Calculadora de TFG estimada (CKD-EPI 2021)

Estime sua taxa de filtração glomerular (TFG) a partir da sua creatinina, da sua idade e do seu sexo. A TFG é o indicador central da função renal.

Atualizado em 4 de setembro de 2026Editado por Smart Medical Care SAS

Informe a creatinina, a idade e o sexo para estimar a TFG.

Equação CKD-EPI Creatinina 2021 (sem variável racial), recomendada pelas diretrizes internacionais (KDIGO 2024). Válida em adultos (≥ 18 anos). Uma TFG ≥ 60 sem outros sinais de lesão renal não significa doença; a interpretação cabe ao seu médico.

Entender a creatinina e a TFG

O que é a TFG estimada?

A taxa de filtração glomerular (TFG) é o volume de sangue que os seus rins filtram por minuto, referido a uma superfície corporal padrão de 1,73 m². Na prática ela não é medida: é estimada a partir da creatinina sérica, da idade e do sexo. É o indicador central da função renal, e a recomendação mais importante do posicionamento das sociedades brasileiras é também a que menos gente conhece: não se deve usar a faixa de referência da creatinina como medida da função renal — o marcador é a TFG estimada, não a creatinina isolada.3

Esta calculadora usa a CKD-EPI 2021, e o Brasil também recomenda

Esta calculadora aplica a equação CKD-EPI Creatinina de 2021, na versão sem variável racial, respaldada pelas diretrizes internacionais KDIGO 2024.12 É exatamente o que o posicionamento consensual da SBN com a SBPC/ML, publicado no Jornal Brasileiro de Nefrologia em 2024, recomenda para adultos: CKD-EPI 2021 só com creatinina, CKD-EPI 2021 com creatinina e cistatina C, ou CKD-EPI 2012 só com cistatina C — nenhuma delas usa raça.3 A própria SBN mantém a calculadora correspondente aberta no seu site.8

Um detalhe que vale registrar, porque muda o número: o documento de 2024 foi corrigido por uma errata em 2025, que ajustou o expoente da CKD-EPI 2021 de 1,200 para −1,200.4 O documento em vigor é o consenso mais a errata — e é o expoente corrigido que esta calculadora aplica.

A divergência brasileira: o consenso já mudou, o protocolo do SUS não

Aqui está a particularidade do Brasil, e ela merece ser dita por inteiro. O PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11, de 16 de setembro de 2024 — ainda o texto em vigor —, apresenta no seu Quadro 1 uma única fórmula, creditada a “Levey AS et al., Ann Intern Med. 2009”: ou seja, a CKD-EPI de 2009.5

E o quadro lista dois conjuntos de coeficientes para a constante da fórmula: “Mulher = 166; Homem = 163” e “Mulher = 144; Homem = 141”. São exatamente os valores da CKD-EPI 2009 com e sem o fator racial (141 × 1,018 × 1,159 ≈ 166; 141 × 1,159 ≈ 163; 141 × 1,018 ≈ 144). A palavra que distinguia as duas linhas não está no quadro: nem “raça” nem “negro” aparecem em qualquer ponto da seção da fórmula.5

Consequência prática, e é a que interessa a você: o número do seu laudo pode não ser o número desta página. Se o seu laboratório calcula pela equação de 2009, é essa a cifra que o seu médico vai interpretar e comparar com os seus exames anteriores. Use o resultado daqui como ordem de grandeza e para entender de onde sai o número — e nunca compare uma TFG de 2009 com uma de 2021 como se fossem a mesma medida.

E os dois estudos brasileiros discordam entre si

Duas validações feitas no Brasil chegaram a conclusões diferentes, e o honesto é publicar as duas lado a lado.

EstudoMétodoConclusão dos autores
Vitória (ES) — 272 adultos da Pesquisa Nacional de SaúdeClearance de creatinina em urina de 24 hO ajuste por raça/cor piora a acurácia das equações; o clearance não diferiu entre grupos de cor da pele (p = 0,21). A correção por raça/cor não é recomendada.6
Porto Alegre (RS) — 306 adultos brancos e 48 negrosTFG medida com ⁵¹Cr-EDTANenhuma equação alcançou a acurácia P30 de 90%. A CKD-EPI 2009 teve o melhor desempenho nos participantes negros e a de 2021 subestimou a doença renal nos brancos: os autores não recomendam substituir a de 2009 pela de 2021 no Brasil.7

As duas concordam num ponto e discordam no outro: o coeficiente racial não se sustenta, mas qual equação usar no Brasil ainda está em disputa. O próprio posicionamento SBN/SBPC-ML reconhece que as equações foram validadas majoritariamente na população norte-americana e que a acurácia para outras populações, como a brasileira, ainda é pouco estudada.3 Não cabe a esta página fechar a questão — cabe mostrar que ela está aberta.

mg/dL: a unidade do laudo brasileiro

A equação trabalha com a creatinina em mg/dL, que é justamente como o laboratório brasileiro a informa, com duas casas decimais. Se o seu valor estiver em µmol/L — o que acontece em laudos europeus —, escolha essa unidade acima e a conversão é feita sozinha. Para conferir: 1 mg/dL = 88,4 µmol/L. O resultado sai em mL/min/1,73 m².

Não existe um “valor normal” de creatinina que responda pela sua função renal, e as sociedades brasileiras pedem expressamente que a faixa de referência não seja usada assim.3 Como ordem de grandeza, a média de voluntários saudáveis num estudo do sul do Brasil foi 0,79 mg/dL.11 A faixa válida é sempre a impressa ao lado do seu próprio resultado, porque ela muda com o laboratório e com o método — e o método importa mesmo: em pessoas com diabetes tipo 2, o Jaffé e o enzimático concordaram dentro de 10% em apenas 40% dos casos, e a TFG pelo método enzimático concordou melhor com a TFG medida.11

Por que esta calculadora não oferece cistatina C

Por uma razão brasileira, não técnica. As duas sociedades recomendam a cistatina C como teste confirmatório quando a creatinina é pouco confiável, e apontam a equação combinada como a mais exata.3 Só que, no Brasil de hoje, o exame quase não existe no laudo: a cistatina C não tem código na tabela SIGTAP do SUS — a busca do termo nas 5.023 linhas da tabela de procedimentos devolve zero ocorrências9 — e também não consta do Anexo I do Rol de Procedimentos da ANS, que nomeia 3.403 procedimentos e inclui “creatinina” e “clearance de creatinina”, mas nenhuma entrada de cistatina C.10 Fora do SUS e fora do Rol, ela sobra para o particular.

Por isso, e para não prometer o que não entrega: esta calculadora implementa uma única equação, a CKD-EPI Creatinina 2021 sem variável racial. Ela não calcula cistatina C, não calcula a equação combinada, não calcula MDRD nem Cockcroft-Gault — esta última, aliás, é desaconselhada pelo PCDT (“seu uso não é recomendado”) e restrita à pesquisa pelo consenso da SBN.53 Também não substitui o clearance de creatinina de urina de 24 horas, que o PCDT manda evitar pelo risco de erro de coleta e de marcação do tempo — apesar de ser o termo que o brasileiro mais procura.5

Os estágios da doença renal crônica

A TFG classifica a filtração em estágios. Uma TFG ≥ 60 sem nenhuma outra alteração — em especial sem albuminúria — não é doença renal. Fala-se em doença renal crônica quando a TFG fica abaixo de 60 mL/min/1,73 m², ou quando há marcador de lesão renal (albuminúria ≥ 30 mg/24 h ou relação albumina/creatinina ≥ 30 mg/g), por mais de três meses.52

Estágio (PCDT)TFG (mL/min/1,73 m²)Descrição
1 (G1)≥ 90Lesão renal com TFG normal
2 (G2)60 – 89Lesão renal com TFG levemente diminuída
3A (G3a)45 – 59TFG moderadamente diminuída
3B (G3b)30 – 44TFG moderadamente diminuída
4 (G4)15 – 29TFG gravemente diminuída
5 (G5)< 15Falência renal

Duas observações sobre esta tabela. O PCDT brasileiro numera os estágios 1 a 5; a calculadora acima devolve a notação internacional G1 a G5 — é a mesma classificação, com rótulos diferentes.5 E o protocolo acrescenta um estágio 5D, para a falência renal já em terapia substitutiva: nenhuma calculadora pode deduzi-lo de um exame de sangue.5

Repare que nos estágios 1 e 2 a TFG está normal ou quase: o que define a doença ali é o marcador de lesão, não o número da filtração. É por isso que uma creatinina “normal” não encerra o assunto — e por que a relação albumina/creatinina em amostra isolada é o exame que o PCDT recomenda ao lado da TFG.5

Por fim, a estimativa erra de forma sistemática com muita ou com muito pouca massa muscular, porque a creatinina vem do músculo: ela subestima a função renal no primeiro caso e a superestima no segundo. Há ainda interferências analíticas conhecidas — e a creatinina é o analito com o menor limiar de interferência por bilirrubina de toda a tabela da SBPC/ML, a partir de 5 mg/dL: uma icterícia discreta já compromete o resultado.3

Perguntas frequentes

O que é a TFG estimada?

A TFG (taxa de filtração glomerular) é o volume de sangue que os seus rins filtram por minuto, referido a uma superfície corporal padrão de 1,73 m². Ela não é medida diretamente: é estimada a partir da creatinina sérica, da idade e do sexo. É o indicador central da função renal, e a SBN e a SBPC/ML recomendam que todo laudo de creatinina já traga a TFG estimada ao lado — porque a creatinina sozinha diz pouco.

Que equação esta calculadora usa?

A CKD-EPI Creatinina de 2021, na versão sem variável racial. É exatamente a equação que o posicionamento consensual da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) com a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), publicado em 2024, recomenda para adultos. Nesse ponto, esta calculadora está alinhada com a recomendação brasileira em vigor.

Então por que o meu laudo mostra um número diferente?

Provavelmente porque o seu laboratório ainda calcula com a CKD-EPI de 2009. É o que o protocolo do Ministério da Saúde continua imprimindo: o PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11, de 16 de setembro de 2024, traz no seu Quadro 1 uma única fórmula, creditada a “Levey AS et al., Ann Intern Med. 2009”. Trocar de equação muda o número calculado sem que nada tenha mudado no seu sangue.

O protocolo do Ministério da Saúde ainda usa fator racial?

O quadro do PCDT lista dois conjuntos de coeficientes para a constante da fórmula: “Mulher = 166; Homem = 163” e “Mulher = 144; Homem = 141”. São exatamente os valores da CKD-EPI 2009 com e sem o fator racial (141 × 1,018 × 1,159 ≈ 166; 141 × 1,159 ≈ 163; 141 × 1,018 ≈ 144). E o protocolo não diz o que separa as duas linhas: as palavras “raça” e “negro” não aparecem em nenhum ponto da seção da fórmula. Na prática, o texto nacional que estados e municípios seguem ainda veicula a equação com o coeficiente racial, seis meses depois de as duas sociedades científicas terem recomendado abandoná-lo.

Por que o coeficiente racial foi abandonado?

O posicionamento SBN/SBPC-ML descreve o problema sem meias palavras: raça é “um conceito social que não se correlaciona, necessariamente, com as diferenças genotípicas ou metabólicas subjacentes”, o parâmetro ignora quem se identifica como multirracial — o que num país como o Brasil é enorme — e o efeito prático de superestimar a filtração em pessoas negras é atrasar diagnóstico, encaminhamento ao nefrologista e entrada em lista de transplante.

Os estudos brasileiros concordam com a CKD-EPI 2021?

Não, e vale conhecer os dois. Em Vitória (ES), 272 adultos de um subestudo da Pesquisa Nacional de Saúde fizeram coleta urinária de 24 horas: o ajuste por raça/cor piorou a acurácia das equações, e o clearance medido não diferiu entre os grupos de cor da pele (p = 0,21). Os autores concluem que a correção por raça/cor não é recomendada. Em Porto Alegre (RS), 306 adultos brancos e 48 negros tiveram a filtração medida com 51Cr-EDTA: nenhuma equação alcançou a acurácia P30 desejável de 90%, a CKD-EPI 2009 teve o melhor desempenho nos participantes negros, e os autores concluem que não se deve substituir a de 2009 pela de 2021 na população brasileira. As duas concordam que o coeficiente racial não se sustenta; discordam sobre qual equação usar. A questão está aberta.

Qual número eu devo olhar, o desta página ou o do meu laudo?

O do seu laudo. É esse que o seu médico vai interpretar e comparar com os seus exames anteriores. Use o resultado desta página como ordem de grandeza e para entender de onde sai o número. E não compare uma TFG calculada pela CKD-EPI 2009 com uma calculada pela de 2021 como se fossem a mesma medida — nem dois laudos de laboratórios diferentes sem antes conferir qual equação cada um usa.

Em que unidade eu digito a creatinina?

Em mg/dL, que é como o laboratório brasileiro informa a creatinina, com duas casas decimais, e é também a unidade com que a equação trabalha. Se o seu valor estiver em µmol/L — o que acontece em laudos europeus —, selecione essa unidade acima e a conversão é feita sozinha. Para conferir: 1 mg/dL = 88,4 µmol/L.

Por que esta calculadora não oferece cistatina C?

Por uma razão brasileira, e não técnica. A SBN e a SBPC/ML recomendam três equações: CKD-EPI 2021 só com creatinina, CKD-EPI 2021 com creatinina e cistatina C, e CKD-EPI 2012 só com cistatina C. Esta calculadora implementa apenas a primeira. O motivo é o acesso: a cistatina C não tem código na tabela SIGTAP do SUS — a busca pelo termo nas 5.023 linhas da tabela de procedimentos devolve zero ocorrências — e também não consta do Anexo I do Rol de Procedimentos da ANS, que lista 3.403 procedimentos. Fora do SUS e fora do Rol, o exame quase não aparece nos laudos brasileiros.

A calculadora serve para clearance de creatinina de urina de 24 horas?

Não, e o exame em si é justamente o que o PCDT do Ministério da Saúde manda evitar: o protocolo determina que “para a avaliação da TFG deve-se evitar o uso da depuração de creatinina medida da coleta de urina de 24 horas pelo potencial de erro de coleta”. Curiosamente é o termo que o brasileiro mais procura na internet. A Cockcroft-Gault, de 1976, também é desaconselhada: o PCDT diz que “seu uso não é recomendado”, e o posicionamento SBN/SBPC-ML restringe o seu emprego à pesquisa. Esta calculadora não implementa nenhuma das duas.

Uma TFG abaixo de 90 significa doença renal?

Não necessariamente. A TFG cai naturalmente com a idade, e uma TFG ≥ 60 sem nenhuma outra alteração — em especial sem albuminúria — não é doença renal. Fala-se em doença renal crônica quando a TFG fica abaixo de 60 mL/min/1,73 m², ou quando há marcador de lesão renal, por mais de três meses. Nos estágios 1 e 2 a TFG está normal ou quase: o que define a doença ali é o marcador de lesão, não o número da filtração.

Por que a estimativa erra com muita ou com pouca massa muscular?

Porque a creatinina vem do músculo. Com muita massa muscular a creatinina é alta e a fórmula subestima a função renal; com pouca massa muscular — idade avançada, fragilidade, paralisia, depois de uma amputação — a creatinina é baixa e a fórmula superestima. Nessas situações a cistatina C, que quase não depende da massa muscular, seria mais confiável, mas no Brasil ela está fora do SUS e fora do Rol da ANS. Há ainda interferências analíticas: a creatinina é o analito com o menor limiar de interferência por bilirrubina de toda a tabela da SBPC/ML, a partir de 5 mg/dL.

O cálculo vale em crianças ou na gravidez?

Não. A CKD-EPI 2021 é validada em adultos (a partir de 18 anos) — e a calculadora recusa idades abaixo disso. Em pediatria usam-se fórmulas próprias; na gravidez a estimativa da TFG é pouco confiável e exige acompanhamento médico dedicado.

Este resultado substitui a avaliação de um médico?

Não. A calculadora fornece uma estimativa com finalidade informativa. O diagnóstico e o acompanhamento de uma doença renal se apoiam no conjunto dos exames — creatinina, albuminúria, evolução no tempo, imagem — e cabem ao seu médico.

Para passar de uma unidade de creatinina para outra, veja nosso conversor de unidades.

Aviso. Esta ferramenta fornece uma estimativa com finalidade informativa, válida em adultos. Não faz nenhum diagnóstico e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. A interpretação de uma TFG depende do conjunto dos seus exames e da sua situação.

Fontes

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