Índice

Exames da tireoide: TSH, T4 livre e anticorpos

O que cada exame da tireoide mede, em que ordem ler o laudo, o que o teste do pezinho já rastreou em você e quanto o SUS paga por cada dosagem.

Atualizado em 9 de setembro de 202616 min de leituraEscrito pela Equipe Blood Analysis · Revisado e verificado por Julien Priour

Os exames da tireoide são o conjunto de dosagens de sangue que avalia a glândula em forma de borboleta que fica no seu pescoço. No pedido médico eles aparecem como perfil tireoidiano, função tireoidiana ou, mais frequentemente, como uma lista solta: TSH, T4 livre, às vezes T3 e anticorpos. Este guia explica o que cada linha do laudo significa, em que ordem ela deve ser lida e quais números as fontes brasileiras realmente usam.

Em resumo

  • O exame que abre tudo é o TSH. Para a SBPC/ML, em pacientes ambulatoriais ele é o melhor teste isolado de função tireoidiana — e, se vier normal, nenhum teste adicional é necessário.
  • O segundo é o T4 livre, pedido para separar a forma subclínica da clínica. Há divergência: parte dos especialistas prefere pedir os dois juntos já na primeira avaliação.
  • O T3 não é exame de primeira linha no Brasil. A SBEM escreve que, na maioria das circunstâncias, dosar T3 não é recomendado; a SBPC/ML lhe reserva um uso preciso, a T3-toxicose.
  • Você já fez um exame de tireoide e provavelmente não lembra: o teste do pezinho rastreia hipotireoidismo congênito em todo recém-nascido brasileiro, por força da Lei nº 14.154/2021. O corte do TSH em papel-filtro é 10 mUI/L.
  • A incidência brasileira do hipotireoidismo congênito é de 1 caso para cada 2.595 a 4.795 nascidos vivos. É a principal causa evitável de deficiência mental no mundo.
  • O sal iodado é política pública desde 1974. A faixa obrigatória hoje é de 15 a 45 mg de iodo por quilo — e o monitoramento da Anvisa mostrou que o sal rosa do Himalaia responde por 62,1% das amostras fora da norma.
  • Na gestação, o Brasil trocou de régua em outubro de 2022: o corte passou a ser TSH > 4,0 mUI/L, com rastreio universal onde há condições.
  • ⚠️ A biotina dos suplementos de cabelo e unha falseia esses exames: derruba o TSH e eleva o T4. A SBPC/ML manda suspender antes da coleta.
  • No SUS, cada dosagem tem código próprio: não existe procedimento chamado "perfil tireoidiano". TSH e T4 livre somam R$ 20,56.
  • Nenhum número isolado fecha diagnóstico. O laudo se lê inteiro, com os seus sintomas e o seu médico.

Quais exames formam o "perfil da tireoide"

A tireoide fabrica dois hormônios: a tiroxina (T4) e a tri-iodotironina (T3). Quem manda nela é a hipófise, através do TSH — o hormônio tireoestimulante. É um termostato invertido: quando a glândula produz de menos, o TSH sobe para cobrar produção. Por isso um TSH alto significa tireoide lenta, não acelerada.

A lista que costuma aparecer no seu laudo tem quatro famílias:

  • Hormônios de função: TSH, T4 livre, T4 total, T3 total ou livre.
  • Anticorpos: anti-TPO, antitireoglobulina e TRAb — e, no seguimento do câncer operado, a tireoglobulina.
  • Proteína da glândula: tireoglobulina, usada sobretudo no seguimento do câncer de tireoide.
  • Imagem: ultrassonografia e cintilografia — que não são exames de sangue.

O nome "perfil tireoidiano" é convenção de laboratório, não categoria oficial. A verificação é direta: consultando a Tabela de Procedimentos do SUS (SIGTAP) na competência de agosto de 2026, não existe nenhum procedimento chamado "perfil tireoidiano" — a busca pelo termo retorna um único item, e é uma cirurgia oncológica.1 O mesmo padrão já observado no hepatograma e no lipidograma: o painel existe na prática, não na tabela.

A ordem de leitura: por que o TSH vem primeiro

O motivo é matemático, e a SBPC/ML o explica no manual Boas práticas em laboratório clínico: existe uma relação inversa logarítmica-linear entre TSH e T4 livre. Pequenas flutuações do T4 livre provocam alterações proporcionalmente maiores do TSH. O TSH é um amplificador — ele sai da faixa normal muito antes de o T4 livre se mexer.2

Daí o algoritmo que o manual publica:2

  • TSH normal → nenhum teste adicional é necessário.
  • TSH alto → dosar o T4 livre: normal indica hipotireoidismo subclínico; baixo indica hipotireoidismo clínico.
  • TSH baixo → dosar o T4 livre: normal indica hipertireoidismo subclínico; alto indica hipertireoidismo clínico. Se o T4 livre vier normal, dosar então o T3 para detectar a T3-toxicose.

A divergência que ninguém arbitra

O próprio manual registra a objeção, na mesma página. Essa estratégia não exclui as doenças centrais — as da hipófise —, raras, nas quais o TSH pode estar normal com o T4 livre alterado. Por isso "diversos especialistas recomendam a dosagem conjunta de TSH e T4 livre na avaliação inicial".2 Duas condutas convivem no mesmo documento; ele não escolhe entre elas, e nós também não.

E o T3? Quase nunca na entrada

Aqui há uma orientação brasileira raramente dita ao paciente. No posicionamento do Departamento de Tireoide da SBEM sobre hipotireoidismo primário, a frase é explícita: "na maioria das circunstâncias, a dosagem do T3 total sérico não é recomendada".3 A SBPC/ML converge: o T3 aparece no algoritmo em um único ramo, o do TSH suprimido com T4 livre normal.2

Um T3 pedido de rotina, com TSH normal, raramente muda alguma coisa — e pode gerar susto por variações que não indicam doença.

Os anticorpos: três exames diferentes

Anticorpo não mede função. Mede autoimunidade. A tabela de autoanticorpos da SBPC/ML separa três exames que os pedidos costumam confundir:2

AnticorpoAssociação e sensibilidadeObservação
Anti-TPO (tireoperoxidase)Tireoidite de Hashimoto 90%; doença de Graves 80%Marcador diagnóstico e prognóstico
AntitireoglobulinaHashimoto 60 a 80%; Graves 25%Também ocorre em pessoas normais
TRAb (antirreceptor de TSH)Doença de Graves > 95%Correlaciona com a atividade da doença

A ordem importa. Para a SBEM, o anti-TPO é dosado depois que a disfunção foi confirmada, para investigar a origem autoimune — não antes, como triagem.3 O detalhe de por que um anti-TPO positivo não é diagnóstico de doença está em anti-TPO.

O exame de tireoide que todo brasileiro já fez

Este é o ponto em que a tireoide deixa de ser assunto de consultório e vira política de Estado — e quase ninguém associa as duas coisas.

O teste do pezinho rastreia hipotireoidismo congênito em todo recém-nascido brasileiro. Não é praxe: é lei. A Lei nº 14.154, de 26 de maio de 2021, alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para fixar o rol mínimo do Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), escalonado em cinco etapas — e o "hipotireoidismo congênito" é o item b da etapa 1, ao lado da fenilcetonúria, das hemoglobinopatias, da fibrose cística, da hiperplasia adrenal congênita, da deficiência de biotinidase e da toxoplasmose congênita.4

O Ministério da Saúde recomenda colher a primeira amostra entre 48 horas após o parto e o 5º dia de vida.5 O protocolo oficial explica o porquê dessas 48 horas: antes disso, o pico fisiológico de TSH do recém-nascido ainda não caiu, e a coleta precoce pode gerar falso positivo.6

Os números que o laboratório usa

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipotireoidismo Congênito, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 5, de 16 de abril de 2021 — que revogou a Portaria nº 1.161/2015 —, padroniza o corte do TSH em papel-filtro em 10 mUI/L:6

TSH no papel-filtroInterpretaçãoConduta
< 10 mUI/LResultado normalNenhuma
10 a 20 mUI/LLimítrofeConvocar para novo teste do pezinho
> 20 mUI/LSugestivo de hipotireoidismoConsulta urgente e dosagem em sangue venoso

A triagem não é diagnóstico. A confirmação vem de TSH e T4 dosados em sangue venoso; entre 4 e 30 dias de vida, o protocolo usa como referência TSH < 9 mUI/L, T4 livre de 0,8 a 2,3 ng/dL e T4 total de 7 a 16 µg/dL.6 O tratamento com levotiroxina deve começar nos primeiros 14 dias de vida, e o protocolo é categórico: apenas comprimidos, porque não existem soluções orais adequadas.6

Quantos casos, e o que mudou

A incidência mundial do hipotireoidismo congênito primário varia de 1:1.500 a 1:4.000 nascidos vivos. Os dados brasileiros apontam 1 caso para cada 2.595 a 4.795 nascimentos.6 O programa de Minas Gerais, operado pelo NUPAD/UFMG, publicou a série mais longa do país: 6.864.719 recém-nascidos triados entre 1994 e 2021, incidência de 1:3.298, sem tendência de variação ao longo dos 28 anos.7

O que mudou não foi a doença — foi a logística. Na mesma série, a idade mediana da coleta caiu de 11 para 5 dias, e a do início do tratamento despencou de 88 para 16 dias.7 Em Sergipe, um estudo de 165 crianças acompanhadas até os 3 anos encontrou o oposto na frequência: as incidências das formas permanente e transitória aumentaram no período estudado, e o melhor preditor de forma permanente foi o TSH sérico inicial, seguido do TSH do papel-filtro.8

Cerca de 85% dos casos vêm de disgenesia — a glândula não se formou direito — e 15% de dishormonogênese, um defeito na fabricação do hormônio.6

Iodo: uma política pública que mexe com a sua tireoide

Sem iodo não há hormônio tireoidiano. E no Brasil o iodo chega pelo sal, por obrigação legal.

A cadeia normativa está na própria página da Anvisa: a Lei nº 6.150, de 1974, tornou obrigatória a iodação do sal para consumo humano; a Portaria nº 2.362/2005 reestruturou o Pró-Iodo, o programa nacional de prevenção dos distúrbios por deficiência de iodo; e a norma em vigor sobre o teor é a Resolução RDC nº 604/2022.9 A faixa exigida é de 15 a 45 mg de iodo por quilo de sal — reduzida em 2013, pela RDC nº 23, da faixa anterior de 20 a 60 mg/kg, numa decisão tomada para acomodar o alto consumo de sal da população.1011

O que a fiscalização encontrou

Em 2019, a Anvisa analisou 742 amostras de sal coletadas em 17 estados. O teor variou de 0 a 116,5 mg/kg, com mediana de 24,4 mg/kg. Dentro da norma: 88,3% — o menor percentual desde 2010. Fora: 11,7%, sendo 9,0% abaixo de 15 mg/kg e 2,7% acima de 45 mg/kg.11

O achado mais útil para quem faz compras está na distribuição. Das 87 amostras irregulares, o sal rosa do Himalaia respondeu por 62,1% — 54 amostras. Olhando só esse produto: 33,3% das suas amostras tinham iodo abaixo do mínimo e 12,8% acima do máximo.11 O sal "gourmet" é, no Brasil, o campeão de irregularidade de iodação.

E a população, está bem de iodo?

O monitoramento populacional brasileiro se chama PNAISAL, e foi feito em duas rodadas — 2008-2009 e 2013-2014 — com 18.864 escolares de 6 a 14 anos. A concentração urinária mediana de iodo foi de 276,7 µg/L, o que indica suficiência, com uma parcela relevante em consumo excessivo.10

Em agosto de 2025, o Departamento de Tireoide da SBEM publicou um posicionamento sobre suplementação de iodo na gestação e foi franco quanto aos limites desse dado: os inquéritos cobriram escolares, não gestantes, e não há dado nacional publicado sobre o estado de iodo das grávidas brasileiras. A recomendação é o uso exclusivo de sal iodado regulamentado, com suplementação individualizada apenas para gestantes de risco — e a advertência de que a dosagem de iodo urinário não serve para avaliar uma pessoa, só populações.10

Vale lembrar a simetria: falta e excesso de iodo desregulam a tireoide. O posicionamento descreve uma relação em U entre iodo materno e desfechos.10

Gestação: a régua brasileira mudou em 2022

Se você leu em algum lugar que o limite do TSH na gravidez é 2,5 mUI/L no primeiro trimestre, esse número veio do consenso da SBEM de 2013 — e foi substituído.12

Em outubro de 2022, a Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da FEBRASGO, com referendo do Departamento de Tireoide da SBEM, publicou um posicionamento com duas mudanças de fundo:13

  • Rastreio universal: onde houver plenas condições técnicas e financeiras, dosar TSH em todas as gestantes, o mais cedo possível — idealmente no início do primeiro trimestre ou já no planejamento pré-gravídico. Antes, o rastreio era apenas de gestantes com fator de risco.
  • Um corte único: o diagnóstico de hipotireoidismo se faz a partir de TSH > 4,0 mUI/L, no lugar dos limites por trimestre.

A aritmética por trás do 4,0 está escrita no documento: o limite superior do primeiro trimestre é calculado subtraindo 0,5 mUI/L do limite de não gestantes, e como a maioria dos kits usa 4,5 mUI/L, o resultado fica "em torno de 4,0 mUI/L" na maior parte dos centros — estratégia confirmada, diz o texto, em estudo com gestantes do Rio de Janeiro.13

O documento ainda distingue faixas: TSH > 10 mUI/L caracteriza hipotireoidismo clínico; entre 4,0 e 10,0 pede-se T4 livre; e entre 2,5 e 4,0 dosa-se o anti-TPO quando há condições. O alvo de tratamento durante a gestação é TSH < 2,5 mUI/L.13

O que altera o resultado sem existir doença

Esta é a parte que mais evita repetição de exame e susto desnecessário.

Biotina. A vitamina B7 é vendida em megadoses de 3 a 10 mg para cabelo, pele e unha — contra uma ingestão recomendada de cerca de 300 µg. Ela integra o sistema biotina-estreptavidina usado em mais de 50% dos imunoensaios comerciais. O efeito é traiçoeiro porque tem direções opostas: nos ensaios competitivos (T4 e T3), o resultado sai falsamente alto; nos imunométricos (TSH), falsamente baixo.2 É exatamente o retrato laboratorial de uma tireoide hiperativa que não existe.

O manual da SBPC/ML se contradiz sobre o prazo, e as duas versões merecem ficar lado a lado: o capítulo sobre interferências manda suspender a vitamina 2 a 3 dias antes da coleta; o capítulo de avaliação hormonal fala em cerca de 48 horas.2 Uma medida brasileira dá a escala do problema: pesquisadores do Grupo Fleury, em São Paulo, publicaram que uma única dose oral de 10 mg de biotina já interfere nos testes de função tireoidiana.14

Medicamentos. A SBPC/ML enumera vários que alteram os exames em pessoas sem disfunção: amiodarona, heparina, fenitoína, fenobarbital, carbamazepina, oxcarbazepina, anti-inflamatórios não hormonais, glicocorticoides, dopamina, análogos da somatostatina e opioides.2

Macro-TSH. Um complexo entre o TSH e uma IgG que atinge 0,6 a 1,6% da população e produz TSH falsamente elevado, em geral acima de 10 mUI/L, com T4 e T3 livres normais.2

Doença aguda. Pacientes graves internados exibem alterações transitórias sem doença tireoidiana orgânica. A SBEM acrescenta um prazo prático: quem esteve doente ou internado há pouco e tem TSH levemente alto deve repetir em 6 a 8 semanas.3

Quanto custa no SUS — e o que falta na tabela

Na tabela SIGTAP, competência de agosto de 2026, cada dosagem tem código e valor próprios:1

ProcedimentoCódigo SIGTAPValor
Dosagem de hormônio tireoestimulante (TSH)02.02.06.025-0R$ 8,96
Dosagem de tiroxina livre (T4 livre)02.02.06.038-1R$ 11,60
Dosagem de tiroxina (T4)02.02.06.037-3R$ 8,76
Dosagem de tri-iodotironina (T3)02.02.06.039-0R$ 8,71
Dosagem de tireoglobulina02.02.06.036-5R$ 15,35
Pesquisa de anticorpos antitireoglobulina02.02.03.062-8R$ 17,16
Acompanhamento de paciente com hipotireoidismo congênito03.01.12.004-8R$ 27,50

A dupla de entrada — TSH mais T4 livre — soma R$ 20,56.

Uma ausência merece registro: não há código de painel — cada dosagem é cobrada em separado, como no lipidograma e no hepatograma.1

⚠️ E uma armadilha de nomenclatura que engana quem procura. Buscar "peroxidase", "TPO" ou "microssomal" na tabela do SUS não devolve nada — o que faz parecer que o anti-TPO não é coberto. Ele é: o procedimento se chama pesquisa de anticorpos antimicrossomas (02.02.03.055-5, R$ 17,16), o nome histórico do exame, já que a tireoperoxidase é o antígeno microssomal da tireoide. O anticorpo antitireoglobulina custa os mesmos R$ 17,16.1 Para comparar com o setor privado, veja quanto custa um exame de sangue.

👉 O AI DiagMe interpreta os seus exames — de sangue, urina ou fezes — considerando todo o seu contexto, em linguagem clara. Serviço informativo que não faz diagnóstico e complementa, sem substituir, a avaliação do seu médico.

Perguntas frequentes

Preciso estar em jejum para os exames da tireoide? Nenhuma fonte brasileira consultada exige jejum para TSH ou T4 livre. Quem faz a coleta junto com glicemia, lipidograma ou função renal segue as regras desses exames, não as da tireoide. Confirme sempre com o seu laboratório.

Posso comparar o T4 livre de dois laboratórios diferentes? Com cautela. A SBPC/ML registra que os ensaios comerciais ainda mostram diferenças consideráveis, principalmente no T4 livre, cujos resultados têm viés consistentemente negativo em relação ao método de referência — e que, para o TSH, ainda não existe método de referência estabelecido.2 Compare sempre com o intervalo impresso no seu próprio laudo. Se as unidades destoarem, use o conversor de unidades.

TSH alterado uma vez já é doença? Não. A SBEM recomenda repetir o TSH em até 3 meses para confirmar que a alteração persiste, medindo o T4 livre junto para separar a forma clínica da subclínica.3

O valor normal do TSH muda com a idade? Sim, ele sobe. O posicionamento da SBEM cita um estudo brasileiro com 1.200 pessoas de 20 a 80 anos em que o limite superior mediano foi de 4,3 mUI/L entre 20 e 59 anos, 5,8 mUI/L entre 60 e 79 e 6,7 mUI/L acima de 80.3 Tratar um idoso com a régua de um jovem é uma forma clássica de sobretratamento. Os detalhes estão em TSH.

Meu filho fez o pezinho e deu limítrofe. É hipotireoidismo? Provavelmente não, mas exige o segundo teste. Na faixa de 10 a 20 mUI/L, o protocolo brasileiro pede nova amostra — e, na maioria das vezes, o segundo resultado é normal.6 A triagem é feita para não deixar passar casos, e isso implica convocar mais crianças do que as que terão a doença.

Devo tomar suplemento de iodo por conta própria? As fontes brasileiras não recomendam isso. O posicionamento da SBEM prevê suplementação individualizada para gestantes de risco — dieta restritiva, doença gastrointestinal crônica, má absorção — e adverte contra o excesso de iodo, que também desregula a tireoide.10 Fora da gestação, a orientação nacional é o uso de sal iodado regulamentado.

O que levar do seu laudo

A tireoide se lê de cima para baixo: o TSH abre, o T4 livre qualifica, o anti-TPO explica a origem quando há disfunção, e o T3 só entra num ramo estreito. Guarde três reflexos brasileiros: o limite normal sobe com a idade; na gestação a régua é 4,0 mUI/L desde 2022; e a biotina do seu suplemento pode inventar uma doença que você não tem.

Nenhum número isolado decide nada — nem aqui, nem no hemograma completo, nem na hemoglobina glicada. Se algum termo do laudo não fizer sentido, comece pelo glossário de exames de sangue; para organizar o conjunto antes da consulta, a AI DiagMe ajuda a colocar os seus resultados em contexto.

Fontes

Footnotes

  1. Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP: Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS, competência 08/2026. Códigos e valores ambulatoriais lidos nas fichas dos procedimentos. Verificações por consulta na mesma sessão, com controle positivo e negativo: a busca por "tireoidiano" retorna um único procedimento (ressecção de tumor por via transesternal) e nenhum painel; a busca por "peroxidase" retorna zero procedimentos, enquanto "tireoglobulina" retorna dois na mesma consulta; um código inventado devolve a página "404 - Página não Encontrada" (1.155 bytes), contra 35.207 bytes de ficha para um código real. sigtap.datasus.gov.br ↩ ↩2 ↩3 ↩4

  2. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — Recomendações da SBPC/ML: boas práticas em laboratório clínico. Capítulo "Avaliação laboratorial da tireoide: atualização": algoritmo do TSH ("TSH normal: nenhum teste adicional é necessário"), relação inversa logarítmica-linear entre TSH e T4 livre, recomendação de "diversos especialistas" pela dosagem conjunta inicial, papel do T3 na T3-toxicose, ausência de método de referência para o TSH, viés negativo dos ensaios de T4 livre, macro-TSH em 0,6 a 1,6% da população, lista de drogas interferentes e mecanismo da biotina (mais de 50% dos imunoensaios; suspensão de 2 a 3 dias). Capítulo de avaliação hormonal: biotina em megadoses de 3 a 10 mg contra ingestão recomendada de ~300 mcg, suspensão "cerca de 48 horas" antes da coleta. Tabela "Autoanticorpos nas enfermidades autoimunes endócrinas": anti-TPO, antitireoglobulina e TRAb. ⚠️ Verificação feita no texto integral do PDF (16.055.655 bytes). PDF ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10

  3. da Silva Mazeto GMF, Sgarbi JA, Estrela Ramos H, Villagelin DGP Neto, Nogueira CR, Vaisman M, et al. — Departamento de Tireoide da SBEM. Approach to adult patients with primary hypothyroidism in some special situations: a position statement from the Thyroid Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Arch Endocrinol Metab. 2022;66(6):871-882. "In most circumstances, measurement of serum total triiodothyronine (T3) is not recommended"; repetição do TSH em até 3 meses com dosagem de T4 livre; anti-TPO dosado após a confirmação da disfunção; TSH levemente elevado após doença aguda a ser rechecado em 6-8 semanas; estudo brasileiro com 1.200 indivíduos de 20 a 80 anos com limites superiores medianos de TSH de 4,3, 5,8 e 6,7 mIU/L por faixa etária. DOI: 10.20945/2359-3997000000545 · PubMed 36394484 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5

  4. Brasil — Lei nº 14.154, de 26 de maio de 2021, que altera a Lei nº 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e estabelece o rol mínimo de doenças rastreadas pelo teste do pezinho no Programa Nacional de Triagem Neonatal. Verificação feita no texto integral: a etapa 1 (art. 1º, § 1º, I) traz o "hipotireoidismo congênito" na alínea b, entre fenilcetonúria e doença falciforme. Vigência após 365 dias da publicação. planalto.gov.br ↩

  5. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção Especializada à Saúde — Programa Nacional de Triagem Neonatal (Teste do Pezinho). PNTN instituído em 6 de junho de 2001; coleta em papel-filtro por punção no calcanhar; período recomendado da primeira amostra entre 48 horas após o parto e o 5º dia de vida; período neonatal até o 28º dia. Verificação feita na página: o "Hipotireoidismo Congênito Primário" consta entre as doenças rastreadas. gov.br/saude ↩

  6. Ministério da Saúde (SAES/SCTIE) e CONITEC — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipotireoidismo Congênito, anexo da Portaria Conjunta nº 05, de 16 de abril de 2021 (que revoga a Portaria nº 1.161/SAS/MS, de 18 de novembro de 2015). Corte do TSH em papel-filtro de 10 mUI/L e Quadro 1 (< 10 / 10-20 / > 20 mUI/L); Quadro 2 com os valores de referência em sangue venoso entre 4 e 30 dias de vida; incidência brasileira de 1:2.595 a 1:4.795; disgenesia em ~85% e dishormonogênese em ~15% dos casos; início do tratamento nos primeiros 14 dias de vida. gov.br/saude — PCDT ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7

  7. Braga NTP, Alves DPDSS, Colosimo EA, Dias VMA, Januário JN, Silva IN. Neonatal screening for congenital hypothyroidism: 28-year experience in the state of Minas Gerais, Brazil. J Pediatr (Rio J). 2025;101(3):430-437. Programa de Triagem Neonatal de Minas Gerais (NUPAD/UFMG); 6.864.719 recém-nascidos triados entre 1994 e 2021; incidência de 1:3.298 nascidos vivos, sem tendência de variação (p = 0,08); corte de TSH em papel-filtro de 10 mUI/L; idade mediana da coleta de 11 para 5 dias e do início do tratamento de 88 para 16 dias; 77% de casos permanentes. DOI: 10.1016/j.jped.2024.12.007 · PubMed 40037552 ↩ ↩2

  8. Gumes-Felix HM, Ramalho RJR, Melo EV, Matos DM, Menezes NV, Oliveira CRP, et al. Predictive factors for the diagnosis of permanent congenital hypothyroidism and its temporal changes in Sergipe, Brazil - A real-life retrospective study. Arch Endocrinol Metab. 2023;67(2):189-196. 165 crianças avaliadas aos 3 anos; 66 com forma permanente e 99 com forma transitória; melhor preditor de forma permanente foi o TSH sérico inicial, seguido do TSH em papel-filtro; incidências médias de ambas as formas aumentaram no período. DOI: 10.20945/2359-3997000000579 · PubMed 36651708 ↩

  9. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Programa de Monitoramento da Iodação do Sal para Consumo Humano (página institucional, modificada em 11/02/2026). Norma em vigor sobre o teor: Resolução RDC 604/2022; obrigatoriedade da iodação pela Lei nº 6.150/1974; Portaria nº 2.362/2005 (reestruturação do Pró-Iodo). gov.br/anvisa ↩

  10. Teixeira PFDS, Nogueira CR, Mesa CO Junior, Ramos HE, Maciel LMZ, Macedo MS, et al. — Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Should iodine supplementation be universally recommended for pregnant women in Brazil? A position statement from the Thyroid Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Arch Endocrinol Metab. 2025;69(4):e250170. Redução regulatória do teor de iodo no sal de 20-60 para 15-45 mg/kg em 2013; PNAISAL 2008-2009 e 2013-2014 com 18.864 escolares de 6 a 14 anos e mediana de iodo urinário de 276,7 µg/L; ausência de dado nacional publicado sobre gestantes; relação em U entre iodo e desfechos; iodo urinário indicado apenas para avaliação populacional. DOI: 10.20945/2359-4292-2025-0170 · PubMed 40857629 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5

  11. Anvisa — Relatório do Monitoramento da Iodação do Sal Destinado ao Consumo Humano, 2019 (retificação). 742 amostras de 17 estados; teores de 0 a 116,5 mg/kg, mediana de 24,4 mg/kg; 88,3% (n=655) dentro da faixa de 15 a 45 mg/kg, o menor percentual desde 2010; 9,0% (n=67) abaixo do mínimo e 2,7% (n=20) acima do máximo; das 87 amostras insatisfatórias, o sal rosa do Himalaia responde por 62,1% (n=54), com 33,3% das suas amostras abaixo de 15 mg/kg e 12,8% acima de 45 mg/kg. PDF ↩ ↩2 ↩3

  12. Sgarbi JA, Teixeira PF, Maciel LM, Mazeto GM, Vaisman M, Montenegro Junior RM, Ward LS — Departamento de Tireoide da SBEM. Consenso brasileiro para a abordagem clínica e tratamento do hipotireoidismo subclínico em adultos. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2013;57(3):166-83. Valor de referência do TSH em adultos de 0,4 a 4,5 mU/L; limites de 2,5 mU/L no primeiro trimestre e 3,5 mU/L nos dois seguintes na ausência de referências laboratoriais locais — posição superada pelo posicionamento FEBRASGO/SBEM de 2022; prevalência de TSH elevado de 12,3% em amostra de 1.220 mulheres adultas do Rio de Janeiro, chegando a 19,1% acima dos 70 anos. DOI: 10.1590/s0004-27302013000300003 · PubMed 23681263 ↩

  13. FEBRASGO — Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco, com referendo do Departamento de Tireoide da SBEM — Rastreio, diagnóstico e manejo do hipotireoidismo na gestação. FEBRASGO Position Statement nº 10, outubro de 2022. Femina. 2022;50(10):607-17. Solha ST, Mattar R, Teixeira PF, Chiamolera MI, Maganha CA, Zaconeta AC, et al. Rastreio universal onde houver plenas condições técnicas e financeiras; diagnóstico a partir de TSH > 4,0 mUI/L; TSH > 10 mUI/L como hipotireoidismo clínico; faixa de 4,0 a 10,0 mUI/L com solicitação de T4L; faixa de 2,5 a 4,0 mUI/L com dosagem de anti-TPO; alvo terapêutico de TSH < 2,5 mUI/L; cálculo do limite pela subtração de 0,5 mUI/L do valor de não gestantes. PDF ↩ ↩2 ↩3

  14. Biscolla RPM, Chiamolera MI, Kanashiro I, Maciel RMB, Vieira JGH — Grupo Fleury, São Paulo, Brasil. A Single 10 mg Oral Dose of Biotin Interferes with Thyroid Function Tests. Thyroid. 2017;27(8):1099-1100. DOI: 10.1089/thy.2016.0623 · PubMed 28614993 ↩

Aviso médico. Este guia tem finalidade informativa e educativa; não constitui aconselhamento médico e não substitui uma consulta. Os valores de referência variam conforme o laboratório e a técnica: só o seu médico pode interpretar os seus resultados no seu contexto.