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Do que o sangue é composto?

O sangue se divide em duas partes: uma líquida, o plasma (mais da metade do volume), e as células — hemácias, leucócitos e plaquetas.5 Aqui você tem o infográfico da composição, o detalhe de cada elemento, a função de cada um, onde o sangue é produzido e os exames que o medem — com as faixas medidas na população adulta brasileira, e não importadas.1

Atualizado em 4 de setembro de 2026Editado por Smart Medical Care SAS
55 %Plasma44 %Hemácias
O sangue ≈ 55% de plasma + 45% de células, incluída a fina camada leucoplaquetária (“buffy coat”) de leucócitos e plaquetas (< 1%). Valores orientativos no adulto: o plasma é “mais de 50%” do volume nos hemocentros públicos brasileiros,5 e o hematócrito medido em brasileiros vai de 35,3 a 52,0% conforme o sexo.1

Plasma

≈ 55% do volume

Líquido amarelado (≈ 90% de água) que transporta células, nutrientes, hormônios, resíduos e proteínas como a albumina.

Exames que medem: Proteínas totais, albumina, eletrólitos…

Hemácias

≈ 44% (hematócrito)

As hemácias levam o oxigênio até os órgãos graças à hemoglobina. São as células mais numerosas.

Exames que medem: Hemograma, hemoglobina, hematócrito, VCM

Leucócitos

< 1% (camada leucoplaquetária)

Os leucócitos defendem o organismo contra as infecções e participam da imunidade.

Exames que medem: Hemograma (leucócitos, diferencial), PCR

Plaquetas

< 1% (camada leucoplaquetária)

Os trombócitos fazem a coagulação e param os sangramentos (formação do coágulo).

Exames que medem: Hemograma (plaquetas), coagulograma

Duas grandes partes: plasma e células

Se você deixar um tubo de sangue em repouso — ou passar pela centrífuga — o conteúdo se separa em duas camadas. Em cima fica o plasma, um líquido amarelado que representa mais da metade do volume e é formado por cerca de 90% de água, com proteínas (entre elas a albumina), sais minerais, vitaminas, hormônios, nutrientes, resíduos e os fatores de coagulação.5 Embaixo se depositam os elementos figurados — as células. A fração que elas ocupam é o hematócrito, e aqui vale insistir num ponto: os números que circulam na internet quase sempre vêm de populações estrangeiras. Medido em brasileiros adultos pela Pesquisa Nacional de Saúde, o hematócrito ficou entre 39,7 e 52,0% nos homens e entre 35,3 e 46,1% nas mulheres.1

Entre as duas camadas aparece uma película fina e esbranquiçada, a camada leucoplaquetária — no laboratório, quase sempre chamada pelo nome em inglês, “buffy coat”. São os leucócitos e as plaquetas, que juntos representam menos de 1% do volume e mesmo assim sustentam toda a defesa do organismo e a hemostasia. Essa separação não é uma curiosidade de laboratório: é ela que explica por que a coleta usa tubos diferentes, na ordem que a SBPC/ML recomenda — o tubo de EDTA, de tampa roxa, é o sexto da sequência, e a ordem existe para evitar contaminação cruzada entre aditivos.3

Os quatro componentes em detalhe

O plasma é o meio de transporte do sangue. Composto por cerca de 90% de água, carrega centenas de proteínas — a mais abundante é a albumina.5 A albumina mantém a pressão oncótica, que retém a água dentro dos vasos, e transporta hormônios, medicamentos e ácidos graxos; a taxa dela também funciona como indicador do estado geral.9 É no plasma que circulam os fatores da coagulação e quase todos os parâmetros que o laboratório dosa na bioquímica — a começar pela glicemia, que sai de um tubo próprio, o de fluoreto de sódio, de tampa cinza, o último da sequência de coleta.3

As hemácias — também chamadas de eritrócitos ou glóbulos vermelhos, e as três formas aparecem nos laudos brasileiros — são as células mais numerosas: de 4,3 a 5,8 milhões por mm³ nos homens e de 3,9 a 5,1 nas mulheres, segundo os valores medidos aqui.1 O formato de disco bicôncavo e a membrana flexível permitem que elas se deformem para atravessar os capilares mais finos, e estão cheias de hemoglobina, a proteína rica em ferro que fixa o oxigênio. Quando a estrutura dessa membrana se altera, aparecem certas anemias.7 Cada hemácia vive cerca de 120 dias.5

Muito menos numerosos, os leucócitos são as células de defesa. São cinco famílias, detalhadas no leucograma: neutrófilos (primeira linha contra bactérias), linfócitos (resposta aos vírus e memória imunológica), monócitos, eosinófilos (alergias e parasitoses) e basófilos. Umas sustentam a imunidade inata (rápida e inespecífica), outras a imunidade adaptativa (dirigida e com memória), junto com os anticorpos do plasma. Um detalhe brasileiro importante: o limite inferior medido pela Pesquisa Nacional de Saúde ficou perto de 2.850/mm³, bem abaixo do clássico 4.000/mm³ importado — a variante genética Duffy nulo, frequente em pessoas de ascendência africana, baixa a contagem sem que exista doença por trás.111

As plaquetas — ou trombócitos — são os menores elementos do sangue e, a rigor, não são células inteiras: são fragmentos sem núcleo, liberados na medula óssea por células gigantes, os megacariócitos. Assim que um vaso se rompe, elas aderem à parede lesada, se ativam e se agregam formando um tampão provisório; em seguida disparam a cascata da coagulação, que consolida o coágulo. Além da hemostasia, hoje se reconhece a elas um papel na inflamação e na defesa contra infecções.8

Faixas de referência medidas no Brasil (adulto)

ParâmetroHomensMulheresUnidade
Hemácias4,3 – 5,83,9 – 5,1milhões/mm³
Hemoglobina (Hb)13,0 – 16,911,5 – 14,9g/dL
Hematócrito (Ht)39,7 – 52,035,3 – 46,1%
Leucócitos2.843 – 9.4402.883 – 9.969/mm³
Plaquetas128.177 – 299.774135.606 – 343.044/mm³

Valores da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE 2014–2015, 8.952 adultos), o primeiro conjunto de faixas medido na população adulta brasileira — e não importado.1 Duas ressalvas ditas abertamente: a PNS calculou os limites como média ± 1,96 desvio-padrão, aproximação que empurra o limite inferior para baixo demais nas células de distribuição assimétrica (é o caso dos leucócitos); e as faixas mudam com a idade, na gestação e na infância. Acima de tudo, a referência que vale para você é a impressa no seu laudo — isso não é conselho, é norma: a RDC nº 786/2023 da ANVISA, no artigo 138, obriga o laboratório a informar os próprios valores de referência ao lado do resultado.2

Como tudo isso é medido?

O exame de referência é o hemograma completo, que conta hemácias, leucócitos e plaquetas e descreve a repartição dos leucócitos no leucograma.1 No laudo brasileiro as siglas da série vermelha são portuguesas — VCM (volume corpuscular médio), HCM (hemoglobina corpuscular média) e CHCM (concentração de hemoglobina corpuscular média) —, e só o RDW vem em inglês.1 Para o hemograma isolado não é preciso jejum: as próprias amostras da PNS que geraram as faixas nacionais foram colhidas a qualquer hora do dia.1 O plasma, por sua vez, é o suporte da maior parte da bioquímica: glicemia, lipidograma, eletrólitos, função renal e hepática. Para entender cada linha, veja o nosso glossário de exames de sangue, as fichas por marcador e a tabela de valores de referência.

Para que serve o sangue?

O sangue é, ao mesmo tempo, uma rede de transporte e de defesa. Suas funções principais:

  • Transportar o oxigênio dos pulmões até os órgãos — e levar o CO₂ de volta — graças à hemoglobina das hemácias, notavelmente adaptadas a essa tarefa.7
  • Levar os nutrientes (açúcares, gorduras, vitaminas) e os hormônios a todos os tecidos, e evacuar os resíduos para os rins e o fígado.5
  • Defender o organismo contra as infecções, pelos leucócitos e pelos anticorpos do plasma.5
  • Estancar sangramentos (coagulação), com as plaquetas e os fatores da coagulação.8
  • Regular a temperatura do corpo e o equilíbrio ácido-base (pH).

Onde o sangue é produzido?

As células do sangue nascem na medula óssea — no adulto, sobretudo nos ossos chatos: vértebras, costelas, quadril, crânio e esterno; na criança, também nos ossos longos.5 Todas vêm de um mesmo ponto de partida, as células-tronco hematopoéticas: é a hematopoese. Uma única célula-tronco pode dar origem a todas as linhagens — vermelha, branca e plaquetária — por uma cascata de diferenciação finamente regulada.10 Essas células têm vida limitada e são renovadas sem parar: uma hemácia vive cerca de 120 dias,5 enquanto as plaquetas duram cerca de uma semana e alguns leucócitos, apenas dias. Quando uma linhagem sai do equilíbrio, quem costuma revelar é o hemograma.

Tipo sanguíneo: ABO e fator Rh

Nem todo sangue é igual: a superfície das hemácias carrega antígenos que definem o tipo sanguíneo. Os dois sistemas que decidem a prática são o ABO (A, B, AB e O) e o fator Rh (positivo ou negativo). No Brasil, os grupos O e A somam 87% da população, o B fica com 10% e o AB, com 3%;5 os hemocentros públicos descrevem O positivo (36%) e A positivo (34%) como os mais frequentes.4 O O negativo é o doador universal de hemácias e é raro por aqui — por isso a pressão constante sobre o estoque dos hemocentros.5

Uma coisa surpreende muita gente: o seu tipo sanguíneo não sai no hemograma. A tipagem sanguínea ABO/Rh é um exame à parte, pedido antes de uma transfusão, num pré-operatório e no pré-natal — no pré-natal justamente por causa da incompatibilidade Rh entre a mãe e o bebê. E, mesmo com o tipo já conhecido, ele é reconferido antes de cada transfusão. Outra ausência que vale registrar: o hemograma não identifica o traço falciforme, que o Ministério da Saúde estima em 4% da população brasileira — quem confirma é a eletroforese de hemoglobina, cuja porta de entrada habitual é o teste do pezinho.6

Quanto sangue temos?

Um adulto tem, em média, cerca de 5 litros de sangue, variando com o peso5 — uma regra prática usada pelos hemocentros situa o volume em torno de 1/12 do peso corporal.4 Numa coleta comum, os poucos mililitros de cada tubo são irrisórios diante desse total: não “esvaziam” o organismo e são repostos rapidamente. É a mesma razão pela qual a doação de sangue é segura para um doador saudável: retiram-se no máximo 450 mL, e o intervalo mínimo entre duas doações é de 60 dias para homens e 90 dias para mulheres, justamente para proteger a saúde de quem doa.12

Perguntas frequentes

Do que o sangue é composto, em resumo?

De plasma (mais da metade do volume, sobretudo água e proteínas) e de células: hemácias (as mais numerosas), leucócitos e plaquetas.5

Qual é a porcentagem de plasma no sangue?

O plasma representa mais de 50% do volume total e é formado por cerca de 90% de água.5 O resto são as células, sobretudo as hemácias: a proporção delas é o hematócrito, medido em brasileiros adultos entre 39,7 e 52,0% nos homens e 35,3 e 46,1% nas mulheres.1

Onde são produzidas as células do sangue?

Na medula óssea — nos ossos chatos, nas vértebras, nas costelas, no quadril, no crânio e no esterno —, a partir de células-tronco hematopoéticas: é a hematopoese.510

Qual é a diferença entre plasma e soro?

O plasma é a parte líquida do sangue que não coagulou; o soro é o que sobra depois da coagulação, ou seja sem fibrinogênio. Na prática é a diferença entre um tubo com anticoagulante e um tubo sem — e é por isso que o tubo escolhido na coleta decide o que pode ser medido: o hemograma sai do tubo de EDTA, de tampa roxa, e a glicose do tubo de fluoreto, de tampa cinza.3

Qual é o componente mais numeroso?

As hemácias, com grande vantagem: de 3,9 a 5,8 milhões por mm³ conforme o sexo, contra alguns milhares de leucócitos.1

Aviso. Estas faixas têm finalidade informativa e educativa. Os valores variam conforme o laboratório, a idade e o sexo; a interpretação dos seus resultados cabe ao seu médico.

Fontes

  1. 1

    Rosenfeld LG, Malta DC, Szwarcwald CL, Bacal NS, et al. — “Valores de referência para exames laboratoriais de hemograma da população adulta brasileira: Pesquisa Nacional de Saúde”. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2019. Estudo financiado pelo Ministério da Saúde, com dados da PNS/IBGE 2014–2015 (8.952 adultos): faixas de hemácias, hemoglobina, hematócrito, leucócitos e plaquetas, siglas do laudo brasileiro, coleta a qualquer hora do dia e método de cálculo dos limites. · SciELO · DOI

  2. 2

    ANVISA — Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 786, de 5 de maio de 2023, sobre os requisitos técnico-sanitários dos serviços que realizam exames de análises clínicas. Artigo 138: o laudo deve conter “valores de referência, limitações técnicas da metodologia e dados para interpretação”. Texto consultado na edição comentada publicada pelo PNCQ. · PDF

  3. 3

    Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — “Recomendações da SBPC/ML: Boas práticas em laboratório clínico”. Barueri: Manole, 2020. Sequência de coleta dos tubos (EDTA de tampa roxa em sexto lugar, fluoreto de sódio de tampa cinza por último) e causas de variação pré-analítica. · PDF

  4. 4

    Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (HEMOAM) — “Tipos de Sangue”: composição do sangue, volume circulante equivalente a 1/12 do peso corporal e distribuição dos tipos sanguíneos no Brasil (O positivo 36%, A positivo 34%). · hemoam.am.gov.br

  5. 5

    Centro de Hemoterapia e Hematologia do Espírito Santo (HEMOES) — “Sobre o sangue”: plasma como mais de 50% do volume total e formado por 90% de água, volume médio de 5 litros no adulto, vida média das hemácias de 120 dias, produção na medula óssea dos ossos chatos, e distribuição dos grupos ABO no Brasil (O e A 87%, B 10%, AB 3%; O negativo como doador universal). · hemoes.es.gov.br

  6. 6

    Ministério da Saúde — “Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme”, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024. Estimativa de 4% da população brasileira com traço falciforme, confirmação por eletroforese de hemoglobina e Programa Nacional de Triagem Neonatal. · PDF

  7. 7

    Risinger M, Kalfa TA. — “Red cell membrane disorders: structure meets function”. Blood, 2020. · PubMed · DOI

  8. 8

    Gremmel T, Frelinger AL, Michelson AD. — “Platelet Physiology”. Seminars in Thrombosis and Hemostasis, 2024. · PubMed · DOI

  9. 9

    Manolis AA, Manolis TA, Melita H, et al. — “Low serum albumin: a neglected predictor in patients with cardiovascular disease” (funções fisiológicas da albumina). European Journal of Internal Medicine, 2022. · PubMed · DOI

  10. 10

    Laurenti E, Göttgens B. — “From haematopoietic stem cells to complex differentiation landscapes” (hematopoese). Nature, 2018. · PubMed · DOI

  11. 11

    Hibbs SP, Chipare I, Halawani AJ, et al. — “Multinational assessment of absolute neutrophil counts and white blood cell counts among healthy Duffy-null adults”. Blood, 2026 (contagens naturalmente mais baixas no fenótipo Duffy nulo). · PubMed · DOI

  12. 12

    Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo — “O sangue e sua doação: perguntas e respostas”: volume máximo de 450 mL por doação, 5 a 6 litros de sangue num adulto e intervalos mínimos de 60 dias (homens) e 90 dias (mulheres) entre duas doações. · prefeitura.sp.gov.br