Perfil hormonal: quais exames, quando colher e por quê
Os exames hormonais dependem do horário, do dia do ciclo e da pílula. O que pedir primeiro, o que o CFM proíbe e quanto o SUS paga por cada dosagem.
O perfil hormonal é o conjunto de dosagens de sangue que avalia as glândulas do corpo: hipófise, tireoide, suprarrenais, ovários, testículos e pâncreas. No pedido médico ele aparece como exames hormonais, avaliação hormonal ou, quase sempre, como uma lista solta de siglas — TSH, FSH, LH, prolactina, cortisol, testosterona. Este guia não repete a fisiologia de cada hormônio: ele explica a coisa que muda o resultado e que ninguém conta ao paciente — quando colher —, em que ordem ler o laudo, o que a lei brasileira proíbe fazer com esses números e quanto cada dosagem custa ao SUS.
Em resumo
- "Perfil hormonal" não é um exame. Na Tabela de Procedimentos do SUS (SIGTAP), competência 08/2026, existe uma família chamada "Exames hormonais" com 47 procedimentos — mas nenhum deles é um painel. Cada dosagem é cobrada em separado.1
- O horário decide o resultado. Para a SBPC/ML, ferro e cortisol séricos variam até 50% entre uma coleta das 8h e outra da tarde, sempre para baixo à tarde.23
- O dia do ciclo decide o resultado. FSH e estradiol devem ser colhidos na fase folicular precoce, entre os dias 1 e 4; a progesterona que comprova ovulação, depois do 21º dia.2
- A pílula apaga o eixo. Anticoncepcionais hormonais suprimem as gonadotrofinas e derrubam estradiol, progesterona e testosterona. Para avaliar o eixo, a SBPC/ML orienta interromper por cerca de 3 meses.2
- Prolactina não é exame de rotina. O posicionamento conjunto Febrasgo/SBEM é explícito: dosar só com sintomas compatíveis ou tumor hipofisário — o rastreio em pessoa assintomática "pode levar a custos e intervenções desnecessários".4
- Testosterona em mulher saudável também não. SBEM, Febrasgo e o Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC afirmam que não há indicação de dosar testosterona para diagnosticar "deficiência androgênica" ou justificar prescrição.5
- A "modulação hormonal" é proibida por resolução. A Resolução CFM nº 1.999/2012 veda tratamentos de reposição, suplementação ou modulação hormonal com o objetivo de retardar o envelhecimento — e o TRF5 manteve a norma em 2018.67
- A mesma resolução veda um exame: testes de saliva para DHEA, estrogênio, melatonina, progesterona, testosterona ou cortisol com a finalidade de rastrear a menopausa ou doenças do envelhecimento.6
- A Anvisa proibiu os "chips da beleza" em 18/10/2024: implantes hormonais manipulados com finalidade estética, ganho de massa ou desempenho esportivo.8
- Nenhum hormônio isolado fecha diagnóstico. O laudo se lê inteiro, com os seus sintomas e o seu médico.
O que se chama de "perfil hormonal"
A verificação é direta e vale a pena fazer, porque contraria o que o nome sugere. Consultando o arquivo da Tabela de Procedimentos do SUS (SIGTAP) na competência de agosto de 2026 — 5.023 procedimentos —, a expressão "perfil hormonal" retorna zero ocorrências. Não é falha de busca: a palavra "perfil" nomeia 6 procedimentos (perfil de acilcarnitinas, radiografia em perfil, perfil de pressão uretral) e a palavra "hormonal", outros 3. As duas existem no arquivo; elas nunca se encontram.1
O que existe é uma forma de organização com o nome exato "Exames hormonais" (código 02.02.06), que reúne 47 procedimentos — de dosagens comuns como TSH e prolactina a testes dinâmicos de estímulo e supressão. Ou seja: o SUS reconhece a família, não o pacote. É o mesmo padrão já observado no hepatograma, no lipidograma e nos exames da tireoide — o painel existe na prática do laboratório, não na tabela oficial.
Três ausências dessa lista dizem muito sobre o que o sistema público cobre. Não há SHBG (a globulina que carrega os hormônios sexuais) — embora a tabela pague a globulina transportadora de tiroxina, prova de que o vocabulário existe e simplesmente não foi aplicado aos hormônios sexuais. Não há hormônio anti-mülleriano, que a própria SBPC/ML chama de "o marcador mais fidedigno de reserva ovariana".2 E não há nenhuma dosagem hormonal em saliva, embora a palavra "salivar" nomeie sete procedimentos, todos cirurgias ou exames de imagem da glândula.1
O horário, o dia do ciclo e a pílula
Esta é a parte útil da página, e a que mais muda laudos. Muitos hormônios não têm um valor: têm uma curva. Colher fora da hora certa produz um número verdadeiro que significa outra coisa.
A SBPC/ML dedica um capítulo à variação cronobiológica e dá o número: as concentrações de ferro e de cortisol séricos podem variar em até 50% entre amostras colhidas às 8h e às 14h e às 8h e às 16h, respectivamente — e "as coletas realizadas à tarde fornecem resultados consistentemente mais baixos".2 O guia de Coleta de Sangue Venoso da mesma sociedade repete o dado e acrescenta outro: a aldosterona é cerca de 100% mais elevada na fase pré-ovulatória do que na folicular.3
| Exame | Quando colher, segundo as fontes brasileiras |
|---|---|
| Cortisol | Manhã. À tarde o valor cai até 50%.2 |
| FSH e estradiol (reserva ovariana) | Fase folicular precoce, dias 1 a 4 do ciclo.2 |
| Progesterona (comprovar ovulação) | Depois do 21º dia do ciclo.2 |
| 17-hidroxiprogesterona | Fase inicial do ciclo, para não sofrer interferência da progesterona do corpo lúteo.2 |
| Hormônio anti-mülleriano | Qualquer época — varia pouco dentro do ciclo.2 |
| Prolactina | Manhã, após 2 a 3 horas de jejum; uma única amostra basta quando a punção transcorre sem dificuldade.4 |
| Testosterona em homem trans em uso de éster injetável | No intervalo médio entre as aplicações; nos de curta duração, 1 dia antes da próxima.2 |
Por que insistir tanto no dia? Porque os pontos de corte são estreitos e foram construídos para uma fase específica. A SBPC/ML registra que, na insuficiência ovariana prematura, o diagnóstico se confirma com FSH acima de 25 mUI/mL medido em duas ocasiões, com 4 semanas de intervalo; nas amenorreias, FSH acima de 30 mUI/mL sugere causa gonadal; e um FSH entre 10 e 15 mUI/mL já indica prognóstico reprodutivo desfavorável em reprodução assistida. O LH, por sua vez, atinge entre 15 e 100 mUI/mL durante o pico ovulatório.2 Um FSH colhido no dia 12 do ciclo não se compara com essas réguas — ele não está errado, está fora de contexto.
Dois interferentes valem tanto quanto o horário. O primeiro é o anticoncepcional hormonal: como ele age inibindo o eixo hipotálamo-hipófise-gônada, "qualquer avaliação do eixo e dos hormônios sexuais na vigência" dele fica prejudicada — e a orientação da SBPC/ML, quando é preciso avaliar, é interromper por cerca de 3 meses.2 O segundo é a biotina dos suplementos de cabelo e unha: em megadoses de 3 a 10 mg contra uma ingestão recomendada de ~300 mcg, ela distorce imunoensaios, e a orientação é suspender cerca de 48 horas antes da coleta.2 O detalhe do estrago que ela faz nos exames da tireoide está em TSH e T4 livre.
A ordem de leitura: o que pedir primeiro
Um perfil hormonal bem pedido é curto. Cada degrau abaixo está apoiado em uma fonte, não em bom senso.
- Comece pelo sintoma, não pela lista. O posicionamento Febrasgo/SBEM sobre hiperprolactinemia é o exemplo mais claro: a prolactina "só deve ser dosada na presença de sintomas compatíveis e/ou de tumor hipofisário" e "não é recomendada como avaliação de rotina".4
- A tireoide entra cedo — e entra pelo TSH. Não por hierarquia, mas por interferência: 20% a 40% das pessoas com hipotireoidismo primário têm prolactina elevada, e o TSH "deve sempre ser dosado" no diagnóstico diferencial da hiperprolactinemia.4 O algoritmo da tireoide em si está em exames da tireoide; um valor fora da faixa se lê em TSH alto ou TSH baixo.
- Repita antes de investigar. Uma hiperprolactinemia leve deve ser confirmada com nova dosagem, "após excluir o estresse da venopunção" — excepcionalmente, duas amostras com 15 a 20 minutos de intervalo.4
- Só então a imagem. A ressonância da hipófise "só deve ser feita depois de excluídas as outras causas" de prolactina alta — e 15% a 45% dos casos são causados por medicamentos.4
- O que não pedir. Os testes de estímulo da prolactina com TRH "não são recomendados" pelo posicionamento brasileiro.4 E, em mulher saudável ou com queixa de baixa libido, não há indicação de dosar testosterona sérica: a única indicação formal é investigar androgênios altos (SOP, hiperplasia adrenal congênita, tumores, Cushing).5
Um caso à parte é o beta-hCG, o hormônio que quase todo mundo já dosou. A SBPC/ML descreve o padrão que importa: níveis detectáveis cerca de 10 a 12 dias após a fertilização, com o valor dobrando a cada 48 horas no início da gestação; situações que não repliquem esse padrão devem ser investigadas. E adverte contra o erro mais comum do leigo: não se deve usar tabelas de valores para estimar a idade gestacional, porque a variação entre pessoas é grande.2 Na tabela do SUS ele aparece duas vezes — como dosagem no sangue e como pesquisa na urina, esta última classificada entre os exames de uroanálise.1
O que a lei brasileira proíbe
Aqui está a diferença mais brasileira desta página, e ela não é uma opinião: é uma norma em vigor.
A Resolução CFM nº 1.999/2012, aprovada na sessão plenária de 27 de setembro de 2012 e publicada no Diário Oficial da União de 19 de outubro de 2012, estabelece no art. 1º que a reposição de deficiências hormonais "se fará somente em caso de deficiência específica comprovada". O art. 2º veda, entre outros, o inciso IV: "tratamentos baseados na reposição, suplementação ou modulação hormonal com os objetivos de prevenir, retardar, modular e/ou reverter o processo de envelhecimento"; e o inciso V, a prescrição de hormônios ditos "bioidênticos" com essa finalidade.6 Médicos que descumprem respondem a processo ético-profissional, com penas que vão da advertência à cassação do registro.9
A norma foi contestada na Justiça por uma associação, em ação civil coletiva ajuizada na 1ª Vara Federal do Ceará. O pedido foi negado em primeira instância e, em 28 de agosto de 2018, a Segunda Turma do TRF5 negou a apelação por unanimidade, reconhecendo o direito do CFM de regular e impedir a prática.7
Um exame está expressamente no texto. O inciso VI veda "os testes de saliva para dehidroepiandrosterona (DHEA), estrogênio, melatonina, progesterona, testosterona ou cortisol utilizados com a finalidade de triagem, diagnóstico ou acompanhamento da menopausa ou a doenças relacionadas ao envelhecimento".6 Repare na condição de finalidade — e note que ela não torna o cortisol salivar inútil: a SBPC/ML descreve o seu uso legítimo na investigação de síndrome de Cushing, de estresse e em testes de estímulo com cortrosina, contextos em que "deve ser preferido aos imunoensaios".2 O que a resolução proíbe é a finalidade antienvelhecimento, não a matriz.
Do lado sanitário, a Anvisa publicou em 18 de outubro de 2024 a proibição da comercialização e do uso de implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética, ganho de massa muscular ou desempenho esportivo — os "chips da beleza". A medida se apoia na RDC 67/2007 e no art. 7º da Lei 6.360/1976, e não afeta implantes registrados, como o de etonogestrel. As substâncias mais usadas eram gestrinona, testosterona e oxandrolona, todas da lista C5 da Portaria/SVS 344/1998; as complicações listadas incluem dislipidemia, hipertensão, AVC, arritmia, hirsutismo, alopecia, acne e disfonia.8 Duas revisões sistemáticas brasileiras de 2025 fecham o quadro. A primeira, da Universidade Federal do Paraná, reuniu 32 artigos sobre a segurança da gestrinona e listou o que os pacientes relatam: amenorreia em 41,4%, acne e seborreia em 42,7%, queda da libido em 26,5%, redução do volume mamário em 23,7% e elevação de transaminases em 15,1% — com ganho de peso significativo em 40% dos estudos e conclusão de que "a evidência permanece insuficiente" diante do uso disseminado e não regulado.10 A segunda procurou, até julho de 2025, qualquer estudo sobre gestrinona para lipedema em seis bases e registros de ensaios clínicos: não encontrou nenhum, nem randomizado, nem observacional, nem em andamento.11 E, sobre os anabolizantes em doses suprafisiológicas usados por estética e desempenho, uma revisão da Universidade Federal da Bahia reúne o que se conhece: remodelamento miocárdico, hipertensão, dislipidemia, trombose e disfunção endotelial.12
Onde a terapia hormonal é protocolo
Vale dizer o contrário também, para que a página não seja lida como um "não" genérico. Há terapia hormonal séria, protocolada e monitorada por exames — e o SUS a financia.
O manual da SBPC/ML descreve o protocolo do Ambulatório de Disforia de Gênero do HC-FMUSP: avaliação inicial com hemograma, função renal, hepatograma, glicemia de jejum, insulina, hemoglobina glicada quando indicada, perfil lipídico, sorologias, FSH, LH, estradiol, testosterona total e prolactina — e seguimento semestral. Em homens trans, a testosterona total é dosada a cada 3 a 4 meses; em mulheres trans, testosterona e estradiol na mesma frequência.2 O manual chega ao ponto de fixar alvos: em homens trans com ésteres injetáveis de longa ação, a testosterona deve ficar entre 400 e 700 ng/dL, com a amostra colhida no intervalo médio entre as injeções; em mulheres trans, a testosterona total deve permanecer na faixa de mulheres cis e o estradiol na faixa da fase folicular (100 a 200 pg/mL). A prescrição cabe a endocrinologista, ginecologista ou urologista, e a Resolução CFM nº 2.265/2019 exige, para os procedimentos cirúrgicos, no mínimo 1 ano de acompanhamento por equipe multiprofissional.2 Na tabela do SUS, a "terapia hormonal no processo transexualizador" tem código próprio (03.03.03.009-7, R$ 50,00).1 A diferença com a "modulação hormonal" não é o hormônio: é a indicação, o protocolo e o monitoramento.
Quanto o SUS paga
Valores ambulatoriais da SIGTAP na competência 08/2026, lidos diretamente no arquivo da tabela:1
| Dosagem | Código | Valor |
|---|---|---|
| Prolactina | 02.02.06.030-6 | R$ 10,15 |
| Cortisol | 02.02.06.013-6 | R$ 9,86 |
| Testosterona | 02.02.06.034-9 | R$ 10,43 |
| Testosterona livre | 02.02.06.035-7 | R$ 13,11 |
| Estradiol | 02.02.06.016-0 | R$ 10,15 |
| Progesterona | 02.02.06.029-2 | R$ 10,22 |
| FSH | 02.02.06.023-3 | R$ 7,89 |
| LH | 02.02.06.024-1 | R$ 8,97 |
| TSH | 02.02.06.025-0 | R$ 8,96 |
| Beta-hCG (sangue) | 02.02.06.021-7 | R$ 7,85 |
| SDHEA | 02.02.06.033-0 | R$ 13,11 |
| Insulina | 02.02.06.026-8 | R$ 10,17 |
| Paratormônio | 02.02.06.027-6 | R$ 43,13 |
| Pesquisa de macroprolactina | 02.02.06.047-0 | R$ 12,15 |
A lista feminina mais pedida — FSH, LH, estradiol, prolactina, TSH e testosterona — soma R$ 56,55. Para comparar com o setor privado, veja quanto custa um exame de sangue.
Uma curiosidade que só aparece lendo a tabela inteira: o SUS ainda paga R$ 12,01 pelo "teste de estímulo da prolactina / TSH após TRH" (02.02.06.040-3) — exatamente o teste que o posicionamento Febrasgo/SBEM de 2024 diz não ser recomendado.14 A tabela guarda procedimentos que a clínica já aposentou.
O que esses exames não dizem
Um hormônio fora da faixa não é uma doença. Três razões brasileiras para isso:
A variação é enorme e prevista. Ela é pulsátil, circadiana, mensal e sazonal — a própria SBPC/ML classifica os ritmos em circadiano, circaceptano (7 dias), circatrigintano (mensal) e circanual.2 Um valor isolado é um ponto numa curva que você não viu.
O ensaio erra em direções conhecidas. A prolactina muito alta pode ser subestimada pelo efeito gancho, acima de ~2.000 ng/mL; e uma prolactina alta sem sintoma pode ser macroprolactina, uma forma biologicamente inativa — em estudo multicêntrico brasileiro com 1.234 pacientes, a macroprolactinemia respondeu por 9,3% dos casos de hiperprolactinemia.413 Os detalhes estão em prolactina.
O sintoma nem sempre vem do hormônio. Antes de considerar terapia androgênica na mulher, as três sociedades mandam avaliar e tratar hipoestrogenismo, depressão, efeitos de antidepressivos, obesidade e fatores do relacionamento.5 O Consenso Global de 2019 sobre testosterona em mulheres, endossado por onze sociedades, reconhece uma única indicação: o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa.14
Perguntas frequentes
Preciso estar em jejum para exames hormonais? Depende do exame, não da família. Nenhuma fonte brasileira consultada exige jejum para TSH, FSH ou LH. Para a prolactina, o posicionamento Febrasgo/SBEM descreve a coleta habitual pela manhã após 2 a 3 horas de jejum.4 Quem colhe junto com glicemia ou lipidograma segue as regras desses exames. Confirme sempre com o seu laboratório.
Posso fazer os exames tomando anticoncepcional? Pode colher, mas a leitura fica comprometida: a SBPC/ML registra supressão das gonadotrofinas e queda de estradiol, progesterona e testosterona, e orienta interromper por cerca de 3 meses quando o objetivo é avaliar o eixo.2 Essa decisão é do seu médico, nunca sua sozinha.
Cortisol alto significa estresse? Não por si só. Além do horário — até 50% de diferença entre manhã e tarde —, o tabagismo eleva o cortisol e a glicemia, entre outros parâmetros.2 O cortisol sérico é ponto de partida de investigações (Cushing, insuficiência adrenal) que exigem testes dinâmicos, não conclusão isolada.
"Modulação hormonal" e reposição hormonal são a mesma coisa? Não. A reposição de uma deficiência comprovada é permitida pelo art. 1º da Resolução CFM nº 1.999/2012. O que a resolução veda é usar hormônios para "prevenir, retardar, modular e/ou reverter o processo de envelhecimento".6
Meu médico pediu 12 hormônios de uma vez. Isso é normal? Não existe um painel oficial, e a lógica das fontes brasileiras é a oposta: dosar a partir do sintoma. O posicionamento sobre prolactina afirma que o rastreio em pessoa assintomática "pode levar a custos e intervenções desnecessários".4 Leve a lista à consulta e pergunte o que cada linha vai mudar na conduta.
Posso comparar hormônios de dois laboratórios diferentes? Com cautela. A SBPC/ML alerta que as concentrações hormonais são expressas em sistemas e unidades diferentes conforme o laboratório — ng/mL, ng/dL, pmol/L — e que a atenção às unidades e ao intervalo de referência impresso no próprio laudo é essencial para evitar equívocos. Some-se a isso o método: nos androgênios em baixas concentrações, os imunoensaios perdem sensibilidade, e a espectrometria de massas é mais acurada.2 Compare sempre com a faixa do seu próprio laudo; se as unidades destoarem, use o conversor de unidades.
Existe um "exame do chip da beleza"? Não. O que existe é a proibição da Anvisa, de 18/10/2024, sobre implantes hormonais manipulados para fins estéticos, e a exigência, nos casos legítimos, de receita de controle especial, CID na receita e Termo de Responsabilidade e Esclarecimento assinado pelo médico, pelo paciente e pela farmácia.8
O que levar do seu laudo
Um perfil hormonal se lê pelo contexto, não pela lista. Guarde três reflexos brasileiros: o horário e o dia do ciclo mudam o número tanto quanto a glândula; a pílula e a biotina inventam resultados; e "modulação hormonal" para rejuvenescer é prática vedada pelo CFM desde 2012, confirmada na Justiça em 2018.
Nenhum número isolado decide nada — nem aqui, nem nos marcadores inflamatórios, nem no perfil vitamínico. Se algum termo do laudo não fizer sentido, comece pelo glossário de exames de sangue; para organizar o conjunto antes da consulta, a AI DiagMe ajuda a colocar os seus resultados em contexto.
Fontes
Footnotes
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Ministério da Saúde / DATASUS — SIGTAP: Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS, competência 202608. Leitura feita no arquivo
tb_procedimento.txt(1.697.774 bytes, 5.023 linhas), com decodificação latin-1 e colunas de posição fixa. Parser validado contra cinco valores já publicados de forma independente (ferritina 0202010384 = R$ 15,59; hemograma completo 0202020380 = R$ 4,11; vitamina B12 0202010708 = R$ 15,24; folato 0202010406 = R$ 15,65; TSH 0202060250 = R$ 8,96) — 5 acertos em 5. Ausências demonstradas por enumeração com dobra de acentos ativa (2.483 das 5.023 linhas contêm acentos): "perfil hormonal" = 0 ocorrências, com controles positivos "perfil" = 6 e "hormonal" = 3 no mesmo arquivo; "SHBG" e "globulina ligadora" = 0, com controle positivo "globulina transportadora de tiroxina" = 1; "antimülleriano" = 0, com controle positivo "Müller" = 1 (esfera de Müller); nenhuma dosagem hormonal em saliva, com controle positivo "salivar" = 7 (todas cirúrgicas ou de imagem); "menopausa", "climatério" e "andropausa" = 0 em toda a tabela. A forma de organização 02.02.06 chama-se "Exames hormonais" e reúne 47 procedimentos. sigtap.datasus.gov.br ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 -
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — Recomendações da SBPC/ML: boas práticas em laboratório clínico. Capítulo de variação cronobiológica (ferro e cortisol com variação de até 50% entre 8h e 14h/16h; ritmos circadiano, circaceptano, circadiceptano, circatrigintano e circanual; tabagismo elevando cortisol e glicemia; abstinência de álcool por 72 h). Capítulo 48, "Avaliação hormonal da mulher em idade reprodutiva" (FSH e estradiol na fase folicular precoce, dias 1 a 4; FSH avaliado entre os dias 1 e 3 do ciclo; progesterona após o 21º dia; AMH como marcador mais fidedigno de reserva ovariana e sem exigência de dia do ciclo; 17-hidroxiprogesterona na fase inicial; interrupção do anticoncepcional por cerca de 3 meses; biotina em megadoses de 3 a 10 mg e suspensão ~48 h antes; dosagem de androgênios indicada em hiperandrogenismo; SDHEA acima de 700–800 mcg/dL sugerindo investigação de carcinoma adrenal). Capítulo de espectrometria de massas (cortisol salivar na investigação de Cushing, estresse e testes com cortrosina). Capítulo sobre pessoas transgênero (protocolo do Ambulatório de Disforia de Gênero do HC-FMUSP; testosterona total a cada 3–4 meses; Resolução CFM nº 2.265/2019). ⚠️ Verificação feita no texto integral do PDF (16.055.655 bytes). PDF ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13 ↩14 ↩15 ↩16 ↩17 ↩18 ↩19 ↩20 ↩21 ↩22
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SBPC/ML — Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial para Coleta de Sangue Venoso, 2ª edição (Manole/BD, 2009). Seção 1.1, variação cronobiológica: variação circadiana do ferro e do cortisol séricos, com coletas da tarde fornecendo resultados até 50% mais baixos; aldosterona cerca de 100% mais elevada na fase pré-ovulatória do que na folicular; registro obrigatório do horário de coleta para alguns exames. ⚠️ Edição declarada: 2ª (2009). Verificação: PDF baixado e conferido (1.256.297 bytes,
application/pdf), com controle negativo em URL inventada no mesmo diretório devolvendo 404 de 196 bytes. PDF ↩ ↩2 -
Glezer A, Mendes Garmes H, Kasuki L, Martins M, Condé Lamparelli Elias P, Dos Santos Nunes Nogueira V, Rosa-e-Silva ACJS, Maciel GAR, Benetti-Pinto CL, Prestes Nácul A — Febrasgo e SBEM (Departamento de Neuroendocrinologia e Comissão Nacional Especializada em Endocrinologia Ginecológica). Diagnosis of hyperprolactinemia in women: A Position Statement from the Brazilian Federation of Gynecology and Obstetrics Associations (Febrasgo) and the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Arch Endocrinol Metab. 2024;68:e230502. Prolactina dosada apenas com sintomas compatíveis ou tumor hipofisário, não como rotina; coleta habitual pela manhã após 2–3 horas de jejum, amostra única suficiente; confirmação após excluir estresse da venopunção, excepcionalmente duas amostras com 15–20 minutos; testes de estímulo com TRH não recomendados; pesquisa de macroprolactina na hiperprolactinemia assintomática, com prolactina residual pós-PEG habitualmente inferior a 40%; efeito gancho acima de ~2.000 ng/mL; 15–45% dos casos por medicamentos; hiperprolactinemia em 20–40% do hipotireoidismo primário, com TSH sempre dosado no diferencial; valores normais geralmente abaixo de 25 ng/mL. DOI: 10.20945/2359-4292-2023-0502 · PubMed 38578472 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11
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SBEM, FEBRASGO e Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC — Nota Conjunta sobre o uso de Testosterona na mulher. Única indicação reconhecida: transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, diagnóstico clínico e de exclusão; não há indicação de dosar testosterona sérica para diagnosticar deficiência androgênica na mulher saudável ou com queixa de baixa libido; única indicação formal da dosagem é a investigação de androgênios elevados; a testosterona não sofre queda abrupta na menopausa; não existe no Brasil formulação de testosterona aprovada pela Anvisa para uso em mulheres; hormônios ditos "bioidênticos, biodisponíveis ou naturais" são descritos como estratégia de marketing; implantes, pellets e formulações manipuladas não recomendados. endocrino.org.br ↩ ↩2 ↩3
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Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 1.999, de 27 de setembro de 2012, publicada no Diário Oficial da União de 19/10/2012. Art. 1º (reposição só em deficiência específica comprovada) e art. 2º, incisos I a VI, incluindo o inciso IV (reposição, suplementação ou modulação hormonal com objetivo antienvelhecimento), o inciso V (hormônios "bioidênticos") e o inciso VI (testes de saliva para DHEA, estrogênio, melatonina, progesterona, testosterona ou cortisol para triagem/diagnóstico/acompanhamento da menopausa ou doenças do envelhecimento). Considerandos citam o Parecer CFM nº 29/2012 e a Resolução CFM nº 1.982/2012. ⚠️ Verificação: o portal de normas
sistemas.cfm.org.bresteve inacessível deste ambiente (timeout em todas as tentativas). O texto integral foi lido em duas fontes independentes que coincidem palavra por palavra — a base legislativa LegisWeb e a reprodução dos incisos I a VI publicada pela própria SBEM. Texto integral (LegisWeb) · Reprodução SBEM ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 -
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) — Terapias Hormonais: TRF5 Reconhece Resolução do CFM (18/09/2018). Ação civil coletiva ajuizada na 1ª Vara Federal da Seção Judiciária do Ceará para afastar a aplicação da Resolução 1999/2012; negada em primeira instância; apelação negada por unanimidade pela Segunda Turma do TRF5 em 28/08/2018, relator o desembargador federal convocado Frederico Wildson. endocrino.org.br ↩ ↩2
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Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Anvisa faz proibição e publica alerta sobre hormônios implantáveis manipulados (publicado em 18/10/2024, modificado em 01/08/2026) e página de campanha Implantes hormonais (publicada em 26/11/2024). Medida preventiva aplicada a todas as farmácias de manipulação, fundamentada na RDC 67/2007 (item 2.3) e no art. 7º da Lei 6.360/1976; RE 4.768 de 23/12/2021 (proibição de propaganda da gestrinona) e RE 4.079 de 13/12/2022; programa de monitoramento de 2022 com 18 farmácias inspecionadas, 11 com aspecto insatisfatório e 6 interdições parciais; gestrinona, testosterona e oxandrolona na lista C5 da Portaria/SVS 344/1998; complicações listadas (dislipidemia, hipertensão, AVC, arritmia, hirsutismo, alopecia, acne, disfonia, insônia, agitação); exigências de receita de controle especial, CID e Termo de Responsabilidade e Esclarecimento em três vias; implantes registrados (etonogestrel) não afetados. Notícia · Campanha ↩ ↩2 ↩3
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Conselho Federal de Medicina — Conselho Federal de Medicina proíbe o uso das terapias antienvelhecimento no país (assessoria de imprensa, 18/10/2012), com confirmação pelo CREMEGO (08/05/2014) de que a resolução está "em vigor desde 19 de outubro de 2012, quando foi publicada no Diário Oficial da União". Penas de advertência até cassação do registro profissional; trabalho conduzido pela Câmara Técnica de Geriatria; diálogo com as Resoluções CFM nº 1.938/2010 (práticas ortomoleculares) e nº 1.974/2011 (publicidade médica). portal.cfm.org.br · cremego.org.br ↩
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Fagundes VL, Barreiro Marques NC, Franco de Lima A, de Fátima Cobre A, Stumpf Tonin F, Luna Lazo RE, Pontarolo R — Universidade Federal do Paraná. Safety Profile of Gestrinone: A Systematic Review. Pharmaceutics. 2025;17(5):638. 32 artigos incluídos; implantes subcutâneos de gestrinona usados "off label" para fins estéticos por sua ação anabólica; eventos adversos relatados incluindo amenorreia (41,4%), acne e seborreia (42,7%), redução da libido (26,5%), fogachos (24,2%), redução do volume mamário (23,7%) e elevação de transaminases (15,1%); ganho de peso significativo em 40% dos estudos; conclusão de que a evidência permanece insuficiente diante do uso disseminado e não regulado. DOI: 10.3390/pharmaceutics17050638 · PubMed 40430929 ↩
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Amato AC, Amato JS, Benitti D. Lack of Scientific Evidence for the Use of Gestrinone in the Treatment of Lipedema: A Systematic Review. Cureus. 2025;17(11):e97213. Busca em PubMed, MEDLINE, Cochrane, LILACS, ClinicalTrials.gov e ReBEC até 30/07/2025: nenhum estudo — randomizado ou observacional — avaliando gestrinona para lipedema, e nenhum ensaio em andamento; diretrizes e posicionamentos de sociedades desaconselham uniformemente a prescrição off-label. DOI: 10.7759/cureus.97213 · PubMed 41426843 ↩
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Nascimento HS, Corrêa MG, Lemos OL, Lima HN, Amaral LSB — Universidade Federal da Bahia. Anabolic-androgenic steroids at supraphysiological doses: Cardiovascular impacts and pathophysiological mechanisms. J Steroid Biochem Mol Biol. 2026;258:106938. Revisão narrativa de 34 estudos (2015–2025) sobre o uso não terapêutico de esteroides anabolizantes androgênicos em doses suprafisiológicas: remodelamento miocárdico, hipertensão, dislipidemia, trombose, disfunção endotelial e inflamação sistêmica, com necessidade declarada de políticas públicas e estudos longitudinais. DOI: 10.1016/j.jsbmb.2026.106938 · PubMed 41539555 ↩
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Vilar L, Freitas MC, Naves LA, Casulari LA, Azevedo M, Montenegro R, et al. Diagnosis and management of hyperprolactinemia: results of a Brazilian multicenter study with 1234 patients. J Endocrinol Invest. 2008;31(5):436-44. Estudo retrospectivo em 10 centros endocrinológicos brasileiros: prolactinomas em 56,2% dos casos, hiperprolactinemia medicamentosa em 14,5%, macroprolactinemia em 9,3%, adenomas não funcionantes em 6,6%, hipotireoidismo primário em 6,3%; valores de prolactina acima de 500 ng/mL observados exclusivamente em prolactinomas. DOI: 10.1007/BF03346388 · PubMed 18560262 ↩
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Davis SR, Baber R, Panay N, Bitzer J, Perez SC, Islam RM, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. Documento endossado por onze sociedades, entre elas a Federación Latinoamericana de Sociedades de Climaterio y Menopausia; a única indicação baseada em evidência é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa. ⚠️ Fonte internacional, usada aqui apenas como reforço declarado da posição brasileira. DOI: 10.1210/jc.2019-01603 · PubMed 31498871 ↩