classifica; os reticulócitos dizem se a medula está respondendo; a ferritina mede o estoque de ferro.2
  • A ferritina sobe com a inflamação e pode mascarar uma carência: o PCDT manda dividir o valor por 3 nesses casos.2
  • 3,7% dos adultos brasileiros têm alguma hemoglobinopatia, e quem tem traço falciforme apresenta hemoglobina e VCM mais baixos que quem não tem.56
  • A OMS 2024 recomenda expressamente não ajustar o corte de hemoglobina por ancestralidade, etnia ou raça.1
  • Uma investigação completa de anemia custa cerca de R$ 82 na tabela do SUS.7

A anemia se define pela hemoglobina

Todo hemograma completo traz três números que parecem dizer a mesma coisa: a contagem de hemácias, o hematócrito e a hemoglobina. Só o último define anemia.

O consenso de Patient Blood Management da ABHH é explícito no capítulo "Tolerância à anemia": a queda da concentração de hemoglobina, em si, "não define a anemia, pois esse achado pode ocorrer em situações fisiológicas, como a que se observa na gestação, atribuída à hemodiluição" — mas, "para fins práticos", a hemoglobina é o parâmetro laboratorial mais usado.3 A razão é simples: hematócrito e contagem de hemácias variam com o estado de hidratação e com o tamanho das células, enquanto a hemoglobina mede diretamente o que interessa, a capacidade de transportar oxigênio.

Isso tem uma consequência prática. Um hematócrito "baixinho" com hemoglobina normal não é anemia. Uma contagem de hemácias normal com hemoglobina baixa é anemia — e é justamente o que acontece no traço talassêmico, em que as células são muitas e pequenas.

Os cortes que valem no Brasil

O Brasil não produziu um limiar diagnóstico próprio. O PCDT de Anemia por deficiência de ferro do Ministério da Saúde, aprovado pela Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10 de novembro de 2014 e ainda em vigor, remete explicitamente "aos padrões diagnósticos da OMS".2 O consenso da ABHH faz o mesmo.3

A OMS revisou esses cortes em março de 2024. Estes são os valores da diretriz atual, convertidos para g/dL:1

GrupoCorte (OMS 2024)
Crianças de 6 a 23 meses< 10,5 g/dL
Crianças de 24 a 59 meses< 11,0 g/dL
Crianças de 5 a 11 anos< 11,5 g/dL
12 a 14 anos< 12,0 g/dL
Mulheres não gestantes, 15 a 65 anos< 12,0 g/dL
Homens, 15 a 65 anos< 13,0 g/dL
Gestação — 1º trimestre< 11,0 g/dL
Gestação — 2º trimestre< 10,5 g/dL
Gestação — 3º trimestre< 11,0 g/dL

Duas observações importam ao leitor brasileiro. A primeira: a única mudança de 2024 foi em lactentes de 6 a 23 meses, cujo corte caiu de 11,0 para 10,5 g/dL. Isso desloca prevalências — o inquérito ENANI-2019, aplicando esses limites a 6.020 crianças de 6 a 59 meses, encontrou 7,1% de anemia, com 15,5% entre as que viviam em insegurança alimentar grave.8

A segunda: a tabela da OMS 2024 para na faixa dos 65 anos, e o próprio documento lista os maiores de 65 anos como lacuna de pesquisa.1 Não existe, portanto, corte da OMS para idosos. A ABHH escreve 13 g/dL para mulheres na pós-menopausa, atribuindo o valor à OMS; o PCDT de 2014 traz cortes ligeiramente diferentes para idosos, vindos de outra fonte.32 Se você tem mais de 65 anos e a hemoglobina está no limite, essa divergência é real, e é uma conversa com o médico — não uma conta que se faz sozinho.

A diretriz da OMS acrescenta ainda dois ajustes que raramente aparecem no laudo: quem vive acima de 500 metros de altitude tem o corte elevado (4 g/L entre 500 e 999 m, 8 g/L entre 1.000 e 1.499 m), e fumantes também (3 a 6 g/L conforme o número de cigarros por dia).1 Nenhum dos dois ajustes é feito automaticamente pelo laboratório: eles dependem de informações que só você tem.

O que foi medido nos brasileiros

Corte diagnóstico e valor de referência não são a mesma coisa. O corte é a linha a partir da qual se fala em anemia; o valor de referência é a faixa em que se distribui a população saudável. Até 2019 o Brasil não tinha a segunda.

A Pesquisa Nacional de Saúde, do IBGE com o Ministério da Saúde, mudou isso: a partir de uma amostra inicial de 8.952 adultos, excluindo quem tinha doença prévia e os valores extremos, produziu a primeira referência hematológica nacional representativa. A hemoglobina média foi de 14,9 g/dL nos homens (limites de 13,0 a 16,9) e de 13,2 g/dL nas mulheres (11,5 a 14,9); a contagem de hemácias, de 5,0 milhões/mm³ nos homens e 4,5 milhões/mm³ nas mulheres.9

Repare no detalhe que interessa: o limite inferior medido nas mulheres brasileiras, 11,5 g/dL, é mais baixo do que o corte de anemia de 12,0 g/dL. Não há contradição — são duas perguntas diferentes. A faixa descreve o que se observa numa população; o corte é uma decisão clínica, calibrada para não deixar passar quem precisa de investigação. É por isso que o intervalo impresso no seu laudo, que depende do equipamento e do método do laboratório, pode não coincidir com o número que o médico usa para decidir.

Por que esta página não separa por cor da pele

É preciso dizer isto de frente, porque o leitor vai encontrar o contrário em documentos brasileiros. O PCDT de 2014 lista, entre os critérios de inclusão, cortes de hemoglobina distintos para idosos "brancos" e "negros".2 O estudo de hemoglobinopatias da Pesquisa Nacional de Saúde publica prevalências por cor da pele autodeclarada.5

A OMS revisou exatamente essa questão em 2024 e concluiu o oposto. O enunciado normativo 2.c da diretriz diz que as concentrações de hemoglobina não devem ser ajustadas para diagnosticar anemia em função de ancestralidade genética, etnia ou raça, por insuficiência de evidência e pela complexidade de operacionalizar o ajuste — e observa que a mistura de ancestralidades é hoje universal, o que compromete a aplicabilidade da pesquisa existente.1

Este site segue a OMS. O que muda a leitura de um hemograma não é a cor da pele: é a variante de hemoglobina que a pessoa carrega, e isso se mede, não se presume.

O VCM decide o caminho da investigação

O VCM (volume corpuscular médio) é o tamanho médio das hemácias, e é ele que divide a anemia em três famílias — microcítica, normocítica e macrocítica. Cada família tem sua própria lista de causas e seus próprios exames seguintes. Ao lado dele, o laudo traz o HCM e o CHCM, que medem a quantidade e a concentração de hemoglobina dentro de cada célula; um CHCM baixo indica células "pálidas", hipocrômicas.

Aqui vem o achado mais contraintuitivo da Pesquisa Nacional de Saúde: entre os brasileiros anêmicos, o padrão mais frequente foi o normocítico normocrômico, com 56,0% dos casos.4 Ou seja, na maioria das vezes o VCM está normal e não ajuda a decidir nada. Isso não é um defeito do exame — é a descrição do estágio inicial da própria carência de ferro. O PCDT descreve a sequência: primeiro aparece uma anemia normocítica, com reticulócitos normais e marcadores de ferro já baixos; só com a continuação da perda sanguínea surgem a hipocromia e a microcitose.2

Conclusão prática: um VCM normal não encerra a investigação. Se a hemoglobina está baixa, o estudo do ferro se faz de qualquer forma.

Reticulócitos: a medula responde ou não?

Os reticulócitos são hemácias jovens, recém-lançadas na circulação. Contá-los responde a uma pergunta que nenhum outro exame do hemograma responde: diante da anemia, a medula óssea está produzindo mais ou não está?

  • Reticulócitos altos: a medula responde. O problema está fora dela — perda de sangue ou destruição das hemácias (hemólise).
  • Reticulócitos normais ou baixos: a medula não consegue responder. Falta matéria-prima (ferro, B12, folato), falta estímulo (eritropoetina, na doença renal) ou a própria medula está comprometida.

O algoritmo de investigação da ABHH coloca a contagem de reticulócitos justamente nesse nó de decisão.3 É um exame barato e muitas vezes esquecido no pedido inicial — e é também o exame que mostra, uma ou duas semanas depois, se um tratamento começou a funcionar, antes que a hemoglobina se mexa.

Um segundo número do hemograma trabalha na mesma direção: o RDW, que mede o quanto os tamanhos das hemácias variam entre si. O PCDT descreve o fenômeno sem usar a sigla: à medida que a carência de ferro se agrava, surgem "a anisocitose (células de tamanhos variados) e a poiquilocitose (células de formas variadas)".2 O RDW é a tradução numérica dessa anisocitose. Ele sobe também em portadores de traço falciforme, segundo os dados da Pesquisa Nacional de Saúde — ou seja, é um sinal útil ao lado do VCM, mas incapaz de apontar sozinho uma causa.6

Ferritina — e a armadilha da inflamação

A ferritina é a proteína que armazena ferro, e sua dosagem no sangue é o melhor reflexo dos estoques do corpo. O PCDT é direto: diante da suspeita de anemia ferropriva, pede-se hemograma completo com índices e avaliação de esfregaço, mais ferritina. Os demais — ferro sérico, transferrina, saturação da transferrina e capacidade de ligação do ferro — "não são obrigatórios".2 Eles compõem o que se chama de cinética do ferro e ajudam nos casos duvidosos.

O PCDT registra os números: abaixo de 10 a 15 ng/mL a deficiência de ferro é certa, mas a sensibilidade é baixa (59%); com o corte em 30 ng/mL, a eficiência diagnóstica sobe para 92% de sensibilidade e 98% de especificidade. Uma ferritina baixa é, portanto, um achado forte.2

O problema é o inverso. A ferritina é uma proteína de fase aguda: sobe em doenças inflamatórias, infecciosas, hepáticas e neoplásicas. Uma ferritina alta pode, então, esconder uma carência de ferro real. O PCDT quantifica o efeito — a inflamação multiplica a ferritina por cerca de três — e propõe uma regra de bolso: nesses pacientes, dividir o valor por 3, e considerar deficiência concomitante se o resultado ficar em 20 ng/mL ou menos.2

A ABHH resolve o mesmo problema por outro caminho, mais usado hoje: em contexto inflamatório, eleva o limiar de ferritina para 100 mcg/L e exige que a saturação da transferrina esteja abaixo de 20%.3 Por isso a proteína C reativa costuma acompanhar o pedido: ela diz se a ferritina daquele dia pode ser lida ao pé da letra.

O que a microcitose esconde no Brasil

Hemácias pequenas fazem pensar em falta de ferro. No Brasil, nem sempre é isso. Um estudo com candidatos a doador de sangue em Uberaba (MG) investigou 204 amostras com microcitose: 82 delas (40,2%) tinham deficiência de ferro confirmada pela ferritina — e a maior parte do restante correspondia a alfatalassemia.10 Em outras palavras, num adulto aparentemente saudável com microcitose, a carência de ferro explica menos da metade dos casos.

A Pesquisa Nacional de Saúde mediu a frequência dessas variantes por cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) em amostra nacional de adultos: hemoglobinopatias em 3,7% da população, sendo traço falciforme 2,49%, talassemia menor 0,30% e suspeita de talassemia maior 0,80%.5 Por região, o traço falciforme é mais frequente no Norte e no Nordeste; para as talassemias, as diferenças entre regiões não foram estatisticamente significativas.5

Um trabalho posterior sobre os mesmos dados comparou os hemogramas de 234 adultos com traço falciforme e dos adultos sem o traço: os portadores tinham hemoglobina, VCM, HCM e CHCM mais baixos e RDW mais alto.6 É um dado importante para quem recebe um laudo levemente alterado a vida inteira sem nunca ter tido carência de ferro. O exame que resolve a dúvida é a eletroforese de hemoglobina — não confunda com a eletroforese de proteínas, que é outro exame, para outra pergunta.

VCM alto, hemólise e as outras pistas

Quando o VCM está alto, a lista muda: vitamina B12 e ácido fólico entram primeiro, ao lado de álcool, medicamentos e doença hepática. Vale lembrar que, desde a RDC nº 604/2022 da ANVISA, as farinhas de trigo e de milho comercializadas no Brasil são obrigatoriamente enriquecidas com ferro e ácido fólico — uma política que muda o pano de fundo nutricional do país.11

Se os reticulócitos estão altos, a suspeita é de hemólise, e três exames a confirmam em conjunto: LDH alta (enzima liberada pelas células destruídas), bilirrubina indireta alta (produto da degradação da hemoglobina) e haptoglobina baixa (a proteína que captura a hemoglobina livre e se esgota). Em certos contextos entra também a G6PD, enzima cuja deficiência provoca crises hemolíticas.

Duas anemias que não são falta de ferro

A anemia da inflamação — também chamada de anemia da doença crônica — é descrita como a anemia mais frequente em pacientes hospitalizados e cronicamente doentes. O mecanismo é conhecido: citocinas inflamatórias elevam a hepcidina, que bloqueia a absorção intestinal de ferro e prende o ferro dentro das células do sistema reticuloendotelial. O resultado é uma eritropoese "com fome de ferro" apesar de estoques cheios — ferro sérico baixo com ferritina alta.12

A anemia da doença renal crônica é outra entidade, e o Brasil a trata como tal: o PCDT de anemia ferropriva exclui expressamente a anemia da insuficiência renal crônica, "que dispõe de protocolo específico", e esse protocolo existe — o PCDT de Anemia na Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria nº 365, de 15 de fevereiro de 2017.213 Aqui o problema é a falta de eritropoetina, hormônio produzido pelo rim. Por isso a avaliação da função renal entra cedo diante de uma anemia normocítica sem causa aparente.

Quanto custa investigar uma anemia no SUS

A tabela SIGTAP do Ministério da Saúde publica o valor de repasse de cada procedimento. Estes são os valores da competência 08/2026:7

ExameCódigoValor
Hemograma completo0202020380R$ 4,11
Contagem de reticulócitos0202020037R$ 2,73
Dosagem de ferritina0202010384R$ 15,59
Dosagem de ferro sérico0202010392R$ 3,51
Capacidade de fixação do ferro0202010023R$ 2,01
Dosagem de proteína C reativa0202030202R$ 2,83
Subtotal — primeira linhaR$ 30,78
Dosagem de vitamina B120202010708R$ 15,24
Dosagem de folato0202010406R$ 15,65
Eletroforese de hemoglobina0202020355R$ 5,41
Dosagem de creatinina0202010317R$ 1,85
Dosagem de desidrogenase lática0202010368R$ 3,68
Bilirrubina total e frações0202010201R$ 2,01
Dosagem de haptoglobina0202010490R$ 3,68
Dosagem de G6PD0202010481R$ 3,68
Total dos 14 examesR$ 81,98

Dois detalhes saltam da tabela. A ferritina sozinha custa quase quatro vezes o hemograma completo — o que ajuda a entender por que ela é omitida com tanta frequência do pedido inicial. E a saturação da transferrina não existe como procedimento na tabela: varremos os 5.023 procedimentos e não há nenhum. Ela é calculada a partir do ferro sérico e da capacidade de ligação, não dosada — se o seu laudo a traz, ela saiu de uma conta.7

Preços de laboratórios privados variam muito e não constituem referência sanitária; são observação de mercado.

Três erros de leitura que se repetem

Comparar dois laudos de laboratórios diferentes. Métodos e equipamentos variam, e os índices hematimétricos são particularmente sensíveis a isso. Uma variação de 0,3 g/dL entre dois laboratórios pode não significar nada. Para acompanhar uma anemia, o ideal é repetir no mesmo lugar.

Tratar a ferritina como um número absoluto. Ela é o único marcador do painel que se move nas duas direções por razões opostas — cai com a falta de ferro, sobe com a inflamação. Lida sem PCR ao lado, é o item que mais gera conclusões erradas.

Achar que anemia leve não precisa de causa. A gravidade da anemia e a gravidade da causa são coisas independentes. Uma hemoglobina de 11,5 g/dL num homem adulto pode vir de uma perda de sangue silenciosa; uma de 9,0 g/dL numa gestante pode ser uma carência simples. O número mede o efeito, não a origem.

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Perguntas frequentes

Preciso estar em jejum? Nenhuma norma brasileira consultada exige jejum para o hemograma. O PCDT recomenda colher o ferro sérico em jejum, o que costuma padronizar o pedido inteiro.2 Siga a orientação do seu laboratório.

Hemoglobina normal exclui falta de ferro? Não. A deficiência de ferro sem anemia é comum e antecede a queda da hemoglobina em meses. É por isso que a ferritina se pede junto, e não depois.2

Ferritina alta significa que estou com ferro sobrando? Não necessariamente. Inflamação, infecção, doença hepática e obesidade a elevam sem nenhuma sobrecarga. Ler a ferritina isolada, sem PCR e sem saturação da transferrina, é a fonte de erro mais comum do painel.23

O hemograma detecta anemia falciforme? Não. Ele levanta a suspeita; quem identifica a variante é a eletroforese de hemoglobina ou o HPLC.5

Todo mundo com hemoglobina baixa precisa de todos esses exames? Não. A sequência é justamente para evitar isso: o hemograma e a ferritina resolvem a maioria dos casos, e cada exame seguinte só entra se o anterior deixou uma pergunta aberta. Para entender a estrutura do seu laudo, veja como ler um resultado de exame de sangue.

Para lembrar

A anemia é um sinal, não uma doença. O caminho brasileiro para investigá-la é razoavelmente enxuto — hemoglobina para definir, VCM e reticulócitos para orientar, ferritina com PCR para medir o ferro — e custa menos de R$ 100 na tabela do SUS. Nada disso substitui a avaliação de um médico, que é quem cruza esses números com a sua história.

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Fontes

Documentos institucionais brasileiros e publicações científicas indexadas no PubMed usados neste guia. Não citamos as Recomendações da SBPC/ML nesta página; a Sociedade Brasileira de Pediatria foi consultada, mas o site rejeitou o acesso (erro 403 de Cloudflare) e, por isso, nada dela foi utilizado aqui.

Footnotes

  1. Organização Mundial da SaúdeGuideline on haemoglobin cutoffs to define anaemia in individuals and populations, Genebra, 2024. Texto integral obtido pela API do repositório IRIS da OMS. Seções consultadas: Tabela 2 (cortes de hemoglobina por grupo populacional, em g/L); enunciado normativo 1.a (a única alteração foi em crianças de 6 a 23 meses; retenção de 130 g/L para homens apesar de dados sugerirem 135 g/L); Tabela 4 (ajustes por altitude em incrementos de 500 m); Tabela 5 (ajustes por tabagismo); enunciado normativo 2.c ("Haemoglobin concentrations should not be adjusted to diagnose anaemia in populations to account for the effect of genetic ancestry/ethnicity/race due to insufficient evidence to change current adjustments and the complexity of operationalization"); lista de lacunas de pesquisa, que inclui expressamente homens e mulheres com mais de 65 anos. who.int 2 3 4 5 6 7

  2. Ministério da Saúde (Secretaria de Atenção à Saúde)Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Anemia por deficiência de ferro, aprovado pela Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10 de novembro de 2014. PDF de 594 KB baixado e lido integralmente. Seções consultadas: item 4.2 (Diagnóstico laboratorial — "deve-se solicitar um hemograma completo (com os índices hematimétricos e avaliação de esfregaço periférico) e dosagem de ferritina. Outras medidas, como ferro sérico, transferrina e a saturação da transferrina não são obrigatórios"; sequência normocítica → hipocrômica → microcítica; ferritina abaixo de 10 a 15 ng/mL com sensibilidade de 59% e especificidade de 99%; corte de 30 ng/mL com 92% e 98%; "o efeito da inflamação sobre a ferritina é de aumentá-la em três vezes… a regra de ouro é dividir o valor da ferritina por 3"; saturação da transferrina abaixo de 20%; ferro sérico em jejum); item 5 (Critérios de inclusão, onde constam os cortes de hemoglobina por faixa etária e gestação); item 1 (Metodologia de busca, onde consta a exclusão da "anemia em insuficiência renal crônica, que dispõe de protocolo específico"). ⚠️ O documento traz cortes distintos para idosos segundo cor da pele autodeclarada; não reproduzimos essa estratificação, pelas razões explicadas no corpo da página. Página oficial · PDF 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15

  3. Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH)Consenso da ABHH sobre Patient Blood Management, 1ª edição, 2023. PDF de 96 páginas baixado e lido. Seções consultadas: capítulo "Tolerância à anemia" (p. 79: "A redução da concentração de hemoglobina (Hb), em si, não define a anemia, pois esse achado pode ocorrer em situações fisiológicas, como a que se observa na gestação, atribuída à hemodiluição"; Hb < 12 g/dL para mulheres pré-menopausa e < 13,0 g/dL para homens e mulheres pós-menopausa, ao nível do mar; limites pediátricos de 11,0, 11,5 e 12,0 g/dL); Figura 1 do capítulo pré-operatório (algoritmo com ferritina de 100 mcg/L, saturação da transferrina ≥ 20%, contagem de reticulócitos e dosagem de B12 e ácido fólico). PDF 2 3 4 5 6 7

  4. Machado ÍE, Malta DC, Bacal NS, Rosenfeld LGM. Prevalence of anemia in Brazilian adults and elderly. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2019; 22(Supl. 2): e190008.supl.2. Estudo transversal com 8.060 pessoas de 18 anos ou mais em todos os estados, com dados laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde; prevalência de anemia de 9,9%, maior entre mulheres, idosos e moradores das regiões Norte e Nordeste; anemia normocítica normocrômica em 56,0% dos casos. PubMed · DOI 2

  5. Rosenfeld LG, Bacal NS, Cuder MAM, Silva AG, Machado ÍE, et al. Prevalence of hemoglobinopathies in the Brazilian adult population: National Health Survey 2014-2015. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2019; 22(Supl. 2): e190007.supl.2. Dosagem por cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC); hemoglobinopatias em 3,7% da população, traço falciforme 2,49%, talassemia menor 0,30% e suspeita de talassemia maior 0,80%; maior frequência de traço falciforme no Norte e no Nordeste, sem diferença estatisticamente significativa entre regiões para as talassemias. ⚠️ O artigo original também estratifica por cor da pele; essa estratificação não foi reproduzida aqui. PubMed · DOI 2 3 4 5

  6. Sá ACMGN, Silva AG, Gomes CS, Sá ATN, Malta DC. Differences between reference intervals of blood counts of Brazilian adults with and without sickle cell trait according to laboratory tests from the National Health Survey. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2023; 26(Supl. 1): e230003. Comparação dos intervalos de referência de 234 adultos com traço falciforme contra os demais participantes da PNS: adultos com o traço apresentaram hemoglobina, VCM, HCM e CHCM mais baixos e RDW mais alto. PubMed · DOI 2 3

  7. Ministério da Saúde / DATASUSSIGTAP: Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS, competência 08/2026 (arquivo TabelaUnificada_202608, tabela tb_procedimento, 5.023 procedimentos). Valores lidos no campo VL_SA. Ausência verificada por varredura completa da tabela: nenhum procedimento de "saturação da transferrina" e nenhum de receptor solúvel de transferrina ou hepcidina. Página oficial (DATASUS) 2 3

  8. Silva LRD, Normando P, Schincaglia RM, Castro IRR, et al. Food Insecurity, Anemia and Vitamin A Deficiency in Brazilian Children Aged between 6 and 59 Months of Age: Brazilian National Survey on Child Nutrition (ENANI-2019). Current Developments in Nutrition, 2025; 9(3): 104567. Dados de 6.020 crianças; anemia definida por hemoglobina < 10,5 g/dL (6 a 23 meses) e < 11 g/dL (24 a 59 meses); prevalência de anemia de 7,1% no conjunto e de 15,5% entre crianças em insegurança alimentar grave. PubMed · DOI

  9. Rosenfeld LG, Malta DC, Szwarcwald CL, Bacal NS, et al. Reference values for blood count laboratory tests in the Brazilian adult population, National Health Survey. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2019; 22(Supl. 2): e190003.supl.2. Amostra inicial de 8.952 adultos, excluídos doentes prévios e valores extremos; primeira referência hematológica nacional representativa. PubMed · DOI

  10. Carlos AM, Souza BMB, Souza RAV, Resende GAD, Pereira GA, Moraes-Souza H. Causes of microcytic anaemia and evaluation of conventional laboratory parameters in the differentiation of erythrocytic microcytosis in blood donors candidates. Hematology, 2018; 23(9): 705-711. Universidade Federal do Triângulo Mineiro (Uberaba, MG): entre 204 amostras de candidatos a doador com microcitose, 82 (40,2%) tinham deficiência de ferro pela ferritina sérica, e parte dos demais, alfatalassemia. PubMed · DOI

  11. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)Monitoramento da Fortificação das Farinhas de Trigo e Milho com Ferro e Ácido Fólico. Página institucional aberta e verificada, com data de modificação de 11/02/2026, que aponta a Resolução RDC nº 604/2022 como a norma vigente do enriquecimento obrigatório. Não localizamos nenhuma norma que a revogue. gov.br/anvisa

  12. Weiss G, Ganz T, Goodnough LT. Anemia of inflammation. Blood, 2019; 133(1): 40-50. Revisão de referência sobre o papel da hepcidina no bloqueio da absorção intestinal de ferro e na retenção de ferro nas células reticuloendoteliais, resultando em eritropoese restrita em ferro; a lista de causas inclui doença renal crônica, insuficiência cardíaca, doenças pulmonares crônicas e obesidade. Fonte internacional, citada pelo mecanismo. PubMed · DOI

  13. Ministério da Saúde / CONITECProtocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Anemia na Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria nº 365, de 15 de fevereiro de 2017. Citado aqui apenas para a existência de um protocolo brasileiro separado para a anemia da DRC; o texto integral do PDF não abriu no nosso acesso, e nenhum valor de corte dele foi usado nesta página. Página oficial (CONITEC)

Aviso médico. Este guia tem finalidade informativa e educativa; não constitui aconselhamento médico e não substitui uma consulta. Os valores de referência variam conforme o laboratório e a técnica: só o seu médico pode interpretar os seus resultados no seu contexto.