Enzimas pancreáticas: lipase, amilase e o corte de 3×
O que a lipase e a amilase medem, por que o diagnóstico exige três vezes o limite, o que sobe sem pancreatite e quanto cada dosagem custa no SUS.
As enzimas pancreáticas do exame de sangue são duas: a lipase e a amilase. Elas aparecem no pedido médico quando alguém suspeita de pancreatite aguda — e é aí que quase toda a confusão começa, porque o número sozinho não decide nada. Este guia explica o que cada uma mede, qual é o corte que realmente vale e o que fazer com um resultado pouco acima do normal.
Em resumo
- São duas dosagens, não um painel: a lipase e a amilase. Cada uma tem código e preço próprios no SUS.
- O corte que decide é "três vezes o limite superior do normal" — e ele faz parte de um critério formal, não de uma regra de bolso. O diagnóstico de pancreatite aguda exige dois de três: dor típica, enzima acima de 3× o limite, ou imagem característica.
- Consequência direta: uma lipase a 1,5× o normal não é pancreatite. É um número a explicar, não um diagnóstico.
- A lipase é a preferida das diretrizes, por subir antes e ficar alta por mais tempo. Mas a revisão Cochrane escreve "similar" e diz que não conseguiu compará-las formalmente, e a diretriz ibero-latino-americana de 2026 chama a lipase de marcador "teoricamente" mais específico. Publicamos as leituras lado a lado.
- Pedir as duas juntas é o hábito mais comum e o menos justificado. Nenhuma fonte que localizamos mostra ganho em somá-las na suspeita de pancreatite aguda.
- Cerca de um quarto das pancreatites agudas passa despercebido por esses exames, e cerca de 1 em 10 pessoas sem pancreatite é rotulada erradamente por eles.
- Muita coisa eleva essas enzimas sem pancreatite: doença renal, colecistite, obstrução intestinal, apendicite — e, só para a amilase, a glândula salivar e a macroamilasemia.
- A insuficiência pancreática exócrina não se investiga por sangue: o exame é a elastase fecal, ampliada no SUS por portaria de maio de 2025 e cobrada a R$ 124,00.
- O pâncreas endócrino é outro assunto: glicemia, insulina e peptídeo C medem as ilhotas, não os ácinos.
- No SUS, lipase e amilase custam exatamente o mesmo: R$ 2,25 cada. E não existe painel pancreático na tabela.
As duas enzimas, e o que cada uma realmente é
O pâncreas tem duas funções que quase não se falam. A exócrina fabrica enzimas digestivas e as despeja no intestino; a endócrina fabrica hormônios e os despeja no sangue. A lipase e a amilase são da primeira: quando aparecem no sangue, é porque vazaram.
A diferença entre as duas está na origem. A lipase é praticamente só pancreática. O próprio Ministério da Saúde escreve, na descrição oficial do procedimento, que "a lipase é uma enzima produzida majoritariamente no pâncreas e é um marcador primordial de doença pancreática".1
A amilase, não. A diretriz ibero-latino-americana resume: "a amilase tem isoformas pancreática e salivar, mas também é secretada por outros órgãos (ovário, intestino), de modo que elevações podem ocorrer em doenças não pancreáticas".2 A descrição oficial brasileira diz o mesmo: a amilase é "predominantemente de origem pancrática e glândula salivar", e a sua dosagem "está indicada no diagnóstico diferencial do quadro de abdome agudo, especialmente na pancreatite aguda e nos casos de parotidite".1 (O "pancrática" é uma falta de digitação do documento oficial, reproduzida aqui como está.)
Guarde essa frase: a própria tabela do SUS diz que a amilase serve para duas coisas — o pâncreas e a glândula salivar. É a raiz dos falsos alarmes.
O critério que decide: dois de três
Este é o fato mais útil desta página. A diretriz ibero-latino-americana de pancreatite aguda (iLATAM-AP), publicada em 2026 por cinco sociedades científicas da Península Ibérica e da América Latina, enuncia o critério com recomendação formal:
"O diagnóstico de pancreatite aguda exige pelo menos dois dos três critérios seguintes: (i) dor abdominal compatível com pancreatite (epigástrica, em faixa, irradiada para as costas), (ii) atividade sérica de amilase e/ou lipase acima de 3 vezes o limite superior do valor normal, ou (iii) achados característicos de imagem."2
A mesma diretriz registra que esses critérios "foram reafirmados na Classificação de Atlanta revista de 2012" — o consenso internacional construído por consulta em rede entre onze sociedades de pancreatologia, que é a origem da regra.23
Três consequências práticas.
Primeira: o corte não é "acima do normal", é acima de três vezes o normal. Se o limite impresso no seu laudo é 60 U/L, o que conta é 180 U/L. Um valor de 90 U/L está alterado — mas não preenche o critério bioquímico.
Segunda: a enzima sozinha nunca fecha o diagnóstico. São necessários dois critérios. Uma lipase a 10× o normal em alguém sem dor abdominal não é pancreatite: é um achado a investigar.
Terceira: o critério aceita as duas enzimas. O texto diz "amilase e/ou lipase". A norma não escolheu entre elas — foram as diretrizes práticas que escolheram, e por motivos que convém examinar.
Lipase ou amilase: o que as fontes realmente dizem
Aqui as fontes divergem, e a divergência merece ser publicada inteira em vez de arbitrada.
A leitura mais entusiasmada. As diretrizes da WSES escrevem que "no conjunto, a lipase sérica é considerada um marcador diagnóstico mais confiável da pancreatite aguda do que a amilase sérica", e que "a maioria das diretrizes e recomendações atuais indica que a lipase deve ser preferida à amilase total e pancreática" — por maior sensibilidade e uma janela diagnóstica mais larga.4
A leitura mais contida, e mais recente. A diretriz ibero-latino-americana de 2026 é bem mais cautelosa na mesma página: os níveis de lipase "sobem predominantemente na pancreatite aguda, o que faz dela um marcador teoricamente mais específico, mas todos os métodos em soro e urina mostram sensibilidade (~70%) e especificidade (~90%) comparáveis no contexto clínico adequado".2 Repare no advérbio: teoricamente.
A leitura da revisão sistemática. A revisão Cochrane de 2017 juntou 10 estudos e 5 056 participantes atendidos em pronto-socorro por dor abdominal. No corte de 3× o limite, ela encontrou:
| Exame | Sensibilidade | Especificidade |
|---|---|---|
| Amilase sérica (> 3×) | 0,72 (IC 95% 0,59–0,82) | 0,93 (IC 95% 0,66–0,99) |
| Lipase sérica (> 3×) | 0,79 (IC 95% 0,54–0,92) | 0,89 (IC 95% 0,46–0,99) |
| Tripsinogênio-2 urinário (> 50 ng/mL) | 0,72 (IC 95% 0,56–0,84) | 0,90 (IC 95% 0,85–0,93) |
E escreve, textualmente, que os três testes "parecem ter sensibilidades similares" e especificidades similares — acrescentando: "não conseguimos comparar esses testes formalmente por escassez de dados".5 O risco de viés foi julgado incerto ou alto em todos os estudos incluídos, e o estudo que sozinho trazia dois terços dos participantes foi excluído da análise.
As três leituras não se contradizem tanto quanto parecem. A Cochrane e a iLATAM falam de acurácia; a WSES defende a lipase pela janela de tempo, que é outra coisa. O que não se pode dizer é que uma revisão sistemática demonstrou a superioridade da lipase: ela declarou não ter feito essa comparação.
A janela de tempo, que é o verdadeiro argumento
A lipase e a amilase são liberadas ao mesmo tempo, mas o corpo as elimina em ritmos diferentes.2
| Começa a subir | Pico | Permanece elevada | |
|---|---|---|---|
| Amilase | ~6 h | 48 h | 5 a 7 dias |
| Lipase | ~4 h | 24 h | 8 a 14 dias |
(As diretrizes da WSES dão a mesma cinética com uma diferença: 3 a 7 dias para a amilase, em vez de 5 a 7.4 Publicamos as duas.)
Quem chega ao pronto-socorro muito cedo — nas primeiras horas de dor — tem mais chance de já ter a lipase alta. E quem chega tarde, quatro ou cinco dias depois do início, pode ter uma amilase já normalizada e uma lipase ainda alta. É por isso que a Cochrane fecha com um aviso importante: o desempenho desses exames piora com a passagem do tempo.5 O guia da lipase detalha como ler o seu número contra o limite do seu laudo.
Pedir as duas juntas: o que se ganha
Na prática brasileira, muitos pedidos trazem "amilase e lipase" na mesma linha. Procuramos uma fonte que demonstrasse ganho nessa soma e não encontramos nenhuma. A revisão Cochrane tinha entre os seus objetivos declarados avaliar os testes "isoladamente ou em combinação" — e não publicou nenhum resultado de combinação, por falta de estudos.5 Todas as fontes que lemos escrevem "lipase ou amilase".
Do lado oposto há evidência de que a amilase é dispensável. Um programa hospitalar norte-americano de 2019, com o título "Lipase Only, Please", abre assim: "a dosagem de amilase sérica não é recomendada na investigação da pancreatite aguda; ainda assim, ela é comumente pedida". Tirando a amilase dos conjuntos de pedido eletrônico, os pedidos caíram de 3 214 para 2 348 por mês no hospital universitário e de 100 para 23 no comunitário.6 (Fonte internacional: não localizamos programa brasileiro equivalente.)
E o Estado brasileiro registra um detalhe revelador: nas três listas de exames que o Ministério da Saúde define — as avaliações para entrada em fila de transplante de fígado, de pâncreas e de rim — consta "dosagem de amilase", nas três. A lipase não aparece em nenhuma; nas 4 324 descrições oficiais ela aparece em uma única, a do seu próprio procedimento.1 É a nomenclatura antiga sobrevivendo no papel.
Quando a enzima sobe sem pancreatite
Esta é a lista que falta na maioria dos laudos. A WSES é explícita: a lipase "pode ser encontrada elevada também em doenças não pancreáticas, como doença renal, apendicite, colecistite aguda, pancreatite crônica e obstrução intestinal".4
O rim é o caso mais frequente. As duas enzimas são depuradas pelos rins; quando a filtração cai, elas se acumulam, e uma pessoa em diálise pode ter valores muito altos com um pâncreas normal na tomografia. Se o seu laudo traz enzimas altas, olhe a creatinina e a ureia na mesma folha — veja a função renal.
A macroamilasemia é o falso alarme mais elegante. Parte da amilase se liga a uma imunoglobulina e forma um complexo grande demais para o rim filtrar; a enzima se acumula e o resultado sai alto numa pessoa sadia. O teste de confirmação é a precipitação com polietilenoglicol (PEG): numa série de 13 casos, a atividade precipitada foi de 89,1% nas amostras suspeitas contra 30,7% nos controles, e a cromatografia em gel identificou complexos de IgA e de IgG.7 A regra dos autores cabe numa linha: suspeitar de macroenzima sempre que o valor medido não combinar com a história clínica.
É o mesmo mecanismo da macroprolactina, que o nosso guia de prolactina detalha. Com uma diferença: o SUS paga a pesquisa de macroprolactina (0202060470, R$ 12,15) e não tem código equivalente para a amilase — varrendo os 5 023 procedimentos, "macroamilase" e "macroenzima" rendem zero linhas, enquanto "macro" rende cinco, entre as quais a própria macroprolactina.8 A técnica está financiada no Brasil, só não para esta enzima. O diagnóstico está detalhado no guia da amilase.
A fração salivar é o ponto cego da amilase. Parotidite, cirurgia de cabeça e pescoço, alcoolismo, vômito repetido: tudo isso eleva a amilase salivar sem tocar no pâncreas — e o exame de rotina soma as duas isoformas, sem dizer qual subiu. Um laboratório pode separá-las por eletroforese; o SUS não paga por isso. "Isoenzimas" aparece uma vez na tabela, para a desidrogenase lática; "salivar" aparece sete vezes, sempre em biópsia, cintilografia ou cirurgia, nunca numa dosagem.8
O pâncreas endócrino é outro assunto
Um resultado de lipase ou amilase não diz nada sobre o seu açúcar no sangue, e vice-versa. As ilhotas de Langerhans — que o Ministério da Saúde descreve como o sítio de síntese da insulina1 — são um tecido diferente dos ácinos que fabricam as enzimas. Para o pâncreas endócrino, os exames são a glicemia, a hemoglobina glicada, a insulina e o peptídeo C — cada um no seu guia.
Os dois mundos se encontram quando a doença destrói tecido suficiente. É por isso que a diretriz ibero-latino-americana recomenda avaliar as duas funções depois de uma pancreatite grave: a exócrina pela elastase fecal, a endócrina pela glicemia de jejum, HbA1c e/ou peptídeo C.2
Quando o pâncreas produz de menos: a elastase fecal
Há uma pergunta que a lipase e a amilase do sangue não respondem: o pâncreas está produzindo enzimas suficientes para digerir a comida? Isso é a insuficiência pancreática exócrina (IPE), e ela se procura nas fezes.
O exame é a elastase-1 fecal, e no Brasil ele tem uma data. A Portaria SECTICS/MS nº 25, de 12 de maio de 2025, "torna pública a decisão de incorporar, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS, o teste da elastase-1 fecal para diagnóstico de insuficiência pancreática exócrina" — e o relatório da Conitec registra que se trata de uma ampliação do uso, não de uma estreia.9 A diretriz ibero-latino-americana o indica para triagem da IPE, recomendando avaliar a função pancreática após pancreatite necrosante, etiologia alcoólica, formas recorrentes ou necrosectomia.2 Uma metanálise de 2025 (13 estudos, 888 pacientes) mediu o desempenho contra o padrão-ouro: no corte de 200 µg/g, sensibilidade 0,94 e especificidade 0,69; a 100 µg/g, especificidade 0,82 e sensibilidade 0,88.10
Mas a tabela do SUS ainda não sabe disso. O procedimento existe — 0202040186 – TESTE DE ELASTASE PANCREÁTICA FECAL, R$ 124,00 —, e a sua descrição oficial continua estreitando a porta: o teste serviria à avaliação da função exócrina "em pacientes com fibrose cística".18 O texto de intenção ficou para trás da norma que o ampliou: o preço foi atualizado, a indicação não.
A gastroenterologia brasileira pediu essa mudança. Em junho de 2024, numa nota assinada pelos presidentes da Federação Brasileira de Gastroenterologia e da Sociedade Brasileira de Pâncreas, a FBG apoiou a consulta pública da Conitec observando que os protocolos então vigentes "datam de 2017, estando portanto defasados; e não incorporam no SUS tecnologias mais recentes e eficientes, como a pesquisa da Elastase Fecal e Ecoendoscopia".11
O contraste com o tratamento é instrutivo. A pancreatina — a reposição das enzimas, a R$ 0,98 e R$ 1,93 por cápsula — está ligada na tabela a cinco CID: as duas formas de fibrose cística, a pancreatite crônica induzida por álcool, as outras pancreatites crônicas e a esteatorreia pancreática.12 O remédio nunca esteve preso à fibrose cística; a descrição do exame ainda está.
Quanto custa no SUS
Na tabela SIGTAP de agosto de 2026, com 5 023 procedimentos:8
| Exame | Código | Valor |
|---|---|---|
| Dosagem de amilase | 0202010180 | R$ 2,25 |
| Dosagem de lipase | 0202010554 | R$ 2,25 |
| Teste de elastase pancreática fecal | 0202040186 | R$ 124,00 |
| Dosagem de gordura fecal | 0202040020 | R$ 3,04 |
| Ultrassonografia de abdômen superior | 0205020038 | R$ 24,20 |
| Tomografia computadorizada de abdômen superior | 0206030010 | R$ 138,63 |
Três leituras. Primeiro: lipase e amilase custam exatamente o mesmo. Não há uma barata e uma cara; um pedido com as duas custa ao SUS R$ 4,50 em vez de R$ 2,25.
Segundo: não existe painel pancreático. Varremos as 5 023 linhas: "pancreatite" não aparece em nenhum nome de procedimento, e "painel" aparece duas vezes — painel de hemácias e reatividade contra painel em transplante —, nunca num agrupamento bioquímico.8 É o mesmo padrão já observado no hepatograma e no lipidograma: o conjunto existe na prática, não na tabela.
Terceiro: a elastase é financiada por outra porta. Ela custa 55 vezes uma lipase, tem quantidade máxima de execução 1 (contra 9 999 das dosagens comuns), e o seu financiamento não sai do bloco de Média e Alta Complexidade que paga a lipase e a amilase: sai do Fundo de Ações Estratégicas e Compensações (FAEC), na rubrica 040085 — "Exames coprológicos".13 Veja também quanto custa um exame de sangue.
Perguntas frequentes
Minha lipase está pouco acima do normal. É pancreatite? Provavelmente não. O critério exige três vezes o limite superior, e mesmo assim junto de outro critério — dor típica ou imagem.2 Um valor entre 1× e 3× pede explicação (rim, medicamento, doença biliar), não pânico.
O médico pediu amilase e lipase. Preciso das duas? As diretrizes preferem a lipase, e não localizamos nenhuma fonte que mostre ganho em somá-las na pancreatite aguda.56 Isso dito, quem decide o que pedir é quem examina você — leve a pergunta à consulta em vez de recusar um exame.
Enzimas normais excluem pancreatite? Não. A conclusão da Cochrane é dura nesse ponto: cerca de um quarto das pessoas com pancreatite aguda não é diagnosticada por esses testes, e o limiar para internar e tratar deve ser baixo quando os sintomas sugerem a doença, mesmo com exames normais.5
Uma amostra hemolisada atrapalha esses exames? Atrapalha, e de forma desigual. Na tabela de interferências da SBPC/ML, a amilase já sofre interferência a partir de 500 mg/dL de hemoglobina livre e 1 500 mg/dL de triglicérides; a lipase, só a partir de 1 000 e 2 000.14 É um terceiro argumento a favor da lipase, e raramente citado: ela aguenta melhor um tubo ruim.
Minha amilase vive alta e eu não sinto nada. O que pode ser? Duas hipóteses clássicas: origem salivar ou macroamilasemia. A confirmação da segunda é a precipitação com PEG, e ela não é doença — é um achado laboratorial benigno.7 Vale checar também a função renal.
Enzimas altas junto com TGO, TGP e bilirrubina alteradas — o que isso quer dizer? Que a via biliar entrou na conversa — e, na nossa região, essa é a hipótese número um. Globalmente os cálculos respondem por 42% das pancreatites agudas e o álcool por 21%; na América Latina a etiologia biliar chega a 50% a 83% dos casos.2 A mesma diretriz aponta um sinal laboratorial — ALT acima de 3 vezes o limite (≥ 150 U/L), em mulher com mais de 58 anos, sugere origem biliar — e manda avaliar a causa com perfil hepático, triglicérides e cálcio.2 Veja TGP, TGO, bilirrubina e a gama-glutamil transferase.
O que levar deste guia
Três coisas. O corte é 3× o limite, e ele é metade de um critério de dois em três — a enzima nunca decide sozinha, e um valor a 1,5× do normal não é uma pancreatite. A lipase é a preferida pela janela de tempo, não por acurácia — quem afirmar mais do que isso está esticando a fonte. E muita coisa que não é o pâncreas eleva essas enzimas: o rim em primeiro lugar, a glândula salivar e a macroamilasemia logo atrás. Se a pergunta é má digestão em vez de dor aguda, o exame não é o sangue: é a elastase fecal.
Para conferir o vocabulário do laudo, veja o glossário de exames de sangue; para as unidades, o conversor de unidades. E para uma leitura do conjunto dos seus resultados, o AI DiagMe é um complemento à avaliação do seu médico — nunca um substituto.
Fontes
Fontes institucionais brasileiras e publicações científicas (PubMed) utilizadas neste guia:
Footnotes
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Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP, tabela
tb_descricao, competência 08/2026 (4 324 descrições), que carrega o texto de intenção do Ministério para cada procedimento. Descrições consultadas na íntegra: lipase0202010554("marcador primordial de doença pancreática"), amilase0202010180(origem "pancrática e glândula salivar" — grafia do original; indicação em abdome agudo e parotidite), elastase pancreática fecal0202040186(indicação restrita a "pacientes com fibrose cística"), tripsina nas fezes0202040160, insulina0202060268e peptídeo C0202060284, e os três conjuntos de exames para inclusão em lista de transplante — fígado0501070052, pâncreas0501070125e rim0501070133—, que citam "dosagem de amilase" nos três e a lipase em nenhum. Contagem verificada: "lipase" aparece em 1 das 4 324 descrições, "amilase" em 4. Página oficial (DATASUS) ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 -
Cárdenas-Jaén K, Guilabert L, Martínez-Moneo E, Mancilla C, Bispo M, Moutinho-Ribeiro P, Mansilla R, Rei A, et al.; AEG, AESPANC, OPGE, SIED e SPG — AEG-AESPANC-OPGE-SIED-SPG Ibero-Latin American Guidelines on Acute Pancreatitis (iLATAM-AP). United European Gastroenterology Journal, 2026; 14(5): e70190. Primeira diretriz de prática clínica ibero-latino-americana sobre pancreatite aguda, com 45 autores, vinte recomendações formuladas pelo sistema GRADE e protocolo registrado no PROSPERO (CRD42022345788). Trata-se de uma diretriz regional, não exclusivamente brasileira: citamo-la como a fonte mais próxima do nosso contexto na ausência de diretriz brasileira específica sobre o diagnóstico bioquímico da pancreatite aguda. Texto integral lido. Seções consultadas: Q2 (critério de dois entre três, com amilase e/ou lipase acima de 3 vezes o limite superior; reafirmação da Classificação de Atlanta revista de 2012; isoformas pancreática e salivar da amilase e secreção por ovário e intestino; cinética das duas enzimas; "todos os métodos em soro e urina mostram sensibilidade (~70%) e especificidade (~90%) comparáveis no contexto clínico adequado"); Q3 (etiologias globais — cálculos 42%, IC 95% 39–44; álcool 21%, IC 95% 17–25; idiopática 18%, IC 95% 15–22 — e etiologia biliar em 50% a 83% dos casos na América Latina; ALT acima de 3 vezes o limite, ou ≥ 150 U/L, associada a sexo feminino e idade > 58 anos, sugerindo origem biliar; avaliação inicial com perfil hepático, triglicérides e cálcio); Q20 (avaliação da função pancreática após pancreatite aguda: elastase fecal para triagem da insuficiência exócrina, e glicemia de jejum, HbA1c e/ou peptídeo C para a função endócrina). PubMed · DOI ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10
-
Banks PA, Bollen TL, Dervenis C, Gooszen HG, Johnson CD, Sarr MG, Tsiotos GG, Vege SS. Classification of acute pancreatitis — 2012: revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut, 2013; 62(1): 102-111. Consenso internacional construído por consulta em rede junto a onze sociedades nacionais e internacionais de pancreatologia, com três rodadas de revisão; define as duas fases da doença e as três categorias de gravidade (leve, moderadamente grave, grave). Consultado pelo resumo no PubMed; a formulação literal dos critérios diagnósticos foi lida no texto integral das diretrizes da WSES, que a reproduz. PubMed · DOI ↩
-
Leppäniemi A, Tolonen M, Tarasconi A, Segovia-Lohse H, Gamberini E, Kirkpatrick AW, Ball CG, Parry N, et al. 2019 WSES guidelines for the management of severe acute pancreatitis. World Journal of Emergency Surgery, 2019; 14: 27. Fonte internacional, citada por não termos localizado diretriz brasileira equivalente sobre o diagnóstico bioquímico da pancreatite aguda. Texto integral lido. Seções consultadas: critérios diagnósticos (dois de três; amilase e/ou lipase acima de três vezes o limite superior do normal); "Statements (diagnostic laboratory parameters)"; cinética comparada das duas enzimas (amilase sobe em 6 a 24 h, pico em 48 h, normaliza em 3 a 7 dias; lipase sobe em 4 a 8 h, pico em 24 h, normaliza em 8 a 14 dias); isoformas pancreática e salivar da amilase; causas não pancreáticas de elevação da lipase; leitura da revisão Cochrane. PubMed · DOI ↩ ↩2 ↩3
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Rompianesi G, Hann A, Komolafe O, Pereira SP, Davidson BR, Gurusamy KS. Serum amylase and lipase and urinary trypsinogen and amylase for diagnosis of acute pancreatitis. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2017; 4(4): CD012010. Dez estudos, 5 056 participantes atendidos em pronto-socorro por dor abdominal aguda; risco de viés incerto ou alto em todos; o estudo que contribuía com cerca de dois terços dos participantes foi excluído da análise. Prevalência mediana de pancreatite aguda de 22,6%. Citação literal do texto: os testes "appear to have similar sensitivities … and specificities" e "we were not able to compare these tests formally because of sparse data". Objetivo declarado incluía avaliar os testes "either alone or in combination"; nenhum resultado de combinação foi publicado. PubMed · DOI ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5
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Holzer H, Reisman A, Marqueen KE, Thomas AT, Yang A, Dunn AS, Jia R, Poeran J, Cho HJ. "Lipase Only, Please": reducing unnecessary amylase testing. The Joint Commission Journal on Quality and Patient Safety, 2019; 45(11): 742-749. Iniciativa de melhoria de qualidade em dois hospitais de Nova York (1 134 e 235 leitos), com desenho pré-pós entre janeiro de 2016 e maio de 2018. Pedidos mensais de amilase caíram de 3 214 para 2 348 no hospital acadêmico (p = 0,011) e de 100 para 23 no hospital comunitário (p = 0,001); redução líquida de custo estimada em US$ 44 999 por ano. Fonte internacional, citada por não existir programa brasileiro publicado equivalente. PubMed · DOI ↩ ↩2
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Čásenská J, Franeková J, Mačinga P, Jabor A. Significant elevations of serum amylase caused by macroamylase: case reports and detection possibilities. Journal of Clinical Laboratory Analysis, 2023; 37(5): e24859. Treze casos de hiperamilasemia em adultos sem sintomas de doença pancreática; cinco investigados com métodos distintos. A atividade precipitada por polietilenoglicol foi de 89,1% em média nas amostras suspeitas contra 30,7% nos controles; a cromatografia de filtração em gel confirmou macroamilase de IgA em três amostras e de IgG em duas; a conservação a 4 °C não funcionou como método de triagem. Conclusão dos autores: suspeitar de macroenzima sempre que a história clínica não corresponder ao valor medido, para evitar exames invasivos desnecessários. PubMed · DOI ↩ ↩2
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Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP: Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS, competência 08/2026 (tabela
tb_procedimento, 1 697 774 bytes, 5 023 procedimentos). Códigos e valores lidos por decodificação latin-1 em colunas de posição fixa (VL_SH/VL_SA/VL_SP), parser validado contra dois valores já publicados (hemograma completo0202020380= R$ 4,11; ferritina0202010384= R$ 15,59). Registros usados: amilase0202010180(R$ 2,25), lipase0202010554(R$ 2,25), elastase pancreática fecal0202040186(R$ 124,00, execução máxima 1, financiamento 04, rubrica 040085), gordura fecal0202040020(R$ 3,04) e0202040070(R$ 1,65), tripsina nas fezes0202040160(R$ 1,65), pancreatina0604580010(R$ 0,98) e0604580029(R$ 1,93), pesquisa de macroprolactina0202060470(R$ 12,15), ultrassonografia de abdômen superior0205020038(R$ 24,20), tomografia de abdômen superior0206030010(R$ 138,63). Ausências verificadas por varredura completa das 5 023 linhas, com repli de acentos ativo (2 483 linhas com acento combinante) e controles positivos: "pancreatite" = 0 ocorrência; "painel" = 2 (painel de hemácias; reatividade contra painel), nenhum painel bioquímico; "macroamilase"/"macroenzima" = 0, contra "macro" = 5 incluindo a macroprolactina; "isoamilase" = 0 e "isoenzimas" = 1 (desidrogenase lática); "salivar" = 7, todas em biópsia, cintilografia ou cirurgia, nenhuma dosagem. Página oficial (DATASUS) ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 -
Ministério da Saúde (SECTICS/MS) e Conitec — Relatório para a Sociedade nº 508: Teste da elastase-1 fecal para diagnóstico de insuficiência pancreática exócrina, com decisão final, fevereiro de 2025. Elaborado pelo Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde (DGITS) e pela Coordenação de Incorporação de Tecnologias (CITEC). Citações literais: recomendação final — "o Comitê de Medicamentos da Conitec recomendou a incorporação da ampliação do uso da elastase-1 fecal para diagnóstico de IPE"; decisão final — "PORTARIA SECTICS/MS Nº 25, DE 12 DE MAIO DE 2025: Torna pública a decisão de incorporar, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS, o teste da elastase-1 fecal para diagnóstico de insuficiência pancreática exócrina". O relatório registra ainda a indicação aprovada pela Anvisa em 02/01/2024 para o kit IDK® Pancreatic Elastase ELISA, que abrange diarreia inexplicada, esteatorreia, flatulência, perda de peso e dor abdominal alta, além do acompanhamento da função exócrina na fibrose cística, no diabetes mellitus e na pancreatite crônica. PDF baixado e lido (200
application/pdf, 772 140 bytes, 11 849 caracteres extraídos; controle negativo com identificador inventado no mesmo caminho: 404text/html). PDF (gov.br/conitec) ↩ -
de la Iglesia D, Agudo-Castillo B, Galego-Fernández M, Rama-Fernández A, Domínguez-Muñoz JE. Diagnostic accuracy of fecal elastase-1 test for pancreatic exocrine insufficiency: a systematic review and meta-analysis. United European Gastroenterology Journal, 2025; 13(8): 1571-1582. Treze estudos, 888 pacientes, com o coeficiente de absorção de gordura ou a excreção fecal de gordura em 72 h como padrão de referência. Corte de 200 µg/g: sensibilidade agrupada de 0,94 e especificidade de 0,69 (razão de chances diagnóstica 35,27). Corte de 100 µg/g: especificidade de 0,82 e sensibilidade de 0,88. Em subgrupos, sensibilidade de 0,98 na fibrose cística e especificidade de 0,81 na pancreatite crônica. PubMed · DOI ↩
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Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) — Pessoa S (presidente da FBG) e Galvão Alves J (presidente da Sociedade Brasileira de Pâncreas). Nota de apoio à chamada pública (Pancreatina/Elastase Fecal) da CONITEC, 14 de junho de 2024. Nota institucional apoiando as chamadas públicas nº 41/2024 (pancreatina) e nº 44/2024 (elastase fecal); afirma que "os protocolos atualmente aprovados datam de 2017, estando portanto defasados; e não incorporam no SUS tecnologias mais recentes e eficientes, como a pesquisa da Elastase Fecal e Ecoendoscopia; além de limitar o escopo das indicações para liberação de enzimas para tratamento da Insuficiência Exócrina do Pâncreas". ⚠️ Divergência de data a registrar: a nota escreve "2017", enquanto o processo da Conitec identifica a norma anterior como a Portaria SAS/MS nº 112, de 4 de fevereiro de 2016. Página baixada e lida (200
text/html, 95 599 bytes, 4 930 caracteres de texto; controle negativo com slug inventado no mesmo caminho: 404, 70 459 bytes). fbg.org.br ↩ -
Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP, tabela de relação
rl_procedimento_cid, competência 08/2026 (82 103 vínculos, cobrindo 2 914 dos 5 023 procedimentos). A pancreatina 10 000 UI (0604580010) e 25 000 UI (0604580029) estão vinculadas a cinco CID-10: E84.1 (fibrose cística com manifestações intestinais), E84.8 (fibrose cística com outras manifestações), K86.0 (pancreatite crônica induzida por álcool), K86.1 (outras pancreatites crônicas) e K90.3 (esteatorreia pancreática). Verificado no mesmo arquivo que o teste de elastase fecal, a lipase e a amilase não têm nenhum vínculo de CID — o que, com 2 914 procedimentos vinculados como controle positivo, é uma ausência medida e não um erro de leitura. Página oficial (DATASUS) ↩ -
Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP, tabelas auxiliares
tb_financiamento(7 blocos) etb_rubrica(43 rubricas), competência 08/2026. O campoCO_FINANCIAMENTOda dosagem de lipase e da dosagem de amilase vale 06 — "Média e Alta Complexidade (MAC)", sem rubrica; o do teste de elastase pancreática fecal vale 04 — "Fundo de Ações Estratégicas e Compensações (FAEC)", com a rubrica 040085 — "Exames coprológicos". O campoQT_MAXIMA_EXECUCAOvale 9 999 para lipase e amilase e 1 para a elastase fecal. Página oficial (DATASUS) ↩ -
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — Recomendações da SBPC/ML: Boas práticas em laboratório clínico. Barueri: Manole. PDF baixado e extraído integralmente para conferência (200
application/pdf, 16 055 655 bytes; 1 404 206 bytes e 23 533 linhas de texto extraído; controle negativo no mesmo caminho: 404, 196 bytes). Seção consultada: "TABELA 1 — Concentrações de hemoglobina, triglicérides e bilirrubinas que interferem na medição de analitos", página impressa 194, de onde vêm os limiares de interferência da amilase (hemólise ≥ 500 mg/dL de hemoglobina, lipemia ≥ 1 500 mg/dL de triglicérides, icterícia ≥ 60 mg/dL de bilirrubinas) e da lipase (≥ 1 000, ≥ 2 000 e ≥ 50, respectivamente). Ausências verificadas no texto integral, com os hífens condicionais removidos e as raízes curtas testadas contra as completas: "elastase" = 0 ocorrências, "pancreatite" = 2, e nenhum capítulo sobre pancreatite, nenhuma instrução de jejum específica para amilase ou lipase e nenhum intervalo de referência para as duas. PDF ↩