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Hepatograma: TGO e TGP, GGT e fosfatase alcalina

O que o hepatograma mede, por que o Ministério da Saúde já usa um limite de normalidade mais baixo para a TGP e como o SUS cobra cada dosagem.

Publicado em 4 de setembro de 202616 min de leituraEscrito pela Equipe Blood Analysis · Revisado e verificado por Julien Priour

O hepatograma é o conjunto de exames de sangue que avalia o fígado. No pedido médico ele também aparece como enzimas hepáticas ou exames de função hepática — e, no seu laudo, como uma lista de cinco linhas: TGO, TGP, gama-glutamil transferase, fosfatase alcalina e bilirrubinas. Este guia explica o que cada uma significa e quais números as autoridades brasileiras realmente usam.

Em resumo

  • O hepatograma reúne cinco dosagens: TGO, TGP, gama-glutamil transferase, fosfatase alcalina e bilirrubina total e frações.
  • "Hepatograma" não é um nome oficial. Não existe procedimento com esse nome na tabela do SUS, e a SBPC/ML recomenda evitar nomes genéricos no pedido de exames.
  • O Ministério da Saúde já adotou um limite de normalidade mais baixo para a TGP: 35 U/L em homens e 25 U/L em mulheres — abaixo dos ~40 U/L que a maioria dos laudos imprime.
  • Enzima normal não significa fígado normal. A diretriz brasileira é explícita: medir enzimas hepáticas isoladamente não é recomendado para rastrear esteatose (classe III).
  • A esteatose é o contexto número um de um hepatograma alterado no Brasil: 32,5% dos adultos do ELSA-Brasil tinham a doença ao ultrassom. A antiga DHGNA mudou de nome, e a sigla em português ainda não se firmou.
  • Não existe regra de jejum para o hepatograma no Brasil. Mas a fosfatase alcalina sobe depois de comer, e a TGO sobe por até 24 horas após exercício intenso.
  • No SUS, as cinco dosagens têm códigos separados e somam R$ 11,55.
  • Nenhum número isolado fecha um diagnóstico: o hepatograma se lê junto com o seu peso, o seu histórico e os seus outros exames, com o seu médico.

O que é o hepatograma — e por que esse nome não é oficial

O fígado não tem um exame único. O que o laboratório chama de hepatograma é uma seleção de analitos que, juntos, contam uma história: se há lesão das células do fígado, se há obstrução do fluxo da bile, e se o órgão ainda está trabalhando. É uma convenção de laboratório, não uma entidade normativa — e duas verificações independentes mostram isso.

A primeira vem da medicina laboratorial brasileira. No manual Boas práticas em laboratório clínico, a SBPC/ML orienta que o nome dos exames1 no pedido seja legível e sem abreviaturas — exceto as já consagradas, e cita duas: FA (fosfatase alcalina) e GGT (gama glutamil transferase). E acrescenta que "deve-se evitar nomes genéricos do tipo: íons, função renal, bilirrubinas, sorologia para hepatite viral".2

A segunda vem do SUS. Varrendo os 5.023 procedimentos da tabela SIGTAP na competência de agosto de 2026, não existe nenhum item chamado "hepatograma", nem qualquer painel hepático.3 As cinco dosagens estão lá, cada uma cobrada separadamente — o mesmo padrão já observado no lipidograma: o painel existe na prática, não na tabela.

Onde o Estado brasileiro chega perto de definir um hepatograma é no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hepatite C e Coinfecções, atualizado em julho de 2026. No quadro de exames pré-tratamento, o objetivo "avaliar lesão/função hepática e estadiar a hepatopatia crônica" corresponde a uma lista explícita: hemograma, tempo de protrombina/RNI, ALT, AST, GGT, FA, bilirrubina total e frações, proteínas totais e frações.4 É a enumeração mais próxima de um hepatograma oficial que existe no Brasil — e é maior do que as cinco linhas do seu laudo.

Os cinco exames, e o que cada um está medindo

Os cinco não medem a mesma coisa: dividem-se em três grupos.

Enzimas de lesão: TGO e TGP

TGP (transaminase glutâmico-pirúvica, ou ALT) e TGO (transaminase glutâmico-oxalacética, ou AST) ficam dentro das células do fígado. Quando essas células são danificadas, elas vazam para o sangue: subir TGO e TGP significa lesão, não perda de função.

A diferença está na distribuição. A TGP é mais concentrada no fígado. A TGO também existe no músculo, no coração e nas hemácias — o que explica dois fenômenos práticos:

  • Exercício intenso eleva a TGO por 12 a 24 horas, junto com a creatinoquinase e a aldolase.2
  • Uma amostra hemolisada falseia a TGO muito antes de falsear a TGP. Na tabela de interferências da SBPC/ML, a TGO já sofre interferência significativa a partir de 40 mg/dL de hemoglobina livre; a TGP só a partir de 90 mg/dL.2 Se o laudo traz uma observação sobre hemólise, é a TGO que merece mais desconfiança.

Detalhes do par em TGO e TGP.

Enzimas de colestase: fosfatase alcalina e GGT

Fosfatase alcalina e gama-glutamil transferase não sinalizam morte de célula hepática. Elas sobem quando o fluxo da bile encontra dificuldade.

A diferença entre elas é de origem. A fosfatase alcalina não é só hepática: há uma isoenzima óssea importante e uma intestinal. A GGT é praticamente hepatobiliar. Por isso as duas se leem em conjunto: fosfatase alcalina alta com GGT normal puxa a investigação para o osso; as duas altas juntas apontam para a via biliar. A GGT ainda é um dos quatro ingredientes do Fatty Liver Index, ao lado de IMC, circunferência abdominal e triglicérides.5 Veja fosfatase alcalina e gama-glutamil transferase.

Bilirrubinas

A bilirrubina é o produto da degradação da hemoglobina. Ela nasce indireta (não conjugada), passa pelo fígado, ganha ácido glicurônico e vira direta (conjugada), solúvel em água, que sai pela bile.2

Isso torna a bilirrubina o único item do hepatograma que também é um exame hematológico. Indireta alta com fígado normal costuma apontar para destruição aumentada de hemácias — o terreno da haptoglobina, dos reticulócitos e da G6PD; direta alta aponta para o fígado ou a via biliar. No SUS as três não são cobradas separadamente: há um único código para "bilirrubina total e frações".3 Detalhes em bilirrubina.

O que o hepatograma não mede

Aqui está a armadilha do nome "provas de função hepática": quatro das cinco linhas não medem função nenhuma — medem lesão e obstrução. Quem mede função são exames que raramente vêm no hepatograma padrão:

  • Tempo de protrombina / RNI, porque os fatores de coagulação são fabricados pelo fígado (SIGTAP 0202020142, R$ 2,73).3
  • Proteínas totais e frações (0202010627, R$ 1,85), item que o Ministério da Saúde lista no protocolo da hepatite C.4 Vale registrar uma ausência: nos 79 procedimentos do subgrupo de bioquímica do SIGTAP não existe código para dosagem de albumina sérica — há microalbumina na urina e albumina como medicamento, a do sangue não.3

Se o seu médico pediu TAP/RNI e proteínas junto com o hepatograma, não são exames "a mais": completam o que falta.

Valores de referência: o número que já mudou

Este é o ponto em que o seu laudo pode estar atrasado em relação ao Estado brasileiro.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Hepatite B e Coinfecções, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 25, de 18 de maio de 2023, trata o assunto de frente. Reconhece que "não há consenso geral sobre o LSN [limite superior da normalidade] em pacientes com hepatites ou sobre o ponto de corte de ALT/TGP para indicação de tratamento nos principais guias internacionais". E então decide: por causa do risco em pacientes com valores normais ou limítrofes, o protocolo "preconiza que resultados de 35 U/L, para homens, e 25 U/L, para mulheres, sejam recomendados como Limite Superior de Normalidade".6

O trabalho que abriu essa discussão internacionalmente foi um estudo italiano com 6.835 doadores de sangue, que propôs 30 U/L para homens e 19 U/L para mulheres contra os 40 e 30 então vigentes.7 (Fonte internacional, na falta de equivalente brasileiro.) Três réguas, portanto, e as divergências convivem:

ReferênciaHomensMulheres
Limites clássicos, descritos por Prati e cols. (2002)40 U/L30 U/L
PCDT Hepatite B (Ministério da Saúde, 2023)35 U/L25 U/L
Proposta de Prati e cols. (2002)30 U/L19 U/L

A régua do Ministério da Saúde fica no meio das duas. Confira sempre o intervalo impresso no seu laudo: ele depende do método de cada laboratório.

A diretriz brasileira de doença hepática esteatótica registra o mesmo impasse sem fechá-lo: cita evidências de que os valores de referência da ALT "podem precisar ser revistos em populações específicas", mas conclui que baixar o corte "ainda precisa ser validado".8

Na prática: uma TGP de 28 U/L pode ser "normal" no seu laudo e não é normal na régua que o Ministério da Saúde usa para uma mulher. Não é motivo para pânico — é motivo para mostrar o resultado ao médico.

TGO e TGP juntos: o que a relação diz — e o que as fontes brasileiras não dizem

"TGO e TGP" é uma dupla porque quase nunca vêm sozinhas. E a relação entre elas — a razão TGO/TGP, historicamente chamada razão de De Ritis — é um clássico da leitura hepática.

Vale ser direto sobre o que se verificou. Procurando "De Ritis", "AST/ALT" e "TGO/TGP" nos quatro documentos brasileiros de referência deste guia — o manual da SBPC/ML (1,5 milhão de caracteres), a diretriz SBEM/SBH/Abeso e os dois PCDT de hepatite — "De Ritis" não aparece nenhuma vez, a razão é citada uma única vez (na diretriz, grafada "(AST)/ALT") e nenhum deles lhe atribui ponto de corte.2864

Esses documentos fazem outra coisa: colocam a TGO e a TGP dentro de escores, não numa razão isolada. A discussão da razão em si está em TGO.

Onde a TGO e a TGP realmente decidem alguma coisa: FIB-4 e APRI

O que muda a conduta hoje, no Brasil, não é a enzima sozinha: é a fibrose, estimada por escores que combinam as suas transaminases com a idade e as plaquetas do hemograma completo.

O PCDT da hepatite C publica as duas fórmulas: o APRI, que divide a TGO pelo seu próprio limite superior e depois pelas plaquetas; e o FIB-4, que multiplica idade por TGO e divide pelas plaquetas vezes a raiz quadrada da TGP.4 O FIB-4 usa as duas transaminases, cada uma de um jeito.

E aqui aparece uma divergência real entre duas autoridades brasileiras, que não se arbitra:

  • O PCDT da hepatite C usa FIB-4 < 1,45 como baixa probabilidade de fibrose avançada e ≥ 3,25 como alta. Para o APRI, o corte é < 1,0 para excluir cirrose — com um dado calculado para o Brasil: dada a prevalência de 23% de cirróticos entre os portadores de hepatite C crônica no país, um APRI < 1 exclui cirrose corretamente em 91% das vezes.4
  • A diretriz SBEM/SBH/Abeso adota FIB-4 ≥ 1,39 como o ponto a partir do qual não se pode descartar fibrose avançada, com valor preditivo negativo de cerca de 91% abaixo disso.8

Não é contradição: são doenças e populações diferentes. Mas o mesmo número, do mesmo sangue, é lido em duas réguas.

Um hepatograma alterado no Brasil: a esteatose vem primeiro

Se o seu hepatograma veio alterado e você não bebe, a hipótese mais provável no Brasil é a esteatose hepática — gordura no fígado. E o tamanho do fenômeno foi medido aqui. No ELSA-Brasil, coorte de servidores públicos de seis cidades, entre 7.073 adultos de 35 a 74 anos avaliados por ultrassom, 33,9% tinham esteatose pela definição antiga e 32,5% pela nova; ao longo de 9,4 anos, quem tinha a doença apresentou 88% mais incidência de diabetes tipo 2.10 Numa análise posterior da mesma coorte, com 8.569 participantes e o Fatty Liver Index como critério, a prevalência chegou a 43,9%.5 O escore ultrassonográfico do ELSA foi validado contra tomografia (sensibilidade de 85,1%).11

O nome mudou, e a sigla em português ainda não se acomodou. Em junho de 2023, no congresso da EASL, as sociedades de hepatologia abandonaram "doença hepática gordurosa não alcoólica" (DHGNA) por ser estigmatizante. A Sociedade Brasileira de Hepatologia publicou o anúncio — e, na mesma página, usa duas siglas diferentes para o novo termo: DHEMA na chamada e DHE no corpo.12 Um artigo brasileiro de 2024 nos Cadernos de Saúde Pública usa uma terceira, DHEADM.10 Em inglês a sigla é estável: MASLD. E a página da própria SBH para o público sobre esteatose, de 21 de março de 2017, continua no ar usando "DHGNA" do começo ao fim.13

E aqui vem a recomendação mais importante deste guia. A diretriz conjunta da SBEM, da SBH e da Abeso — 48 recomendações, 2023 — traz uma recomendação negativa, classe III:

Recomendação 5: em pacientes com sobrepeso/obesidade, a medida de enzimas hepáticas isoladamente não é recomendada para rastreamento de esteatose hepática.8

O motivo está no próprio texto: uma metanálise com 4.094 pacientes, dos quais 1.023 com esteato-hepatite, encontrou 25% dos casos de doença e 19% dos de esteato-hepatite com TGP normal.8 O exame recomendado para rastrear esteatose é a ultrassonografia abdominal. A mesma diretriz faz uma adaptação brasileira — como a população de origem asiática é significativa no país, o rastreamento começa em IMC > 23 kg/m² — e define o ritmo do seguimento: a cada 2 a 3 anos sem fibrose avançada, a cada 12 meses nos estágios 2 e 3, a cada 6 meses na cirrose.8

Se o hepatograma alterado vem com glicemia ou hemoglobina glicada elevadas, o assunto muda de departamento: a Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda rastrear risco de fibrose avançada em todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2.14 O mesmo vale para insulina e lipidograma.

Antes de culpar o fígado: o que mais precisa ser excluído

A recomendação 6 da diretriz brasileira, classe I, manda excluir outras causas de doença hepática diante de esteatose ou de transaminases elevadas, e publica a lista com o exame de cada uma:8

  • Hepatite A — anti-HAV IgM; hepatite B — HBsAg; hepatite C — anti-HCV
  • Hemocromatose — ferritina e saturação de transferrina
  • Hepatite autoimune — anticorpo antimúsculo liso, anti-KLM, FAN
  • Colangite biliar primária — anticorpo antimitocôndria
  • Doença de Wilson — cobre urinário, cobre sérico e ceruloplasmina
  • Deficiência de alfa-1-antitripsina — alfa-1-antitripsina
  • Doença celíaca — anticorpos antiendomísio e antitransglutaminase IgA
  • Uso de álcool e de medicamentos

Note que álcool e medicamentos fecham a lista — e não têm exame de sangue: dependem do que você contar na consulta.

Hepatites virais e o SUS

O hepatograma não diagnostica hepatite viral — quem faz isso são as sorologias, outro exame. Mas os dois andam juntos, e no Brasil o acesso é amplo: a tabela do SUS tem códigos para o anti-HCV e para o HBsAg destinados à população geral, separados dos de gestantes, e também para os testes rápidos correspondentes.3 A testagem não está reservada a grupos de risco.

Os protocolos que organizam esse cuidado são datáveis. O da hepatite C foi atualizado pela Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026, que revogou a Portaria SCTIE/MS nº 84, de 2018.4 O da hepatite B, pela Portaria SECTICS/MS nº 25, de 18 de maio de 2023.6 E um detalhe do primeiro contraria a intuição: sobre o hepatograma pré-tratamento, ele diz que esses exames "não são necessários para prescrição do tratamento na maioria dos casos".4

Preciso de jejum para o hepatograma?

Não existe, no Brasil, uma regra de jejum específica para o hepatograma. O que existe são princípios gerais.

A SBPC/ML explica por que algum jejum costuma ser pedido: o estado pós-prandial pode turvar o soro e interferir na metodologia. E dá um exemplo do nosso painel — "a elevação fisiológica da enzima fosfatase alcalina, especialmente a isoenzima intestinal, no período pós-prandial imediato".2 É o único dos cinco itens com uma razão explícita para não colher logo após comer. Na direção oposta, a mesma fonte alerta que "devem ser evitadas coletas de sangue após períodos muito prolongados de jejum, acima de 12 horas".2

Três orientações apoiadas em texto primário: água é permitida durante o jejum, assim como medicamentos de uso contínuo não suspensos pelo médico; evite álcool nas 48 a 72 horas anteriores; e evite exercício intenso na véspera, pela elevação da TGO.2 Para a elastografia hepática, aí sim há regra: jejum de pelo menos 2 horas e repouso mínimo de 10 minutos.6

Na dúvida, siga o laboratório: a orientação depende também dos outros exames do mesmo pedido, como a glicemia em jejum ou o lipidograma.

Quanto custa no SUS

Na tabela SIGTAP de agosto de 2026, cada dosagem tem o seu código:3

ExameCódigoValor
Bilirrubina total e frações0202010201R$ 2,01
Fosfatase alcalina0202010422R$ 2,01
Gama-glutamil-transferase (Gama GT)0202010465R$ 3,51
Transaminase glutâmico-oxalacética (TGO)0202010643R$ 2,01
Transaminase glutâmico-pirúvica (TGP)0202010651R$ 2,01
TotalR$ 11,55

A GGT é a mais cara das cinco, sozinha mais do que TGO e TGP somadas. E repare no nome oficial: o SIGTAP escreve "gama-glutamil-transferase" por extenso, com "(gama GT)" só entre parênteses. O SUS também cobre a elastografia hepática ultrassônica (0205020224, R$ 24,20).3 Veja também quanto custa um exame de sangue.

Perguntas frequentes

Hepatograma, enzimas hepáticas e provas de função hepática são a mesma coisa? Na prática, sim. Mas "provas de função hepática" é o menos exato dos três: quatro das cinco dosagens medem lesão ou obstrução, não função. Função se mede pelo tempo de protrombina/RNI e pelas proteínas.4

Minha TGP está em 28 e o laudo diz normal. Está tudo bem? Está dentro da faixa impressa. Mas, para uma mulher, esse valor está acima dos 25 U/L que o Ministério da Saúde adota como limite superior da normalidade no protocolo da hepatite B.6 A régua depende de quem está lendo — por isso o resultado vai ao médico, não à gaveta.

Preciso repetir o exame se veio alterado? Com frequência, sim. O protocolo da hepatite B é explícito: alterações "devem ser confirmadas com a repetição do teste", e para indicar tratamento exige duas dosagens consecutivas com intervalo mínimo de 3 meses.6

Por que o médico pediu plaquetas junto com o hepatograma? Porque APRI e FIB-4 combinam transaminases, idade e contagem de plaquetas.4 O hemograma não é um extra: é parte do cálculo. Para os rins, o conjunto é outro — veja função renal, creatinina e ureia.

O que levar deste guia

O hepatograma é barato, rápido e frequentemente mal lido. Guarde três coisas. Enzima normal não é fígado normal: a diretriz brasileira desaconselha usar enzimas isoladas para rastrear esteatose. O limite de "normal" da TGP está em disputa, e o Ministério da Saúde já adotou 35 U/L para homens e 25 U/L para mulheres. E o que decide conduta é a fibrose, calculada por escores que juntam as suas transaminases às suas plaquetas.

Para conferir o vocabulário do laudo, veja o glossário de exames de sangue e a composição do sangue; para unidades, o conversor de unidades. E para uma leitura do conjunto do seu laudo, o AI DiagMe é um complemento à avaliação do seu médico — nunca um substituto.

Fontes

Fontes institucionais brasileiras e publicações científicas (PubMed) utilizadas neste guia:

Footnotes

  1. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) — sociedade científica brasileira de referência em medicina laboratorial, responsável pela série Recomendações da SBPC/ML. sbpc.org.br

  2. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML)Recomendações da SBPC/ML: Boas práticas em laboratório clínico. Barueri: Manole. Capítulos consultados: variação pré-analítica (jejum, elevação pós-prandial da fosfatase alcalina intestinal, limite de 12 horas de jejum, efeito do exercício sobre a AST por 12 a 24 horas); pedido laboratorial (recomendação de evitar nomes genéricos; abreviaturas consagradas FA e GGT; água e medicamentos permitidos; álcool evitado por 48 a 72 horas); amostra hemolisada (Tabela 1 de interferências: AST a partir de 40 mg/dL de hemoglobina, ALT a partir de 90 mg/dL); bilirrubina e urobilinogênio. PDF 2 3 4 5 6 7 8

  3. Ministério da Saúde / DATASUSSIGTAP: Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS, competência 08/2026 (arquivo TabelaUnificada_202608, tabela tb_procedimento, 5.023 procedimentos). Códigos e valores das cinco dosagens do hepatograma, do TAP e das proteínas totais e frações; códigos de sorologia e de teste rápido para HBsAg e anti-HCV destinados à população geral; elastografia hepática ultrassônica. Ausência verificada por varredura completa: nenhum procedimento denominado "hepatograma" ou painel hepático, e nenhum código para dosagem de albumina sérica entre os 79 procedimentos do subgrupo de bioquímica. Página oficial (DATASUS) 2 3 4 5 6 7

  4. Ministério da Saúde (SCTIE/MS) e ConitecProtocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, atualizado pela Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026, que revogou a Portaria SCTIE/MS nº 84, de 19 de dezembro de 2018. Seções consultadas: Quadro 7 (exames complementares pré-tratamento e a composição da avaliação de lesão/função hepática), 10.3.2 (estadiamento não invasivo, fórmulas do APRI e do FIB-4, Quadro 8 com os pontos de corte, prevalência de 23% de cirrose por hepatite C crônica na população brasileira). PDF (gov.br/saude) 2 3 4 5 6 7 8 9

  5. de Paula D, Feter N, Dos Reis RCP, Griep RH, Duncan BB, Schmidt MI. Associations of activity, sedentary and sleep behaviors with prevalent steatotic liver disease in middle-aged and older adults: the ELSA-Brasil study. Journal of Activity, Sedentary and Sleep Behaviors, 2024; 3(1): 16. Terceira onda do ELSA-Brasil (2017-2019), 8.569 participantes; prevalência de 43,9% pelo Fatty Liver Index ≥ 60, escore composto por IMC, circunferência abdominal, GGT e triglicérides. PubMed · DOI 2

  6. Ministério da Saúde (SECTICS/MS) e ConitecProtocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite B e Coinfecções, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 25, de 18 de maio de 2023, que revogou a Portaria SAS/MS nº 469, de 23/07/2002, e a Portaria SCTIE/MS nº 43, de 07/12/2016. Seções consultadas: 9.2 (limite superior da normalidade de ALT/TGP de 35 U/L em homens e 25 U/L em mulheres; ausência de consenso internacional; exigência de duas dosagens com intervalo mínimo de 3 meses), Quadro 1 (fases da infecção crônica), preparo para elastografia hepática. PDF (gov.br/saude) 2 3 4 5 6

  7. Fonte internacional, citada em complemento por não existir equivalente brasileiro. Prati D, Taioli E, Zanella A, Della Torre E, Butelli S, Del Vecchio E, Vianello L, et al. Updated definitions of healthy ranges for serum alanine aminotransferase levels. Annals of Internal Medicine, 2002; 137(1): 1-10. Estudo com 6.835 doadores de sangue de primeira vez; propõe limites superiores de 30 U/L para homens e 19 U/L para mulheres, contra os 40 e 30 então vigentes. Trabalho de referência da discussão internacional sobre o limite superior da normalidade da ALT. PubMed · DOI

  8. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) — Moreira RO, Valerio CM, Villela-Nogueira CA, Cercato C, Gerchman F, Lottenberg AMP, Godoy-Matos AF, et al. Brazilian evidence-based guideline for screening, diagnosis, treatment, and follow-up of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD) in adult individuals with overweight or obesity: A joint position statement. Archives of Endocrinology and Metabolism, 2023; 67(6): e230123. Documento de posicionamento conjunto com 48 recomendações. Seções consultadas no texto integral (PDF de 23 páginas): Recomendação 1 (corte de IMC > 23 kg/m² para a população brasileira), Recomendação 2 (ultrassonografia), Recomendação 5 e discussão (enzimas hepáticas isoladas, classe III; metanálise com 4.094 pacientes), Recomendação 6 e Tabela 3 (causas a excluir), Recomendações 7 e 8 (FIB-4 ≥ 1,3 e VCTE), Recomendações 13 a 15 (periodicidade do seguimento). PubMed · PDF · DOI 2 3 4 5 6 7

  9. Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) — sociedade científica brasileira de referência em doenças do fígado, cossignatária da diretriz de 2023 sobre doença hepática esteatótica. sbhepatologia.org.br

  10. Lopes GW, Canhada SL, Reis RCPD, Diniz MFHS, Goulart AC, Faria LC, Griep RH, et al. Comparing diabetes prediction based on metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease and nonalcoholic fatty liver disease: the ELSA-Brasil study. Cadernos de Saúde Pública, 2024; 40(11): e00009924. Coorte brasileira de 7.073 adultos de 35 a 74 anos, esteatose definida por ultrassonografia; prevalências de 33,9% (DHGNA) e 32,5% (definição metabólica); seguimento de 9,4 anos. O resumo em português do artigo emprega a sigla "DHEADM". PubMed · DOI 2

  11. Goulart AC, Oliveira IR, Alencar AP, Santos MS, Santos IS, Martines BM, Meireles DP, et al. Diagnostic accuracy of a noninvasive hepatic ultrasound score for non-alcoholic fatty liver disease (NAFLD) in the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). São Paulo Medical Journal, 2015; 133(2): 115-124. Validação do escore ultrassonográfico do ELSA-Brasil contra tomografia computadorizada, com sensibilidade de 85,1% e especificidade de 73,4%. PubMed · DOI

  12. Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH)Sociedades Multinacionais de Fígado Anunciam Nova Nomenclatura para Doença Hepática "Gordurosa", Afirmativa e Não Estigmatizante. Anúncio conjunto de ALEH, AASLD e EASL feito em 24 de junho de 2023 no Congresso da EASL, em Viena. A página emprega duas siglas distintas para o mesmo termo em português: "DHEMA" na chamada e "DHE" no corpo. sbhepatologia.org.br

  13. Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) — Cotrim HP. Esteatose Hepática. Página de informação ao público, datada de 21 de março de 2017 e ainda no ar, redigida integralmente com a nomenclatura anterior (DHGNA). Citada aqui como exemplo verificado de documento oficial acessível porém desatualizado. sbhepatologia.org.br

  14. Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) — Godoy-Matos AF, Valério CM, Silva Júnior WS, de Araujo-Neto JM, Bertoluci MC. 2024 UPDATE: the Brazilian Diabetes Society position on the management of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD) in people with prediabetes or type 2 diabetes. Diabetology & Metabolic Syndrome, 2024; 16(1): 23. Nove recomendações; rastreamento do risco de fibrose avançada indicado em todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2. PubMed · DOI

Aviso médico. Este guia tem finalidade informativa e educativa; não constitui aconselhamento médico e não substitui uma consulta. Os valores de referência variam conforme o laboratório e a técnica: só o seu médico pode interpretar os seus resultados no seu contexto.